Correio de Carajás

Dia do Índio rima com (muita) produção e sustentabilidade

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Numa região marcada pela forte presença indígena, uma mulher se destaca na liderança de seu povo e conduz a comunidade Akrãtikatêjê, do povo Gavião da Montanha, para um futuro de sustentabilidade e fortalecimento da cultura. A aldeia dela é uma das menores entre as 16 da Terra Indígena Mãe Maria, a 7 km de Morada Nova, em Marabá, mas o que se vê lá dentro impressiona os kupêns (não índios) e causa inveja aos vizinhos.

O nome dela é Kátia Tonkiré, a primeira cacique Gavião no Brasil. Esta semana, ela abriu as portas da aldeia para Reportagem do Correio de Carajás e mostrou a diversidade de produção de seu povo, com castanha-do-pará industrializada, um criatório com cerca de 100 mil peixes, muitas galinhas, 3 mil pés de banana, ampla roça de milho, mandioca, açaí e cupuaçu.

Aldeia Kátia Tonkiré apresenta o galpão onde as castanhas são processadas e torradas para venda até mesmo aos EUA

São apenas 21 famílias na aldeia Akrãtikatêjê (73 pessoas), mas o trabalho intenso de seus moradores precisou de apenas nove anos para transformar uma área degradada em uma atrativa comunidade. O toque feminino fez muita diferença por lá.

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E Kátia liderou esse movimento, baseada nas orientações de seu pai, o saudoso cacique Payaré, que foi tangido com seu povo da região de Tucuruí no início da década de 1980, por causa do alagamento de suas terras para formação de um imenso lago da Usina Hidrelétrica daquele município.

Mas uma das apostas mais certeiras de Kátia é a educação. Crianças de jovens de seu povo estão focados no estudo e a aldeia oferece aulas de educação infantil, ensino fundamental e médio. De lá, saem para faculdade e depois retornam para contribuir com seu povo.

Ouro em forma de castanha e peixe

A visão de eliminar o atravessador e vender a castanha-do-pará para grandes revendedores ou ao consumidor, diretamente, é o grande diferencial dos 73 indígenas da aldeia Akrãtikatêjê em relação a outras comunidades da região.

Aliado a isso, eles também implantaram a piscicultura, que se transformou na principal fonte de renda da aldeia, com cerca de 100.000 peixes em um imenso e belo lago, que enche os olhos dos visitantes logo na entrada do povoado.

– “Nem Grande” lança milho para os peixes do imenso lago onde a comunidade cria várias espécies de peixe

O projeto de criatório de peixes deve ser tratado no superlativo. Há peixes de várias espécies, desde o tradicional tambaqui até o indomável tucunaré. Nos dias em que a aldeia abre suas portas para vender a produção de peixe, compradores fazem fila. O peixe produzido ali é criado com milho e macaxeira, o que garante a melhor qualidade do pescado.

Eles também construíram seis berçários que dão inveja a muitos fazendeiros que investiram na piscicultura. Apenas para os alevinos os indígenas utilizam ração, mas quando chegam à idade de três meses, acabam indo para o lago, onde a alimentação é natural.

CASTANHA CROCANTE

O investimento em castanha também surpreende os visitantes. Mais do que coletar na mata, os Akrãtikatêjê passaram a comprar a amêndoa dos irmãos da TI Mãe Maria e de outros fornecedores. Eles têm acumulado em um grande barracão cerca de 13 mil quilos do produto.Mas o diferencial está em como preparam a castanha antes da comercialização. Há cerca de seis meses, a cacique Kátia fez uma parceria com Valdiney, que veio do Mato Grosso com alto clave e uma técnica de manter a castanha crocante para o consumo.

Ela passa por câmara fria, cozimento, depois é assada em forno por cerca de 24 horas. Nessa indústria, trabalham dez mulheres e três homens. O resultado é uma castanha crocante, que mantém suas propriedades alimentares.

Com muita castanha acumulada, os índios têm garantia de comercialização o ano inteiro. Esta semana, um comprador apareceu e encomendou 300 quilos. Uma empresa americana está negociando a compra de mais 5.000 quilos. O quilo custa R$ 38,00, mas na compra de grande quantidade ele baixa. “Precisamos, o mais urgente possível, ampliar nosso galpão industrial e lutamos para isso. Destinamos parte de nossa renda a novos investimentos. Aqui na aldeia você não vê carrões, mas gente que trabalha muito para chegarmos à sustentabilidade sem dependermos do dinheiro da Vale”, diz Kátia.

Na busca por diversificar a produção, a aldeia foi mais longe. Já plantou 1.100 pés de maracujá; 1.100 de mamão papaia; 30 mil pés de milho (irrigado para produção o ano inteiro); e pretende, ainda este ano, investir em uma fábrica de polpa de açaí e implantar uma câmera fria para congelar filé de peixe para comercialização.

Kátia não tem vergonha de dizer que sua comunidade recebe apenas R$ 77 mil por mês da Vale. E na divisão do dinheiro não há hierarquia e todos recebem valores iguais. Todavia, em um mês a verba é repassada integralmente a todos eles e, no mês seguinte, é aplicada em investimentos, como compra de castanha, por exemplo.

Outra curiosidade sobre a aldeia Akrãtikatêjê é que tudo é muito limpo e há um trabalho educativo para manter as casas e áreas comuns com a maior higiene possível. O resultado é que poucos indígenas adoecem.

Kupepramre Valdenilson Topramre é um jovem que está sendo moldado para a futura gestão da aldeia. Ele faz faculdade de Contabilidade e deverá ocupar, em breve, o cargo de coordenador da escola da aldeia. “Aqui a Kátia decide qual curso cada um de nós fará na cidade, dependendo da necessidade da nossa comunidade. Isso tem dado muito certo”, comemora.

Aposta visionária na educação

Desenvolvimento econômico e qualidade de vida na aldeia Akrãtikatêjê passam pelos bancos da sala de aula, da educação infantil ao mestrado

A aldeia Akrãtikatêjê, a 7 km de Morada Nova, em Marabá, tem casas muito simples. Bem diferente das irmãs mais velhas, localizadas na Terra Indígena Mãe Maria, ali ao lado. Mas algumas estruturas parecem ter um toque de profissional de engenharia civil.

É o caso do imenso lago artificial com mais de 20 mil metros quadrados formado para abrigar os peixes que fazem parte da alimentação e também da economia da comunidade. A estrutura de entrada e saída de água foi toda calculada por um “engenheiro” nato, Nildivaldo da Costa Valdenísio, mais conhecido como “Nem Grande”. Ele projetou a carga de ferro, cimento e outros materiais para que o grande volume de água que sai do lago no inverno não provocasse o rompimento da barragem.

Saiu da cabeça dele, também, o projeto para construção de seis grandes tanques que servem de berçário para os alevinos que aguardam chegar à idade adolescente para ir para o lago. Sem contar todo o sistema hidráulico e até mesmo uma orla que está sendo feita com bancos estilizados e personalizados ao redor do lago. “Estamos projetando construir um restaurante em cima do morro para atrair turistas, que poderão comprar peixe aqui fresco e comer aqui mesmo”, revela.

A construção de novos galpões para a indústria de castanha, prédio da escola e outras estruturas de engenharia estão todas desenhadas na cabeça de Nem Grande. “Não está nada no papel. Mas sei exatamente como vai ficar cada coisa”, argumenta, revelando que chegou a fazer o curso de administração, mas abandonou as aulas.

E por falar em escola, a comunidade Akrãtikatêjê investe pesado na qualidade de ensino. Os líderes conseguiram um convênio com a Secretaria de Estado de Educação, que paga os professores, com aulas da educação infantil, ensino fundamental e médio.

As aulas acontecem em ocas com cobertura de palha, sem paredes, um quadro branco e com a possibilidade de o cachorro sentar embaixo da cadeira do aluno. Não tem calor hora nenhuma do dia porque toda a estrutura foi construída embaixo de árvores, responsáveis por controlar a climatização.

Depois que terminam o ensino médio, os alunos são incentivados a cursar uma faculdade. A cacique aponta o curso de acordo com a necessidade da comunidade e também a aptidão dos estudantes. Mais do que isso, uma vez por semana, ela se reúne com os professores e avalia o que está sendo ensinado. “Eu dou aula da língua nativa, mas também temos professores de espanhol”, conta, revelando que uma jovem da aldeia já está no mestrado.

HISTÓRIA

Kátia relembra que antes de habitarem a Terra Indígena Mãe Maria, a aldeia de seu povo ficava no município de Tucuruí. Com a construção da Hidrelétrica, nos anos 1980, as terras ocupadas pelos Akratikatêjê, localizadas a montante da barragem da usina, foram inundadas. Com a situação, em 1982, Kátia e a família mudaram-se para a TI onde vivem agora.

Em 2011, seu pai, Payaré, disse que não queria mais ser cacique e que estava passando seu cargo para ela. Um protocolo era quebrado, já que desde sempre a cultura machista da aldeia nunca permitiu que uma mulher ocupasse essa posição. Função que desempenha muito bem e que é um exemplo de boa gestão e motivação para os membros de sua comunidade. 

Escola cercada por muitas árvores é o ambiente bastante propício para educação dos jovens Akratikatêjê

Cacique vai a Roma a convite do Papa

Cacique Kátia Tonkiré vai à Itália ainda este ano se encontrar com o maior líder católico do mundo

“Ele precisa respeitar nosso povo e nossa religião”. É com essa frase de efeito que Kátia Tonkiré, única cacique dos Gavião da Montanha, os Akratikatêjê, se refere ao convite feito pela maior autoridade da Igreja Católica, o Papa Francisco, para que a líder passe um mês em Roma. Um pedido que ela pensou por diversos dias até aceitar.

A religião dos indígenas é o motivo da fala da líder, que é a primeira mulher no Brasil a comandar uma aldeia. Segundo ela, no período do Círio de Nazaré do ano passado, foi cogitada pela Igreja a possibilidade de ser feito um cortejo, seguido de visita da imagem de Nossa Senhora de Nazaré até a aldeia. Sem constrangimento, o que foi negado por Kátia, alegando que seu “povo não estava preparado para isso”.

A chefe justifica que a visita seria um choque religioso e cultural para os indígenas. “Nós nunca fomos em um Círio. Eu queria entender primeiro por que eles faziam aquilo? O por que de eles adorarem aquela imagem. Eles tentaram me explicar um pouco. E então eu falei que ficaria para uma outra hora a santa entrar no meio do meu povo”, explica.

Ao CORREIO, Kátia conta que foi questionada por algumas pessoas pelo fato de não ter permitido o cortejo na aldeia. Para isso, ela reafirma seu posicionamento em acreditar que essa não seria uma postura a ser tomada porque o catolicismo não é a religião dos índios.

Educação

A cacique é enfática ao contar que acompanha de perto a educação da aldeia. Ela se reúne todas as sextas-feiras com os professores (não índios) para saber o que está sendo ensinado ao seu povo. “Eu quero saber que nível estão os alunos porque eu preciso dessas lideranças para amanhã”, conta.

Na escola, de acordo com Kátia, são trabalhadas três línguas: português, espanhol e a indígena Gê. O estudo da última é uma forma de manter a cultura e os costumes fortalecidos. Cursando pedagogia e tendo trancado a graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) por conta da depressão com a morte da filha e do pai, nos anos de 2012 e 2014, respectivamente, a líder conta, com entusiasmo, a vitória de ter conseguido superar a fase aguda da doença que é considerada o “mal do século”.

“Nem toda doença é para a morte, mas sim para dar uma levantada na gente. Então, acredito muito no potencial do meu povo. Somos uma família, um povo que tem o pensamento todo igual”, afirma.

Há nove anos, a estrutura da aldeia foi melhorada. Segundo a cacique, diversos indígenas de outras aldeias da Terra Indígena Mãe Maria têm o interesse de se agregar à sua comunidade. “Muita gente quer vir, mas quando eles chegam aqui, se deparam com uma realidade de trabalho que eles não estão acostumados, a coisa muda. Eles têm uma vida diferente e não são cobrados, mas aqui nós cobramos. Somos o único povo que presta conta para a Vale. E fazemos isso porque, se um dia precisarmos reivindicar alguma coisa, estaremos respaldados”, justifica. (Ulisses Pompeu e Karine Sued)

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