Há alguns meses o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, museu paraense dedicado à arte moderna e contemporânea, recebeu a doação de várias obras, dentro da programação do 36º Arte Pará. Diferente de outras edições do evento, é mínima a presença de obras recentes ou que apontem os novos caminhos percorridos pelos artistas, pois se privilegiou (considerando a estratégia de doação) obras significativas e artistas com trajetórias consolidadas. Quero tratar de uma obra que é, de certa forma, tanto uma coisa quanto outra.

ALICERCE
FUTURO POSTAGEM

Me refiro à Ausente presença (2013), de Marcone Moreira, um dos trabalhos incorporados ao acervo da Casa das Onze Janelas. A produção de Marcone Moreira me interessa, para além dela própria, porque minha trajetória de vida cruza a dele em Marabá, no sudeste paraense, partida de uns, chegada de outros. Foi em Marabá que vi Ausente presença pela primeira vez, lambe-lambe fixado em uma discreta parede da Unifesspa por volta de 2015. Desde lá tenho tentado enfrentá-la. Por isso ofereço, aqui, meu diálogo com essa obra.

Apesar de ser um trabalho com alguns anos de existência, ele apresenta uma direção ainda nova na produção do artista, que parece incipiente e não totalmente explorada. É, portanto, um ponto singular no conjunto da já extensa produção de Marcone Moreira. É preciso se demorar diante de Ausente presença algo além dos poucos segundos de contemplação tornados praxe pelas grandes exposições. Ver talvez seja algo mais que contemplar.

Sentidos da indicialidade

Ausente presença é um díptico fotográfico. Há aqui já um primeiro ponto que sinaliza novas direções na produção de Marcone Moreira. Nas obras que o projetaram nacionalmente, o artista se utiliza de estratégias de apropriação de objetos, coletados ou trocados com outras pessoas. A materialidade desses objetos e fragmentos apropriados do mundo é um elemento muito significativo nesses trabalhos, pois é ali que se inscrevem os vestígios, marcas do tempo e do percurso dessa matéria-prima que Marcone Moreira utiliza.

Ao migrar das apropriações para a fotografia, o artista reforça ainda mais a importância dos vestígios do tempo em suas obras. Os indícios gravados no corpo de madeiras, isopores e tantos outros utensílios são talvez equivalentes aos indícios que a fotografia traz enquanto gravação da luz, objeto gerado a partir da ação do mundo, apropriação visual de um determinado tempo e lugar.

Investigar os sentidos da indicialidade, portanto, pode ser uma maneira de nos aproximarmos para enfrentar Ausente presença. Dos rastros na materialidade, procedimento típico em outras obras de Marcone Moreira, aos rastros enquanto imagem. Mas que imagens a obra nos desperta?

Questão campesina

Em um cenário lamacento, à esquerda, há dois pés modelados em argila, esmagados por pegadas gravadas sobre eles. No lado oposto temos uma placa de metal com nomes masculinos: monumento fúnebre em memória dos dezenove camponeses mortos (oficialmente admitidos) no episódio do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996.

Os pés moldados em argila são um recurso poético que Marcone Moreira utiliza há algum tempo e que, no díptico, crescem em significado. Enquanto na maior parte de sua produção o elemento humano estava apenas insinuado na materialidade de seus objetos, por meio da argila o referido elemento humano se torna explícito: figuração realista, metonímia talvez modelada a partir dos pés do próprio autor. Além disso, as pegadas inscritas sobre os moldes são, também, indícios do personagem humano que as produziu.

Também a fotografia da placa evoca a presença de pessoas, por meio daquilo que temos de mais codificado como nossa identidade social: nomes e sobrenomes. A placa, porém, não foi produzida pelo artista tal qual a encenação dos pés-de-barro. Ela possui o acúmulo de tempo de uma história que nela se deposita. O artista se apropria desse outro tipo de materialidade, simbólica e indicial, que aponta para uma narrativa concreta, ferida jamais cicatrizada nessa região do país. A questão campesina surge não apenas em uma reflexão sobre a posse de terras na região, mas a partir de um dos maiores símbolos da violência resultante desses conflitos.

Imbricações entre estética e política

Ausente presença organiza várias referências a indivíduos reais envolvidos no problema fundiário, e contribui para pensarmos nas consequências efetivas deste sobre suas vidas. Há, nesse ponto, mais um caminho que a produção de Marcone Moreira parece querer investigar. Se na maioria de suas obras anteriores o humano era um elemento genérico e impalpável, prevalecendo o aspecto formal dos objetos empregados nas obras do artista, em Ausente presença temos o humano encarnado em um contexto social e histórico, camada de sentido dificilmente relegada ao segundo plano em prol do aspecto estético da obra.

É evidente que o artista está se debruçando sobre uma questão que hoje parece crucial à arte contemporânea: as possíveis imbricações entre arte e política, questão sempre retomada em épocas e contextos de maior engajamento social dos artistas. Ausente presença é singular, no conjunto de obras do artista, por nos oferecer uma relação inusitada entre estética e política, em que estas duas dimensões são interdependentes e se potencializam uma na outra.

Ao fazer uso de outro tipo de indicialidade, tomando referências estéticas e textuais de uma situação traumática de conhecimento público, Marcone Moreira torna a obra capaz de narrar uma história, de se vincular a um discurso sobre a Amazônia (no caso, sobre o Massacre de Eldorado dos Carajás e sobre a questão fundiária). Essa operação parece pouco plausível para os fragmentos de embarcações, carrocerias ou porteiras tão caros ao artista, matéria-prima de obras igualmente relevantes e provocadoras, mas nas quais a dimensão estética em geral se sobrepõe à dimensão discursiva e política. Ausente presença dispensa o parágrafo informativo acrescentado às legendas de algumas outras obras do artista.

Do que a arte é capaz?

Seria o caso de supormos que, em Ausente presença, Marcone Moreira busca uma produção que se quer política sem abandonar a especificidade estética da arte? Artistas e obras com intenções semelhantes parecem julgar pertinente atuar politicamente no mundo permanecendo dentro da esfera de relativa autonomia do campo artístico. Parece haver um desafio comum a toda essa produção, o desafio de visibilizar o contexto a que as obras se vinculam por meio da potencialidade do estético nos vários meios e suportes disponíveis. Em Ausente presença esse desafio é encarado com inteligência e sofisticação poética, por meio das estratégias até aqui comentadas.

A questão também pode ser formulada nos seguintes termos: do que exatamente um trabalho de arte é capaz? Pode-se argumentar que, sendo um bem simbólico inserido em um circuito restrito e especializado, a obra de arte não deveria ser tomada como ação política em sentido mais estrito. Também se pode argumentar que não é e nunca foi esta a função primordial da arte, esta abstração sobre a qual parecemos ter tantas certezas.

Entretanto, muitos artistas contemporâneos têm testado os limites de ação e atuação política de suas práticas artísticas. Obras como Ausente presença não se colocam nesse registro e são, de uma determinada perspectiva, um tanto convencionais – há outros trabalhos de Marcone Moreira bem mais alinhados a esse tipo de prática. Mas Ausente presença é suficiente para nos mostrar que as obras de arte atuam politicamente em nosso meio: aqui, a questão do Outro é exemplar.

O Outro presente, o Outro ausente

Os vestígios (rastros na materialidade, rastros enquanto imagem) que Marcone Moreira trabalha apontam sempre para um Outro implicado em suas obras: geralmente um sujeito suburbano ou rural, muitas vezes amazônico, criador das visualidades que o artista investiga. Quando Marcone Moreira (ele próprio um Outro étnico e geográfico para o circuito artístico brasileiro) desloca essa cultura visual subalternizada para dentro do circuito institucional da arte contemporânea, opera de modo a colocar a hierarquia de valores estéticos em xeque, e deixar à mostra o fato de que esses valores (simbólicos, mas também financeiros) são construções arbitrárias condicionadas por interesses que estão para além do artístico.

Essa é uma das capacidades de atuação política que a obra de Marcone Moreira possui. Tal relação complexa com esses muitos Outros (o sujeito amazônico, o sujeito do campo artístico) está manifestada também em Ausente presença, que desde o título nos fala de alguém que só alcançaremos pelos rastros. O que significa o oxímoro de uma presença ausente? De quem é esta presença que apenas se intui na obra?

Temos algumas obviedades, como o fato dos pés em argila poderem ser tomados como símbolo de uma pessoa ou de um grupo social específico. Pés-de-barro em meio à lama. Pés, aquilo que temos de mais próximo à terra, esse chão do qual nos alimentamos e que cedo ou tarde nos engole. Os pés apontariam para os trabalhadores rurais que a placa ao seu lado nomeia? Presenças ausentes, invisíveis, invisibilizadas, esmagadas sob o peso de uma cultura latifundiária e escravista de muitos séculos.

Por fim, o que dizer das pegadas que sobre esses pés se imprime? Marcas de sobreposição, subjugação e sufocamento. Mas tenhamos calma, os pequenos ramos verdes são frágeis, mas brotam com teimosia em meio à lama ou até mesmo em meio ao concreto.

Quando menos se esperar, vingarão.

(Gil Vieira Costa)

 

Há alguns meses o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, museu paraense dedicado à arte moderna e contemporânea, recebeu a doação de várias obras, dentro da programação do 36º Arte Pará. Diferente de outras edições do evento, é mínima a presença de obras recentes ou que apontem os novos caminhos percorridos pelos artistas, pois se privilegiou (considerando a estratégia de doação) obras significativas e artistas com trajetórias consolidadas. Quero tratar de uma obra que é, de certa forma, tanto uma coisa quanto outra.

Me refiro à Ausente presença (2013), de Marcone Moreira, um dos trabalhos incorporados ao acervo da Casa das Onze Janelas. A produção de Marcone Moreira me interessa, para além dela própria, porque minha trajetória de vida cruza a dele em Marabá, no sudeste paraense, partida de uns, chegada de outros. Foi em Marabá que vi Ausente presença pela primeira vez, lambe-lambe fixado em uma discreta parede da Unifesspa por volta de 2015. Desde lá tenho tentado enfrentá-la. Por isso ofereço, aqui, meu diálogo com essa obra.

Apesar de ser um trabalho com alguns anos de existência, ele apresenta uma direção ainda nova na produção do artista, que parece incipiente e não totalmente explorada. É, portanto, um ponto singular no conjunto da já extensa produção de Marcone Moreira. É preciso se demorar diante de Ausente presença algo além dos poucos segundos de contemplação tornados praxe pelas grandes exposições. Ver talvez seja algo mais que contemplar.

Sentidos da indicialidade

Ausente presença é um díptico fotográfico. Há aqui já um primeiro ponto que sinaliza novas direções na produção de Marcone Moreira. Nas obras que o projetaram nacionalmente, o artista se utiliza de estratégias de apropriação de objetos, coletados ou trocados com outras pessoas. A materialidade desses objetos e fragmentos apropriados do mundo é um elemento muito significativo nesses trabalhos, pois é ali que se inscrevem os vestígios, marcas do tempo e do percurso dessa matéria-prima que Marcone Moreira utiliza.

Ao migrar das apropriações para a fotografia, o artista reforça ainda mais a importância dos vestígios do tempo em suas obras. Os indícios gravados no corpo de madeiras, isopores e tantos outros utensílios são talvez equivalentes aos indícios que a fotografia traz enquanto gravação da luz, objeto gerado a partir da ação do mundo, apropriação visual de um determinado tempo e lugar.

Investigar os sentidos da indicialidade, portanto, pode ser uma maneira de nos aproximarmos para enfrentar Ausente presença. Dos rastros na materialidade, procedimento típico em outras obras de Marcone Moreira, aos rastros enquanto imagem. Mas que imagens a obra nos desperta?

Questão campesina

Em um cenário lamacento, à esquerda, há dois pés modelados em argila, esmagados por pegadas gravadas sobre eles. No lado oposto temos uma placa de metal com nomes masculinos: monumento fúnebre em memória dos dezenove camponeses mortos (oficialmente admitidos) no episódio do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996.

Os pés moldados em argila são um recurso poético que Marcone Moreira utiliza há algum tempo e que, no díptico, crescem em significado. Enquanto na maior parte de sua produção o elemento humano estava apenas insinuado na materialidade de seus objetos, por meio da argila o referido elemento humano se torna explícito: figuração realista, metonímia talvez modelada a partir dos pés do próprio autor. Além disso, as pegadas inscritas sobre os moldes são, também, indícios do personagem humano que as produziu.

Também a fotografia da placa evoca a presença de pessoas, por meio daquilo que temos de mais codificado como nossa identidade social: nomes e sobrenomes. A placa, porém, não foi produzida pelo artista tal qual a encenação dos pés-de-barro. Ela possui o acúmulo de tempo de uma história que nela se deposita. O artista se apropria desse outro tipo de materialidade, simbólica e indicial, que aponta para uma narrativa concreta, ferida jamais cicatrizada nessa região do país. A questão campesina surge não apenas em uma reflexão sobre a posse de terras na região, mas a partir de um dos maiores símbolos da violência resultante desses conflitos.

Imbricações entre estética e política

Ausente presença organiza várias referências a indivíduos reais envolvidos no problema fundiário, e contribui para pensarmos nas consequências efetivas deste sobre suas vidas. Há, nesse ponto, mais um caminho que a produção de Marcone Moreira parece querer investigar. Se na maioria de suas obras anteriores o humano era um elemento genérico e impalpável, prevalecendo o aspecto formal dos objetos empregados nas obras do artista, em Ausente presença temos o humano encarnado em um contexto social e histórico, camada de sentido dificilmente relegada ao segundo plano em prol do aspecto estético da obra.

É evidente que o artista está se debruçando sobre uma questão que hoje parece crucial à arte contemporânea: as possíveis imbricações entre arte e política, questão sempre retomada em épocas e contextos de maior engajamento social dos artistas. Ausente presença é singular, no conjunto de obras do artista, por nos oferecer uma relação inusitada entre estética e política, em que estas duas dimensões são interdependentes e se potencializam uma na outra.

Ao fazer uso de outro tipo de indicialidade, tomando referências estéticas e textuais de uma situação traumática de conhecimento público, Marcone Moreira torna a obra capaz de narrar uma história, de se vincular a um discurso sobre a Amazônia (no caso, sobre o Massacre de Eldorado dos Carajás e sobre a questão fundiária). Essa operação parece pouco plausível para os fragmentos de embarcações, carrocerias ou porteiras tão caros ao artista, matéria-prima de obras igualmente relevantes e provocadoras, mas nas quais a dimensão estética em geral se sobrepõe à dimensão discursiva e política. Ausente presença dispensa o parágrafo informativo acrescentado às legendas de algumas outras obras do artista.

Do que a arte é capaz?

Seria o caso de supormos que, em Ausente presença, Marcone Moreira busca uma produção que se quer política sem abandonar a especificidade estética da arte? Artistas e obras com intenções semelhantes parecem julgar pertinente atuar politicamente no mundo permanecendo dentro da esfera de relativa autonomia do campo artístico. Parece haver um desafio comum a toda essa produção, o desafio de visibilizar o contexto a que as obras se vinculam por meio da potencialidade do estético nos vários meios e suportes disponíveis. Em Ausente presença esse desafio é encarado com inteligência e sofisticação poética, por meio das estratégias até aqui comentadas.

A questão também pode ser formulada nos seguintes termos: do que exatamente um trabalho de arte é capaz? Pode-se argumentar que, sendo um bem simbólico inserido em um circuito restrito e especializado, a obra de arte não deveria ser tomada como ação política em sentido mais estrito. Também se pode argumentar que não é e nunca foi esta a função primordial da arte, esta abstração sobre a qual parecemos ter tantas certezas.

Entretanto, muitos artistas contemporâneos têm testado os limites de ação e atuação política de suas práticas artísticas. Obras como Ausente presença não se colocam nesse registro e são, de uma determinada perspectiva, um tanto convencionais – há outros trabalhos de Marcone Moreira bem mais alinhados a esse tipo de prática. Mas Ausente presença é suficiente para nos mostrar que as obras de arte atuam politicamente em nosso meio: aqui, a questão do Outro é exemplar.

O Outro presente, o Outro ausente

Os vestígios (rastros na materialidade, rastros enquanto imagem) que Marcone Moreira trabalha apontam sempre para um Outro implicado em suas obras: geralmente um sujeito suburbano ou rural, muitas vezes amazônico, criador das visualidades que o artista investiga. Quando Marcone Moreira (ele próprio um Outro étnico e geográfico para o circuito artístico brasileiro) desloca essa cultura visual subalternizada para dentro do circuito institucional da arte contemporânea, opera de modo a colocar a hierarquia de valores estéticos em xeque, e deixar à mostra o fato de que esses valores (simbólicos, mas também financeiros) são construções arbitrárias condicionadas por interesses que estão para além do artístico.

Essa é uma das capacidades de atuação política que a obra de Marcone Moreira possui. Tal relação complexa com esses muitos Outros (o sujeito amazônico, o sujeito do campo artístico) está manifestada também em Ausente presença, que desde o título nos fala de alguém que só alcançaremos pelos rastros. O que significa o oxímoro de uma presença ausente? De quem é esta presença que apenas se intui na obra?

Temos algumas obviedades, como o fato dos pés em argila poderem ser tomados como símbolo de uma pessoa ou de um grupo social específico. Pés-de-barro em meio à lama. Pés, aquilo que temos de mais próximo à terra, esse chão do qual nos alimentamos e que cedo ou tarde nos engole. Os pés apontariam para os trabalhadores rurais que a placa ao seu lado nomeia? Presenças ausentes, invisíveis, invisibilizadas, esmagadas sob o peso de uma cultura latifundiária e escravista de muitos séculos.

Por fim, o que dizer das pegadas que sobre esses pés se imprime? Marcas de sobreposição, subjugação e sufocamento. Mas tenhamos calma, os pequenos ramos verdes são frágeis, mas brotam com teimosia em meio à lama ou até mesmo em meio ao concreto.

Quando menos se esperar, vingarão.

(Gil Vieira Costa)

 

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