O homem de 21 anos preso por suspeita de participar do estupro coletivo de duas crianças, de 7 e 10 anos, em São Paulo, classificou o crime como “zoeira” e “uma brincadeira” durante interrogatório na tarde de hoje. A informação foi divulgada pelo delegado Júlio Geraldo, do 63º Distrito Policial (Vila Jacuí), responsável pelo caso.
O que aconteceu
Os quatro adolescentes apreendidos e o homem confessaram participação no crime e falaram em “brincadeira”, segundo o delegado. Os cinco alegaram que o crime foi uma “brincadeira que tomou o rumo errado”, conforme o relato do policial.
Em interrogatório hoje, Alessandro Martins Santos, 21, falou que o crime foi uma “zoeira”. Único adulto envolvido no crime, ele foi preso na Bahia e transferido para São Paulo hoje, onde foi ouvido. A prisão de Alessandro é temporária, ou seja, válida por 30 dias com possibilidade de prorrogação por igual período. A defesa dele não foi localizada pelo UOL.
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Delegado afirmou não ter visto “qualquer espécie de remorso” nos investigados. Geraldo classificou o crime como um ato de sadismo.
Nós não sentimos qualquer espécie de remorso. Realmente, o que incomoda eles é o risco de ser punido, o medo das consequências. Mas nós não percebemos, em momento nenhum, arrependimento. Na verdade, o que a gente percebe é outra coisa: é uma insensibilidade diante do sofrimento. Eles falam com muita tranquilidade, o maior também fala em ‘zoeira’.
Delegado Júlio Geraldo, do 63º Distrito Policial (Vila Jacuí)
Polícia Civil ainda não descarta nenhuma linha de investigação. Detalhes das apurações não serão divulgados para não atrapalhar o trabalho dos agentes, disse o delegado.
Até o momento, a Polícia Civil indica que o caso foi um “crime de oportunidade”. As vítimas e os suspeitos eram conhecidos por viverem na mesma comunidade. De acordo com a corporação, os adolescentes afirmaram que uma das vítimas estava suja e com mau odor e eles convidaram o menino para ir até uma casa buscar uma linha de pipa e, em seguida, tomariam o banho. “Essa é a história que foi mais ou menos confirmada por todos [os investigados], acrescentou Júlio Geraldo.
No interrogatório, o adulto foi indiciado por estupro de vulnerável, divulgação de vídeo de pedofilia e corrupção de menores. Já os adolescentes, com idades entre 14 e 16 anos, estão apreendidos e terão as condutas apreciadas pelo Juizado Especial da Infância e da Juventude, explicou o delegado.
Relembre o caso

O caso aconteceu no bairro União de Vila Nova, na região conhecida como Jardim Pantanal, zona leste, em 21 de abril. No entanto, o crime só foi registrado três dias depois, no dia 24, segundo a Polícia Civil.
Abuso sexual contra as crianças foi gravado e compartilhado pelos criminosos. Foi após a divulgação dos vídeos nas redes sociais que o crime foi denunciado à polícia.
Vítimas vivem em situação de vulnerabilidade, informou o subprefeito de São Miguel Paulista, Divaldo Rosa. Elas foram identificadas com a ajuda do Conselho Tutelar e passaram por atendimento médico, mas já receberam alta.
Segundo Rosa, a criança de 10 anos, sua mãe e sua avó foram levadas a um abrigo da prefeitura. A criança mais nova, de 7, a mãe e seus dois irmãos foram para a casa de um familiar em uma cidade vizinha.
Delegada explicou que a família foi pressionada pela comunidade para não denunciar. “Eles queriam resolver entre eles e não queriam que a polícia tomasse conhecimento”, afirmou Janaína da Silva Dziadowczyk, em coletiva de imprensa no domingo (3).
A irmã adulta de uma das crianças vítima de estupro coletivo foi responsável por denunciar o caso à Polícia Civil. Ela não mora mais com a família, nem na comunidade de União de Vila Nova. Ela descobriu o episódio ao identificar o irmão nos vídeos do abuso que circulam nas redes sociais e procurou as autoridades no dia 24 de abril.
Quando a irmã viu o vídeo, identificou o irmão e registrou o boletim de ocorrência. Mas ela não tinha detalhes, não sabia o local. A família estava com medo. Todos saíram de lá. Teve gente que saiu com a roupa do corpo e deixou o imóvel sem nada lá. Foi uma dificuldade localizar essas vítimas.
Janaína da Silva Dziadowczyk, delegada.
Delegada afirmou que a iniciativa de gravar os vídeos dos estupros partiu de Alessandro Martins dos Santos. “Ele [Alessandro] começou a gravar no próprio celular e depois pediu para que outro menor gravasse”, explicou a policial.
Eles gravaram o estupro de vulneráveis e Alessandro compartilhou os vídeos no WhatsApp com conhecidos, conforme investigação. As imagens foram encaminhadas entre membros da comunidade que se indignaram com o episódio. Em um dos vídeos, de 63 segundos, as crianças choram, gritam e falam ao menos nove vezes “para” e cinco vezes “eu não quero”. Enquanto isso, os violadores riem, insistem no ato e agridem as vítimas.
O que diz a lei e como denunciar
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — Lei nº 8.069/1990 — estabelece a proteção integral e os direitos fundamentais de crianças e adolescentes.
A violação de direitos ocorre quando crianças ou adolescentes são colocados em situação de risco, incluindo:
- violência física, psicológica ou sexual;
- negligência ou abandono;
- exploração ou abuso;
- trabalho infantil;
- recusa de matrícula escolar;
- situação de rua;
- conflitos familiares graves.
Denúncias podem ser feitas aos Conselhos Tutelares, órgãos municipais responsáveis por zelar pelos direitos da infância e adolescência.
Em situações urgentes, também é possível acionar o Disque 100 ou a Polícia Militar (190).
