Correio de Carajás

“Curva do S” terá ato público nos 30 anos do massacre de Eldorado

Mobilização reúne membros do sudeste do Pará em caminhada rumo à Curva do S. O movimento realiza atos para marcar a data e apresentar pautas relacionadas à questão agrária.

Multidão marcha com bandeira do Brasil e faixa pela reforma agrária.
Marcha tem como destino final a “Curva do S”, em Eldorado/ Fotos: Divulgação e Arquivo
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 16/04/2026 09h52

O sudeste do Pará registra nesta semana mobilizações relacionadas à questão agrária no Brasil. Desde o dia 13, trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deram início a uma caminhada rumo ao município de Eldorado do Carajás. A marcha, que reúne famílias de assentamentos de Parauapebas, Curionópolis e Canaã dos Carajás, marca a Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária Popular.

Neste ano de 2026, a mobilização ocorre no marco dos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Ocorrido em 17 de abril de 1996, o episódio resultou na morte de 21 trabalhadores rurais durante uma ação da Polícia Militar do Estado do Pará na rodovia BR-155, no trecho conhecido como “Curva do S”. Três décadas depois, o evento permanece como um dos principais marcos históricos nos registros de conflitos agrários brasileiros.

Sob o lema “Em defesa da Reforma Agrária Popular: basta de violência contra os povos e a natureza”, a jornada se estenderá até a próxima sexta-feira (17), com uma agenda de atividades programadas para diversas regiões do território nacional. No Pará, estado onde ocorreu o episódio de 1996, as ações convergem para a Curva do S.

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A caminhada integra a marcha intitulada “A voz pela vida calará a ambição”. A organização estima que cerca de 3 mil participantes se juntem ao longo do trajeto até Eldorado do Carajás. A chegada dos manifestantes ao local está prevista para o Dia Internacional da Luta Camponesa, celebrado em 17 de abril em alusão à data do evento no Pará.

Paralelamente à marcha, o MST deu início ao 20º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves, evento que reúne aproximadamente 500 jovens. A programação do acampamento inclui oficinas, debates e ações simbólicas, como a reconstrução do monumento erguido em memória aos trabalhadores mortos.

Ato rememora os 30 anos das mortes de sem-terra em 1996

O histórico do evento de 1996

Em setembro de 1995, famílias sem-terra montaram um acampamento próximo à Fazenda Macaxeira, em Curionópolis, área de 40 mil hectares. Em novembro daquele ano, a propriedade foi ocupada. Em 10 de abril de 1996, cerca de 2.500 acampados decidiram iniciar uma marcha de quase 900 quilômetros até a capital, Belém, com o objetivo de solicitar providências do governo estadual e federal quanto à desapropriação das terras.

No dia 17 de abril, quando a marcha alcançou a Curva do S, em Eldorado do Carajás, os manifestantes bloquearam a rodovia BR-155. O então governador do Pará, Almir Gabriel, e seu secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, autorizaram o uso da força policial para desobstruir a via. Duas tropas da Polícia Militar, uma vinda de Marabá e outra de Parauapebas, foram enviadas ao local.

O saldo da operação registrou 19 sem-terra mortos no local e outros dois que faleceram posteriormente no hospital, totalizando 21 vítimas fatais, além de dezenas de feridos. A perícia técnica, conduzida pelo legista Nelson Massini, indicou que pelo menos dez vítimas foram atingidas à queima-roupa, e sete lavradores sofreram lesões por instrumentos cortantes, como foices e facões.

Desdobramentos

Após o episódio, 155 policiais militares que participaram da operação foram indiciados por homicídio em um Inquérito Policial Militar (IPM). No entanto, a ausência de perícia balística nas armas e projéteis dificultou a individualização das condutas no processo legal.

Em maio de 2012, a Justiça determinou a prisão dos comandantes da operação. O coronel Mário Colares Pantoja, que liderou a tropa de Marabá, foi condenado a 228 anos de reclusão. O major José Maria Pereira de Oliveira, comandante da tropa de Parauapebas, recebeu a pena de 158 anos. Os demais policiais envolvidos foram absolvidos ou não receberam punição.

Três décadas após o evento na Curva do S, a direção do MST afirma que a jornada deste ano tem o objetivo de apresentar pautas relacionadas à estrutura fundiária do país. O movimento questiona a concentração de terras, os índices de violência no campo e cobra maior atuação do Estado na regularização fundiária.