Correio de Carajás

Entre universidade e ONGs, Marabá constrói redes de apoio à população LGBTI+

Quarta e última reportagem da série “Viver é Resistir” reflete sobre como iniciativas acadêmicas e comunitárias atuam no acolhimento e no cuidado em saúde mental de pessoas LGBTI+ no município

Experiências de pessoas trans em Marabá mostram que essa população precisa de cuidado e atenção para viver com dignidade/Foto editada por IA
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 07/02/2026 09h08

Redes de apoio formadas por universidades, organizações da sociedade civil e iniciativas comunitárias têm garantido acolhimento, cuidado e possibilidades de permanência à população LGBTI+ em Marabá, no sudeste do Pará, interior da Amazônia. Em um contexto ainda marcado pelo conservadorismo e pela ausência de políticas públicas sólidas, essas ações têm sido fundamentais para proteger a saúde mental e afirmar o direito de viver com dignidade.

Produzida na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), a pesquisa “Estresse de minoria em pessoas trans e não‑binárias” ajuda compreender os impactos da transfobia na saúde mental da comunidade queer, mas também reforça o papel do apoio social como fator de proteção dessa população. Esse movimento se conecta diretamente com iniciativas que já atuam no município, dentro e fora do ambiente acadêmico.

A estudante de Psicologia Gabi Dutra, mulher trans e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, relata que o processo de pesquisa foi também um espaço de troca e fortalecimento da rede de apoio. “No início, realizávamos rodas de conversa e debates a partir de textos. A gente compartilhava experiências e refletia sobre o que poderia ser acrescentado ao trabalho. Esse espaço coletivo foi fundamental para a construção da pesquisa”, afirma.

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Gabi Dutra: “São as ONGs que tentam, a todo custo, oferecer apoio e criar espaços de acolhimento para a população LGBT”/Foto: Evangelista Rocha

Segundo ela, a produção de um relatório executivo e de um artigo científico teve como objetivo devolver o conhecimento à sociedade de forma acessível. Quando os dados são apresentados de forma clara, eles ajudam profissionais de saúde a reconhecer tendências e vulnerabilidades, esse passo é importante para um cuidado mais qualificado.

Para Gabi, a atuação das organizações da sociedade civil em Marabá é central nesse processo. “Mesmo sem políticas públicas consolidadas, são as ONGs que tentam, a todo custo, desenvolver trabalhos voltados para essa população, oferecendo apoio e criando espaços de acolhimento”. Ela avalia que o pioneirismo da pesquisa e sua circulação fora da universidade representam um caminho de resistência e fortalecimento da luta por dignidade.

RESPONSABILIDADE DA UNIVERSIDADE

O professor Caio Maximino de Oliveira, coordenador do estudo e docente do curso de Psicologia da Unifesspa, afirma que a universidade tem responsabilidade direta com essas pautas.

“Produzir conhecimento sobre a saúde mental de pessoas trans, não binárias e travestis é uma forma de reconhecer a gravidade do que essas pessoas vivem e de enfrentar esse problema de maneira estruturada”, explica. Segundo ele, uma universidade diversa faz perguntas diferentes e amplia as formas de compreender a realidade. Quando pessoas trans, não binárias, indígenas e quilombolas são incluídas, as pesquisas são pensadas a partir de outras vivências, o que permite respostas mais justas.

Caio ressalta que compreender os efeitos sociais da transfobia ajuda a romper com a ideia de falha individual: “Perceber que esse sofrimento é resultado de um processo social pode levar ao fortalecimento coletivo e comunitário, ajudando a mitigar parte dos impactos impostos à saúde mental”.

Por isso a divulgação desses estudos para além do meio acadêmico é fundamental. Dom Condeixa, professor do curso de Jornalismo da Unifesspa, destaca que pesquisas precisam cumprir um papel social: “Quando elas vêm a público, permitem que a sociedade conheça, reflita e se responsabilize”.

Dom Condeixa: “Pesquisas sobre a comunidade LGBT permitem que a sociedade conheça, reflita e se responsabilize”/Foto: Evangelista Rocha

Para ele, tornar visíveis as violências cotidianas sofridas por pessoas LGBTI+ ajuda a desnaturalizar práticas como piadas e a desconsideração do nome social. Ou seja, quando a imprensa apresenta os dados de forma acessível, a informação se transforma em instrumento de empatia, conscientização e mobilização social.

Além da pesquisa, outras ações afirmativas da Unifesspa também têm ampliado o sentimento de pertencimento. A pró-reitora de Ações Afirmativas, Rosimar Regina Rodrigues de Oliveira, destaca o trabalho do Núcleo de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (Nuade), que atua desde 2018.

“Não adianta atender só quem já está dentro da universidade. É preciso criar condições para que quem está fora consiga chegar”, afirma. Ela ressalta que a presença de pessoas trans em espaços de decisão tem efeito simbólico importante porque mostra que é possível resistir e permanecer.

ACOLHIMENTO FORA DA ACADEMIA

Para além da universidade, a atuação de organizações comunitárias tem garantido acesso direto ao cuidado. A ONG Viver LGBT, criada há dois anos em Marabá, atua no atendimento às demandas mais básicas da comunidade. A presidente da entidade, a jornalista Tayana Marquioro, explica que a organização surgiu da vontade de trabalhar de forma contínua junto à comunidade. “O nome Viver LGBT representa exatamente o nosso maior desejo, que é viver plenamente, com direitos respeitados e conquistados”, afirma.

Uma das principais ações da ONG é a articulação de atendimentos psicológicos. A iniciativa buscou por psicólogos LGBTs, para que quem procura atendimento se sinta mais confortável e acolhido. Segundo Tayana, esse um espaço de escuta tem impacto direto na vida das pessoas.

“É reconfortante saber que, de alguma forma, conseguimos oferecer cuidado e evitar situações extremas”, diz.

Um dos profissionais responsáveis por esse cuidado é o psicólogo Lucival Monteiro, voluntário da ONG e profissional do CAPS III Castanheira em Marabá. Ele explica que os atendimentos funcionam como porta de entrada para a rede de saúde mental: “Realizamos terapias de breve duração, que servem para acolher, orientar e avaliar se há necessidade de encaminhamento para outros serviços”. Para ele, o atendimento por profissionais LGBT fortalece o cuidado pois, quando a pessoa se sente segura, a ansiedade diminui e o vínculo terapêutico se fortalece.

Já a estudante de Direito e ativista LGBTI+ Amaya Darcy relata que encontrou na universidade um espaço de acolhimento e apoio. “Eu encontro respeito de professores e alunos, mesmo que ainda falte identificação e referência”, afirma. Para ela, redes de cuidado também passam por práticas pessoais e coletivas.

Amaya Darcy: “A ONG Viver LGBT me deu a certeza de que existe um movimento interessado em apoiar, acolher e informar”/Foto: Evangelista Rocha

“A ONG Viver LGBT me deu a certeza de que existe um movimento interessado em apoiar, acolher e informar”, relata.

São depoimentos e vivências de pessoas trans como Gabi, Dom e Amaya que reforçam a importância da pesquisa desenvolvida pela Unifesspa. Ao apontar o apoio social como fator de proteção, o estudo evidencia que redes de acolhimento, ações afirmativas e vínculos comunitários são caminhos concretos para enfrentar a exclusão.

Em Marabá, essas experiências mostram que resistir também é cuidar, produzir conhecimento, criar espaços seguros e afirmar, no cotidiano, o direito da população LGBTI+ de viver com dignidade.