📅 Publicado em 02/04/2026 14h26✏️ Atualizado em 02/04/2026 14h35
Aos 22 anos, Danielle Pimentel de Brito, ou simplesmente Dani Pimentel, encontrou nas artes visuais a ferramenta perfeita para resgatar e eternizar a história de seus ancestrais. Quilombola da comunidade Joana Peres, localizada na região da Transcametá, próximo a Tucuruí, ela precisou deixar sua família e se mudar sozinha para Marabá em 2023 para ingressar na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). Hoje, no sexto período do curso de Artes Visuais, a jovem transforma sua história e a de seu povo em inspiração para suas produções.
Para Dani, sua trajetória acadêmica se mescla com a pessoal sendo, antes de tudo, um ato de resistência e superação. Mais do que ouvir os pormenores sobre suas obras, a entrevista com Dani Pimentel revela a trajetória de uma artista que, apesar de jovem, possui uma extensa história a ser contada através das telas.

Com o olhar voltado para suas raízes, Dani compõe trabalhos como o “Raízes Ascendentes”. A exposição ficou em cartaz na Casa Nativa durante o mês de março, exaltando a beleza ancestral da mulher negra. Todas as suas obras são um manifesto visual que recusa a objetificação sexual da mulher negra e celebra a identidade quilombola, usando tons fortes para expressar sentimentos de deslocamento e pertencimento em uma sociedade que, muitas vezes, ainda invisibiliza essas narrativas.
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Correio de Carajás: Como foi que a Dani se descobriu uma artista plástica?
Dani Pimentel: Meu pai conta que eu sempre fui muito interessada em desenho desde a infância. Eu desenhava no chão usando gravetos. Eu sempre desenhei muito. Como não tinha tinta, usava as maquiagens da minha mãe: batons, esmaltes. No ensino médio, veio a pressão: “O que vou cursar?”. Eu não sabia que podia entrar no ramo das artes e ficava me perguntando se seria médica ou veterinária. Quando fui me inscrever no Enem, vi o nome “Artes Visuais”, pesquisei o que era e percebi que era o que me representava. A maioria das pessoas escolhe salvar vidas ou defendê-las, eu escolhi salvar a minha cultura. Escolhi pintar.
Correio de Carajás: Percebemos que as suas obras abordam a cultura quilombola e a sua vivência. Como essa identidade se reflete nas telas?
Dani Pimentel: Ser quilombola é ter uma vida difícil, porque muitas vezes perdemos a identidade de não saber exatamente de onde viemos, quais nomes pertencem aos nossos povos. Viemos como produto. Um dia, um colega indígena me perguntou de onde nós viemos e a única coisa que eu pude dizer foi que “mercadoria não tinha nome”. Isso ficou martelando na minha mente e inspirou minha primeira exposição. As obras carregam grafismos e tons que representam esse deslocamento que sinto, essa sensação de não me encaixar na sociedade. As cores trazem um toque de ancestralidade: o azul traz paz, o vermelho traz força, entrelaçados em tons verdes e amarelos que pertencem a este Brasil.
Correio de Carajás: E sobre as personagens? Vemos que são todas mulheres negras. Qual é a mensagem por trás dessa estética?
Dani Pimentel: Nós não somos marcadas apenas pelo cabelo afro. Somos marcadas pelas nossas tranças e, às vezes, pela ausência do cabelo. Antigamente as mulheres mandavam raspar a cabeça por chamar atenção demais, e isso não as tornava menos belas. Elas se encontravam com turbantes e carecas impecáveis, usando brincos e colares. Eu quis trazer penteados que retratassem uma estética diferente e pessoas que lembrassem que não precisamos apenas do cabelo para sermos reconhecidas como mulheres negras. Nossos traços e curvas também são parte de quem somos. A exposição “Raízes Ascendentes” fala muito sobre isso, inclusive resgatando práticas ancestrais, como o Lipombo (alongamento das cabeças como símbolo de beleza e riqueza).
Correio de Carajás: E como surgiu a ideia de trabalhar com materiais reciclados nas suas pinturas, como o papelão e o MDF que vemos aqui?
Dani Pimentel: Para poder pintar, eu tive que fazer escolhas. Eu não tinha condições de comprar telas. Como não me considero tão delicada para pintar em telas tradicionais, pensei: por que não reciclar? Por que não coletar aquilo que muitos acham que não tem valor? Minha primeira pintura com reciclagem foi no fundo de uma gaveta que achei. Comecei a catar materiais na rua, como papelão e aquele material usado em caminhões para separar cervejas. Quase todas as obras dessa exposição são de papelão, exceto três que fiz em MDF.
Correio de Carajás: Você tem cerca de 20 obras expostas aqui na Casa Nativa. Como surgiu essa conexão com o espaço?
Dani Pimentel: Atualmente, busco trabalhar com reciclagem, dando novos significados a materiais desperdiçados. Amo essa textura mais natural e rústica, que tem uma grande conexão com a natureza. A Casa Nativa representa muito isso, a beleza rústica se encaixa perfeitamente com as minhas obras.

Correio de Carajás: Sabemos que, muitas vezes, as mulheres negras são invisibilizadas pela sociedade. Qual a importância de uma exposição focada nelas agora?
Dani Pimentel: A importância se dá porque é muito difícil ver uma mulher negra sendo pintada apenas como bela. Eu, como mulher negra, quase nunca encontrei pinturas que não me representassem como algo puramente sexual, mostrando meu corpo de forma exagerada, onde eu era vista mais como produto do que como mulher. Eu sentia falta disso. Queria que as pessoas vissem a nossa beleza, que vissem quem somos, e não apenas como somos.
Correio de Carajás: De todas essas mulheres que você pintou, tem alguma que te atravessa com mais força?
Dani Pimentel: Tem a mulher tratando o peixe. É uma ligação sentimental com lembranças da infância da minha mãe e de outras mulheres do quilombo. Aqueles momentos em que as crianças brincavam no rio enquanto a mãe ou a avó tratava o peixe, e as escamas grudavam nos nossos cabelos. Tem outra tela que é como se fosse eu mesma: com roupas volumosas, turbantes grandes e joias. É onde eu imagino que estaria se não estivesse aqui hoje.
Correio de Carajás: E você nasceu no quilombo?
Dani Pimentel: Não. A minha mãe saiu com 13 anos do quilombo para trabalhar e ajudar a sustentar os oito irmãos. Ela foi trabalhar em Belém como empregada, mas era quase escrava, na verdade. Ela trabalhava, apanhava, às vezes sofria abuso e era expulsa pela dona. Mas ela lutou, conseguiu abrir uma lanchonete e teve primeiro meu irmão, e depois eu. Quando eu nasci, ela foi para Baião, uma cidadezinha próxima, e foi lá que eu cresci. Eu não conheci meu quilombo na infância porque ela tinha medo que eu passasse pelo que ela passou e priorizou meu estudo.

Correio de Carajás: Para quem não conhece, como é a organização e a sociedade dentro de um quilombo? Você sabe a história da sua comunidade, Joana Peres?
Dani Pimentel: Os quilombos são como aldeias indígenas, sempre têm um líder e os moradores cooperam para que a comunidade continue existindo. A sobrevivência é própria, forte no plantio, na caça e na colheita. Muitos vivem da pesca e do próprio cultivo. Sobre a história, o nome “Joana Peres” foi dado em homenagem à mulher que levou os escravizados para aquela área. Historiadores dizem que ela não era tão ruim, e o mais surpreendente é que era uma mulher. Quando ela morreu, deu liberdade aos que ficaram nas terras. Por consideração, deram o nome dela à comunidade.
Correio de Carajás: Quando foi que você chegou em Marabá? Já veio direto para fazer a faculdade?
Dani Pimentel: Cheguei aqui em 2023. A primeira vez que eu pisei aqui foi para fazer a prova, porque a prova para quilombolas é feita aqui mesmo, independentemente de onde a gente for estudar. Então, eu trabalhei como trancista, guardei meu dinheirinho e fui fazer a prova. Quando eu passei, em 2023, eu só vim em setembro. Aproveitei esse período para trabalhar e arrecadar mais dinheiro para começar aqui do zero.
Correio de Carajás: Como foi essa experiência de sair de casa para vir morar sozinha em uma cidade completamente nova? Demorou muito para se sentir acolhida?
Dani Pimentel: Foi um tapa no rosto, porque eu cheguei aqui muito nova. Quando você vai para um lugar onde não conhece ninguém, é um desafio muito grande. Eu nunca tinha morado sozinha, então corri atrás para comprar minhas coisinhas de segunda mão. Quando cheguei, a kitnet estava com problema na energia. Nos primeiros dias, eu só tinha uma rede e uma extensão que eu pedia para ligar na casa do lado. O clima aqui é um pouco diferente e eu acabei tendo muitos problemas de saúde, a febre subia e descia. Mas me senti muito acolhida, fiz excelentes amigos no primeiro dia de aula, que me ajudaram quando eu não tinha dinheiro para almoçar ou iam me visitar. Tive muito apoio dos vizinhos também. Dependendo do que tivesse, nem que fosse um ovo, a gente dividia.
Correio de Carajás: Como você enxerga hoje o espaço artístico em Marabá para pessoas negras que contam a história de pessoas negras?
Dani Pimentel: Existem muitos que contam as histórias, mas poucos que queiram ouvi-las. É difícil encontrar pessoas que se importem com o que passamos. Na maioria das vezes, somos vistos como pessoas que se vitimizam. Mas para mim, é um desrespeito chegar à minha idade e não honrar aqueles que lutaram para que eu fosse independente hoje. É minha obrigação carregar e contar a história do meu povo. Meu objetivo ao terminar a faculdade é continuar pintando, colocando no papelão o que se passa na minha imaginação e fazendo essa mensagem chegar mais longe.

