📅 Publicado em 14/09/2026 18h54
Quando começou a pensar no futuro profissional, ainda no ensino médio, Geovana Cavalcante Caldas já sabia de uma coisa: não queria seguir um caminho convencional. Nascida em Tucuruí e criada em Marabá, no sudeste do Pará, ela se interessou por uma área que, naquele momento, parecia distante da realidade que conhecia.
Aos 26 anos, formada em Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), ela se prepara para levar uma coleção desenvolvida durante a graduação a um evento internacional em Londres.
A relação com a moda começou antes mesmo da faculdade. Para o Correio de Carajás, ela conta que depois de conversar com uma amiga sobre possibilidades profissionais, passou a pesquisar sobre o curso e começou a aprender a desenhar croquis por conta própria, principalmente com tutoriais na internet. O interesse cresceu até virar uma decisão.
Leia mais:“Eu sempre senti que precisava estar em uma área mais criativa, mais artística”, compartilha.
A escolha, porém, não foi imediata. Como Marabá não tinha graduação em Moda, seguir esse caminho significava deixar a família e mudar de cidade. No fim do ensino médio, Geovana acabou desistindo temporariamente da ideia e ingressou em Psicologia na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).
Foram dois semestres no curso. Ainda no primeiro, ela percebeu que a escolha não era o que ela queria para a vida profissional. Enquanto frequentava as aulas, voltou a estudar para o vestibular e pesquisou instituições que ofereciam graduação em Moda. A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Florianópolis, apareceu entre as opções.
“Depois de muito pensar, eu reuni coragem e conversei com meus pais. Falei que era isso que eu queria e eles me apoiaram”, lembra.
NOVO MUNDO
Em 2019, Geovana deixou Marabá e se mudou sozinha para Florianópolis, com apoio financeiro da família, para começar a graduação. A adaptação à cidade e à distância dos pais foi facilitada pela convivência com colegas que também haviam deixado suas cidades para estudar.
A formação, no entanto, levou mais tempo do que o previsto. A pandemia interrompeu as atividades presenciais em 2020 e mudou seu caminho acadêmico. Mas o que parecia um período de desmotivação, logo transformou a trajetória profissional da paraense.
“Se eu não tivesse demorado mais tempo do que o previsto, muito provavelmente eu não teria conseguido essa oportunidade que eu consegui agora na Semana de Moda”, afirma.
A oportunidade surgiu no fim de 2025, durante o ‘Octa Fashion’, desfile realizado pela Udesc para apresentar as coleções desenvolvidas pelos estudantes de Moda como parte do trabalho de conclusão de curso. O processo envolve cerca de um ano e meio de desenvolvimento, desde a definição do tema e do conceito até a criação das peças que serão confeccionadas e apresentadas.
Na ocasião, Samantha Bullock, da Bullock Inclusion, acompanhava o desfile em Florianópolis. Brasileira radicada em Londres, ela estava na cidade por causa de um projeto com estudantes da Udesc e assistiu às coleções dos formandos. Depois da apresentação, convidou alguns deles para participar do ‘Future of Fashion Show’, evento realizado em Londres durante a Semana de Moda.
Geovana estava entre os selecionados. Ao todo, segundo ela, foram cerca de 14 estudantes convidados.

“Acho que isso é uma pegadinha”,
pensou Geovana ao receber convite
A notícia para participar do ‘Future of Fashion Show’ chegou de forma inesperada. Geovana conta que precisou reler várias vezes a mensagem antes de acreditar que o convite era real.
“Eu fiquei relendo a mensagem várias vezes, pensando: ‘Meu Deus, acho que isso é uma pegadinha’. Eu não fazia ideia de que era uma possibilidade”.
A seleção também mexeu com uma insegurança que acompanhou parte da formação. Dentro do Centro de Artes da Udesc, onde convivem estudantes de Moda, Artes Visuais, Design e Teatro, ela diz que era difícil não comparar o próprio trabalho com o de outros colegas.
“Essa oportunidade me deu e continua me dando muito mais confiança no meu trabalho, nas coisas que eu sou capaz de fazer”, afirma.
MEMENTO
A coleção que será levada a Londres se chama Memento. O nome surgiu antes mesmo de Geovana definir completamente o conceito e depois a levou à expressão latina “memento mori”, associada à ideia de lembrar que a vida é finita.
A partir dessa reflexão, ela buscou trabalhar uma dualidade entre desconforto e leveza. As peças têm silhuetas volumosas, cores escuras e formas arredondadas. O volume acolchoado pode transmitir tanto aconchego quanto uma sensação de sufocamento. “Eu queria justamente alcançar esse conflito de sensações”, explica.
O tecido escolhido também participa dessa construção. Geovana utilizou tactel, uma microfibra que, segundo ela, não é imediatamente associada a peças com aquele tipo de modelagem. A escolha introduz uma certa estranheza, mas também acrescenta leveza ao conjunto.
A técnica de ‘quilting’, usada em partes das peças, é outro elemento importante da coleção. O trabalho reúne costuras de formas orgânicas e foi escolhido por Geovana para inserir uma técnica manual em uma proposta contemporânea.
A escolha tem uma relação direta com a família. A mãe sempre esteve ligada ao artesanato e, desde a infância da filha, produzia diferentes tipos de trabalhos manuais. Ao incorporar o ‘quilting’ à coleção, Geovana levou para o projeto uma lembrança da própria casa.
“Ela é uma inspiração para mim. Então eu quis trazer para a minha coleção uma técnica comum no artesanato, que é o ‘quilting’, mas com uma roupagem mais moderna, mais contemporânea”, conta.



FUTURO E RAÍZES
Agora, nove meses depois de concluir a graduação, Geovana ainda tenta definir qual caminho pretende seguir dentro da moda. Durante a faculdade, passou por estágios e participou de eventos que permitiram conhecer diferentes áreas do setor. A experiência em Londres aparece, nesse momento, como uma oportunidade para ampliar esse repertório.
Além de apresentar a própria coleção, ela deverá atuar no backstage do evento e acompanhar profissionais que trabalham no mercado de moda britânico.
“Eu ainda estou tentando entender qual é o caminho que eu quero seguir dentro da moda. Essa experiência pode justamente me ajudar a entender melhor as possibilidades que eu tenho e qual delas faz mais sentido para mim”, afirma.
A viagem também representa, para ela, uma possibilidade de ampliar o portfólio e conhecer uma realidade profissional diferente daquela vivenciada durante a graduação.
E quando seu olhar se volta para Marabá, ela destaca que o município tem profissionais e pessoas interessadas em moda, mas ainda oferece poucas oportunidades de formação e contato com outras referências do setor.
Geovana avalia que o mercado local permanece bastante tradicional e que iniciativas voltadas à formação e à aproximação entre profissionais poderiam ampliar as possibilidades para quem deseja trabalhar na área.
“Eu acho que Marabá tem potencial. Tem muita gente talentosa, mas falta um certo incentivo para que esse potencial venha à tona”, afirma.
Como a ausência de uma graduação em Moda na cidade foi, para Geovana, um dos motivos que a levaram a sair do Pará. Por isso, ela considera que cursos superiores, formações profissionalizantes, oficinas e eventos poderiam ajudar a aproximar estudantes e profissionais locais de outras experiências.
Para ela, esse movimento também ajudaria a mostrar que trabalhar com moda envolve mais possibilidades do que aquelas tradicionalmente associadas ao setor.
“Isso ajudaria a criar mais oportunidades e mostrar que a moda pode ser uma área profissional muito mais ampla do que a gente costuma imaginar”, afirma.
Em Londres, Geovana pretende conhecer justamente parte dessa amplitude. A coleção que nasceu de uma reflexão pessoal sobre a passagem do tempo agora atravessa o oceano e chega a um público diferente daquele que acompanhou em sua terra natal.
Mas a viagem é apenas um capítulo da sua história profissional. Aos 26 anos, formada há menos de um ano e ainda experimentando possibilidades dentro da área, ela chega ao evento internacional com a certeza de que fez a escolha certa ao largar a Psicologia para entrar no mundo da Moda.
