📅 Publicado em 07/03/2026 12h00✏️ Atualizado em 06/03/2026 08h25
“Uma das certezas que eu tenho é que ser mulher já é um ato de resistência”. A declaração é de Suzi Sacramento, conselheira tutelar em Marabá desde 2020. Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a trajetória dela ajuda a compreender como a atuação feminina na proteção à infância impacta também a vida de mulheres que enfrentam situações de abandono, violência e desamparo.
“Eu vim para o conselho com uma única finalidade: fazer justiça e dar um atendimento humanizado. Quem vem ao Conselho Tutelar não vem porque está tudo bem na família”, reconhece.
Foi com essa convicção que Suzi assumiu o primeiro mandato, em 2020, em plena pandemia de covid-19, período marcado pelo aumento das vulnerabilidades sociais e pela sobrecarga das famílias.
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Ela explica que o Conselho Tutelar é o órgão responsável por garantir que os direitos de crianças e adolescentes, previstos em lei, sejam cumpridos. Quando há violação, como falta de matrícula escolar, ausência de atendimento de saúde ou negligência, é o conselho que intervém para que o poder público cumpra sua obrigação.
Suzi faz questão de reforçar que não se trata de favor, é um direito e não uma gentileza. Ela frisa que costuma definir o conselho como “a ponta da lança”, por ser muitas vezes o primeiro serviço público a chegar a realidades onde o Estado ainda não conseguiu atuar plenamente. Ao entrar nas casas e conhecer diferentes contextos, estabeleceu para si um princípio: não julgar.
“Eu não estou ali só para aplicar a letra fria da lei. Eu estou como ser humano, como mãe, como mulher”, afirma. Para ela, a escuta respeitosa e a compreensão da singularidade de cada família são fundamentais para que a intervenção gere resultados concretos.
Exposta na linha de frente
É estando na linha de frente da defesa de crianças e adolescentes, que Suzi observa a realidade por trás da maioria dos casos: inúmeras mulheres criam os filhos sozinhas.
“Em sua maioria são mães solo, abandonadas pelos companheiros, lutando sozinhas”, destaca a conselheira.
Nesse ponto, sua identificação é direta. Como mãe que cria os filhos sozinha, ela reconhece na própria vivência as dificuldades que muitas dessas mulheres enfrentam. Por sentir na pele as dores, como ela mesma afirma, seu “trato” é diferente.
Essa proximidade também a expõe. Em alguns atendimentos, o fato de ser mulher torna o ambiente ainda mais tenso. Durante uma ocorrência, Suzi ficou trancada dentro de uma casa enquanto era ameaçada por um homem com um facão. Ela não detalha o local por questões éticas, mas afirma que o episódio marcou sua trajetória.
“Acredito que aquilo aconteceu por eu ser mulher”, reflete. Para ela, ainda persiste a ideia de que a mulher pode ser intimidada com mais facilidade. É por isso que para se manter nesse espaço, a mulher precisa se provar constantemente, seja no ambiente profissional ou no doméstico.
Suzi reflete que a mulher trabalha fora e, ao retornar, continua responsável pela rotina doméstica e pelos filhos, acumulando jornadas. Nesse cenário, ela entende que o conhecimento se torna ferramenta essencial para garantir direitos. A conselheira reconhece que fazer o serviço público cumprir a lei não é simples e que, muitas vezes, é preciso cobrar e insistir para que a estrutura funcione.
Olhar feminino
Para Suzi Sacramento, a presença feminina influencia diretamente na condução dos casos. Ela acredita que a vivência como mãe e a experiência de administrar múltiplas responsabilidades ampliam a sensibilidade no atendimento.
“Eu coloco muito de mim nos atendimentos. Penso na minha família quando estou diante de uma criança ou adolescente”, afirma.
Isso, segundo ela, não significa deixar de aplicar a lei, mas equilibrar firmeza e humanidade.
Em Marabá, existem dois Conselhos Tutelares, cada um com cinco membros, totalizando dez conselheiros. Atualmente, seis são mulheres. Para Suzi, essa presença majoritária representa um avanço na forma como a proteção à infância é conduzida no município.
“São mulheres aguerridas, batalhadoras, que estão ali para fazer a diferença”, afirma.
Suzi Sacramento, Graziellen Medeiros, Ellen Máxima, Pastora Francy, Elaine de França e Pastora Mônica de Jesus, são mulheres que atuam cotidianamente para garantir que direitos não fiquem apenas no papel. Em cada visita, notificação e orientação, o trabalho do Conselho Tutelar alcança crianças, adolescentes e mães que encontram no órgão um primeiro ponto de apoio.
Conselheiros são escolhidos por voto da população, por isso, na avaliação de Suzi, esse processo tem elevado o nível de exigência quanto ao preparo técnico dos candidatos e fortalecido a capacidade de garantir direitos.
E a história de vida de Suzi ajuda a explicar sua conexão com seu trabalho. Nascida em Tucuruí, ela chegou ainda bebê a Marabá, cidade onde cresceu e construiu sua história. É mãe de três filhos. Duas filhas estão vivas, uma com 30 anos e outra com 19. Um filho faleceu. A perda foi decisiva para que buscasse a função no Conselho Tutelar. “Foi uma das causas de eu estar aqui para querer fazer justiça”, afirma.
A formação acadêmica também sustenta essa atuação. Pedagoga, com especialização em Psicopedagogia, Suzi está concluindo a formação em Neuropsicopedagogia. Embora o cargo de conselheira tutelar seja eletivo e com mandato determinado, ela afirma que a experiência transformou sua vida pessoal e profissional.
“É desgastante, é difícil, mas me fortaleceu. Hoje tenho mais vontade de lutar para mudar a realidade do meu município”.
