Correio de Carajás

Doença de chagas em Ananindeua: mortes em 2026 já superam últimos 5 anos

Surto de chagas mata 4 pessoas em cidade da Grande Belém em 2026, mais que os últimos 5 anos somados. Com 14 casos só em janeiro — 30% do total de 2025 —, transmissão oral preocupa.

Doença de Chagas é provocada pelo inseto barbeiro — Foto: Reprodução/Secretaria de Estado da Saúde

A cidade de Ananindeua, na Grande Belém, registrou quatro mortes por doença de chagas em 2026. O número é maior que todos os óbitos registrados nos últimos cinco anos no município. Diante do avanço da doença, o Ministério da Saúde classificou o cenário como surto.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de Ananindeua divulgados até esta segunda-feira (26), há 14 casos notificados da doença em janeiro. Das quatro mortes, uma delas foi de uma menina de 11 anos, que morreu após ficar quase duas semanas internada na UTI.

O Ministério da Saúde informou que acompanha a situação epidemiológica da doença no município, onde foi identificado um surto associado à transmissão oral, a partir da ingestão de água ou alimentos contaminados com agentes infecciosos.

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Dados da Secretaria de Saúde Pública do Pará (Sespa) mostram que o número de casos registrados até o momento em Ananindeua, apenas em janeiro, representa cerca de 30% de todos os casos de 2025.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que intensificou as ações de vigilância, monitoramento e atendimento aos pacientes, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde, com apoio técnico do Instituto Evandro Chagas (IEC).

A primeira morte foi notificada foi do jovem Ronald Maia da Silva. Segundo a família, ele apresentou os primeiros sintomas no início de dezembro e passou por atendimento em uma UPA de Ananindeua e em dois prontos-socorros de Belém.

O números de mortes confirmadas por doença de chagas supera até o dados registrados em Belém. De 2020 até janeiro de 2026, a capital paraense contabilizou três mortes.

Em nota, o Ministério da Saúde disse que as ações de combate envolvem articulação com a Sespa, secretarias municipais, a Anvisa e os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde.

Entre as medidas adotadas estão a investigação dos casos, a assistência aos pacientes e a avaliação das condições sanitárias na cadeia de produção e comercialização de alimentos, em especial, o açaí, devido o alto consumo no estado.

Falta de higiene e mudança no padrão da doença

 

Segundo a professora de cardiologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Dilma do Socorro Moraes de Souza, os surtos de doença de chagas estão, em grande parte, ligados à falta de higiene no processamento de alimentos.

“O branqueamento do fruto é fundamental para eliminar grandes chances da infecção. Quando esse processo não é feito corretamente, o risco aumenta, e isso afeta tanto a saúde da população quanto a renda dos comerciantes”, diz.

A especialista explica que a principal forma de prevenção da doença de chagas por transmissão oral é o chamado branqueamento dos frutos, processo que envolve uma sequência de etapas de higienização.

Ela também chama atenção para a mudança na sazonalidade da doença.

“Tradicionalmente, os casos relacionados ao açaí aumentam no segundo semestre, por conta da safra do fruto, mas estamos observando um surto no início do ano, o que foge do padrão e exige atenção redobrada”, explica.

 

Branqueamento: o procedimento começa com a seleção e retirada de impurezas, seguida da lavagem com água limpa e da desinfecção com hipoclorito de sódio.

Em seguida, os frutos devem ser mergulhados em água aquecida a, no mínimo, 80 °C por cerca de dez segundos e, logo após, resfriados.

De acordo com a especialista, quando realizado corretamente, o processo reduz significativamente o risco de contaminação.

A doença de chagas é causada pelo parasita Trypanosoma cruzi e pode ser transmitida de diferentes formas. A mais conhecida ocorre pelo contato com fezes do inseto popularmente chamado de barbeiro, que pode contaminar a pele ou mucosas após a picada.

Na região amazônica, porém, a principal forma de transmissão tem sido a via oral, quando alimentos ou bebidas são consumidos sem higienização adequada e acabam contaminados pelo parasita, como açaí, caldo de cana ou outros produtos manipulados de forma inadequada.

O tratamento da doença de Chagas é ofertado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e a orientação é que pessoas com sintomas procurem uma Unidade Básica de Saúde.

(Fonte:G1)