📅 Publicado em 20/01/2026 16h05
O silêncio de quem não consegue pedir socorro marca a realidade de centenas de animais em Marabá. Abandonados, feridos ou doentes, cães e gatos sobrevivem à margem da cidade e dependem da sensibilidade humana para continuar vivos. A cada resgate, histórias de negligência e violência se misturam ao esforço de protetores independentes, organizações não governamentais e órgãos de fiscalização que mesmo diante de limitações, tentam romper um ciclo que insiste em se repetir.
O abandono e os maus-tratos a animais seguem entre as principais ocorrências registradas no município. Animais encontrados em situação de negligência fazem parte de uma rotina marcada por um ciclo que parece não ter fim. Mesmo com legislação específica que tipifica os maus-tratos como crime, os registros continuam frequentes e o enfrentamento depende da atuação conjunta entre a sociedade e o poder público.
Em Marabá, somente em 2024, foram registradas 212 denúncias. No ano seguinte, o número subiu para 294, um dado alarmante que revela um problema que precisa ser enfrentado coletivamente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até dezembro era estimado que, em todo o país, cerca de 30 milhões de animais viviam em situação de rua, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães, um fator que reforça a importância da adoção responsável.
Leia mais:No Brasil, a Lei nº 14.064/2020 estabelece pena de dois a cinco anos de reclusão para crimes de maus-tratos. Ainda assim, a ausência de políticas públicas permanentes contribui para a continuidade dos casos.

DIMENSÃO DO PROBLEMA
De acordo com o Relatório de Fiscalização Ambiental 2025, disponibilizado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA) de Marabá, o segundo maior número de denúncias registradas no formulário de queixas ambientais diz respeito a crimes de maus-tratos a animais, ficando atrás apenas da poluição sonora, com 79 reclamações.
Nesse cenário, o Correio de Carajás conversou com protetores que atuam em ONGs e abrigos para acompanhar de perto o trabalho de organizações que atuam diretamente no resgate e na proteção animal. Uma delas é a ONG Patinhas de Rua, criada em 2021. O grupo é formado por oito voluntários e desenvolve ações de resgate, tratamento, castração e adoção responsável, utilizando exclusivamente lares temporários.
Em entrevista, Deyse Mendes, idealizadora do projeto, explica como funciona a atuação do grupo. “Hoje nós resgatamos, tratamos, colocamos para adoção, castramos e, também, temos como foco os mutirões de castração. Somos um grupo de protetores que se juntou para ajudar animais de rua que vivem em vulnerabilidade”, diz.
Segundo ela, a organização não possui abrigo físico, o que torna o trabalho com lares temporários mais viável. “São pessoas que acolhem os animais que resgatamos, tratamos e, em muitos casos, castramos. Depois eles vão para as feiras de adoção, que é onde conseguimos mudar a história desses animais”, compartilha.
Deyse relata ainda que a maioria dos resgates envolve animais em estado grave, que chegam totalmente fragilizados. “Confiaram em alguém e foram abandonados ou sofreram maus-tratos. Cada resgate tem uma situação diferente”, relata.

A defensora dos animais revela que, apesar do trabalho contínuo, nem todos os casos têm um desfecho positivo. “Quando não conseguimos reverter o quadro e o animal vai a óbito, a sensação é de impotência. Tentamos mudar aquela história, mas nem sempre é possível”, completa.
Na caminhada, os desafios são inúmeros. Para Deyse, a questão financeira é uma das principais. “Os custos com tratamentos veterinários, exames e medicamentos são mantidos por meio da união dos voluntários, bazares e ações de arrecadação. Não temos ajuda do poder público”, complementa.
Resgate no meio da rua e o acolhimento em abrigo
Outra instituição que atua no resgate animal é a Associação Protetora dos Animais do Município de Marabá Focinhos Carentes, criada em 2014. A organização mantém atendimento contínuo a animais em situação de abandono e risco, cuidando, protegendo e zelando pelas vidas que ali se encontram.
Para acompanhar de perto o trabalho realizado pela equipe, o Correio de Carajás esteve no abrigo da Focinhos Carentes e conversou com Fátima Zuniga Mutran, uma das coordenadoras do lar temporário. “Já são 11 anos de trabalho. A Focinhos nasceu com a finalidade de resgatar animais abandonados ou em situação de risco, e é isso que seguimos fazendo até hoje”, afirma.
Ao relatar situações vivenciadas ao longo dos anos, a defensora destaca que os casos se repetem, muitas vezes com níveis diferentes de gravidade. “Foram muitas situações. Cada uma acaba superando a outra”, lamenta.
Fátima também menciona episódios de violência doméstica que resultaram em agressões aos animais, quando os pets são usados como forma de atingir o outro. “Já tivemos caso em que, por briga de casal, o homem feriu os animais como forma de vingança. Infelizmente, são situações que ainda acontecem”, lamenta.

Sobre o procedimento após o recebimento de denúncias, a coordenadora explica como funciona o fluxo de atendimento. “Quando somos acionados, vamos ao local, fazemos o resgate e, conforme a situação, levamos o animal para a clínica veterinária. Lá ele passa por exames e até cirurgias, se necessário”, explica, acrescentando que o abrigo recebe esses animais até que a adoção seja realizada.
Ela também detalha que o processo de adoção inclui a análise do perfil do interessado. Existe um formulário que é preenchido e, a partir disso, são avaliados as respostas e o ambiente onde o animal vai morar. “Só depois a adoção é realizada. Após isso, acompanhamos o animal”, declara.
“Dou todo o meu tempo a esta causa há 11 anos”, afirma Fátima ao falar sobre o que a motiva. Para ela, a paixão cresceu com o tempo, e o maior prazer hoje é proporcionar uma vida digna para os animais que vivem no abrigo. “É uma satisfação”, diz.
Desafios diários e manutenção do abrigo
Atuante no voluntariado há mais de nove anos, Fabiana Silene Nogueira também é uma das lideranças da coordenadoria da Focinhos Carentes. Apaixonada pelo que faz, ela relata que o maior desafio é manter o espaço em funcionamento. “A nossa maior dificuldade é manter o abrigo. É muito difícil fazer as pessoas entenderem a dimensão da responsabilidade que é acolher um animal”, desabafa Fabiana.
Segundo ela, a causa animal está diretamente ligada à saúde pública. “Muitas pessoas ainda não entendem que, quando cuidamos dos animais, também estamos cuidando das pessoas. Cada luta precisa de suporte e da sociedade em geral, mas os animais esperam que nós façamos por eles”, argumenta.

A voluntária ressalta que o resgate não se encerra no acolhimento inicial. “Não é só tirar o animal da rua. Quando ele chega aqui, precisa de espaço adequado, alimentação, medicação, limpeza diária e acompanhamento. Cada animal representa uma nova despesa”, justifica.
Atualmente, o abrigo, que conta com gatil, canil e área de quarentena, mantém pouco mais de 180 animais entre cães e gatos. Números que podem variar conforme internações em clínicas veterinárias e lares temporários. “A maioria dos nossos cães testam positivo para a leishmaniose. É um cuidado contínuo, porque cada animal que entra precisa ser testado e acompanhado”.
Durante a entrevista, Fabiana chama atenção para o abandono de gatos. “Esses animais são os mais abandonados, principalmente em ninhadas. Muitas pessoas ainda acreditam que gato não precisa de cuidado, que pode viver solto e sem castração. Isso dificulta muito a adoção”, afirma.
Sempre em busca de apoio financeiro e voluntariado
Com o título de utilidade pública estadual e municipal, o abrigo Focinhos Carentes passou a receber emendas parlamentares e recursos da prefeitura. “Os valores são destinados principalmente para ração, medicação e areia higiênica. O restante das despesas, como pagamento de funcionários, material de limpeza e manutenção do abrigo, ainda depende da solidariedade da população”, explica Fabiana.
Segundo ela, a participação da comunidade é fundamental. “Muitas pessoas ainda não conhecem o abrigo. Quando elas vêm, participam de um mutirão ou evento, entendem a realidade, percebem que cada animal tem um nome e uma história. Hoje, dependemos muito da ajuda financeira e do apoio de quem confia no nosso trabalho”, diz.
Ela também fala sobre o impacto emocional da rotina, destacando que, apesar das dificuldades, o retorno vem em pequenos gestos. “Nós abdicamos de muito tempo da nossa vida pessoal. É cansativo, mas quando vemos um animal se recuperar, quando ele demonstra confiança, tudo faz sentido. Às vezes eles só estavam esperando alguém chegar”, revela.
Mesmo com dedicação constante, ela lembra que nem todos os resgates têm um final feliz. “Muitas vezes parece que eles só estavam esperando ajuda para partir em paz. A demanda em Marabá é muito grande e, infelizmente, não conseguimos atender todos os casos”, lamenta.
Fabiana reconhecem que as críticas surgem, muitas vezes, sem conhecimento da realidade. Para ela, há quem acredite que exista uma obrigação de recolher todos os animais, sem considerar o quanto isso exige dos voluntários. “Antes de acolher um novo animal, precisamos garantir o cuidado daqueles que já estão aqui. Só entende a dificuldade de um abrigo quem vive isso por anos”, afirma.
Marabá terá microchipagem para cães, gatos e equídeos
Em Marabá, o trabalho de fiscalização animal é realizado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Em entrevista ao CORREIO, o coordenador do Departamento de Fiscalização Ambiental, Mateus Rocha, explica como funciona a atuação da equipe. “Nosso papel como fiscalização é combater a situação de maus-tratos, em conjunto com a proteção do bem-estar animal”, declara.
Ele destaca que as denúncias chegam por diferentes canais. “No ano passado, o Linha Verde foi um dos principais meios de denúncia. Hoje contamos com um formulário que auxilia na identificação de situações de abandono ou maus-tratos”, pontua.
Segundo Mateus, quando há identificação do tutor responsável, o processo segue os trâmites legais, com abertura de procedimento administrativo. “Temos um médico veterinário que acompanha as ações, avalia a situação do animal e embasa a apuração dos maus-tratos”.

Nos casos de abandono sem identificação do responsável, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) é acionado. A partir disso, o animal passa por avaliação e acompanhamento.
O coordenador explica que o trabalho da fiscalização funciona em regime de plantões. Atualmente, a equipe conta com seis fiscais, três técnicos e um médico veterinário, que se desdobram para atender as ocorrências registradas no município.
O suporte técnico às ações da SEMMA é realizado pelo médico veterinário Leopoldo Moraes. Ele esclarece que o conceito de maus-tratos vai além da agressão física. “Pode ser entendido como qualquer ato, intencional ou não, que provoque dor ou sofrimento aos animais”, explica.
Segundo o veterinário, a atuação técnica é fundamental para dar respaldo aos processos administrativos e criminais. Ele é responsável por realizar uma avaliação pericial do animal para que o responsável seja penalizado pelo ato cometido.
Um dos principais desafios, de acordo com Leopoldo, é a falta de conscientização da população. “As pessoas acreditam que maus-tratos é apenas bater. Mas deixar um animal sem assistência veterinária também pode ser considerado maus-tratos. É um conceito muito mais amplo”, ressalta.
Em Marabá, há um decreto municipal que proíbe o acorrentamento de animais, conforme a Lei nº 18.508, aprovada em 30 de outubro. “Quando o animal permanece constantemente acorrentado, isso pode caracterizar maus-tratos. O nosso maior desafio é fazer a população entender isso”, afirma.
O veterinário esclarece ainda que a secretaria não mantém animais sob custódia. O trabalho consiste em ir até o local da denúncia e avaliar a situação encontrada. “Quando a situação permite correção imediata, o tutor é orientado. Em casos de fácil adequação, como limpeza do ambiente ou ajuste de comedouro e bebedouro, damos um prazo de até dois dias e depois retornamos para nova vistoria. Só recolhemos o animal em casos estritamente necessários”.

Para 2026, o profissional revela projetos voltados ao fortalecimento da fiscalização. Um deles é a microchipagem, que funcionará como um censo da população de cães, gatos e equídeos. “A partir da identificação do animal por meio do microchip, há facilitação no rastreio das denúncias”, explica, destacando que a medida também facilitará a devolução de animais perdidos.
Outro projeto citado é a criação de um banco de ração. “A ideia é fornecer ração de acordo com o plantel das ONGs e estreitar a parceria com essas instituições, que são quem dão suporte quando precisamos recolher um animal”.
Ao final, a realidade escancara que enquanto faltam políticas públicas estruturadas, o peso da causa animal recai sobre quem escolhe não fechar os olhos. Voluntários seguem como verdadeiros anjos da guarda, sustentando com esforço próprio uma rede de proteção que salva vidas e evidencia a urgência de um compromisso coletivo com quem não tem voz.
O QUE É MICROCHIPAGEM
Microchipagem é a implantação de um microchip do tamanho de um grão de arroz sob a pele do animal, funcionando como um “RG” eletrônico com código único que armazena dados do pet e do tutor, facilitando a identificação em caso de perda.
