Correio de Carajás

CRÔNICA OURIÇO CHEIO: Amor na terceira idade e no tempo da covid-19

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Estiveram juntos por 24 longos anos juntos, mas naquela tarde remota em que cada um tomou um rumo, para descobrir com quase três décadas de atraso que chega um tempo em que até mesmo as almas gêmeas podem despedaçar-se.

Enquanto escrevo, ouço a voz de Josinete na cozinha de sua casa, aqui ao lado, com voz que lembra um berrante perene a soltar um som altissonante e retumbante. Briga com os filhos, enquanto termina o almoço, mas esquece-se que os dois rebentos já não são crianças e que têm mais de 30 cada um.

O marido saiu de casa há cinco meses, em meio à pandemia porque os dois só deixavam de brigar quando dormiam. Ela, professora aposentada, tinha deixado de trabalhar há menos de um ano e a casa ficou pequena para Josinete (66 anos) e o sorridente Raimundo José (72).

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Chegou o momento de tanta agonia e brigas que os filhos deram um ultimato na mãe: ou ele, ou nós. Os dois não eram filhos de Raimundo e estavam encorajados com a ideia de que a mãe não preferiria o velho que achavam rabugento.

E estavam certo. Em dois dias Raimundo José sumiu e não foi mais visto na rua e os vizinhos desconheciam o motivo do sumiço repentino. Viajara para Itaituba? Fora para Teresina, onde tinha filhos?

As respostas não vieram.

O casal se conhecera num forró para velhos lá pelas bandas do Bairro Laranjeiras e, desde então, se encontravam todas as tardes de sábado até o dia em que resolveram juntar os panos e levar para a casa dela o clima de confraternização permanente.

Soube-se, em meados de janeiro último, que Raimundo, de fato, sumiu na madrugada, tangido pela ameaça dos filhos da ex. Foi morar sozinho em uma quitinete lá para as bandas do Aeroporto.

Com o passar dos dias, a saudade bateu. Para os dois. Mas Josinete sabia que a mensagem dos filhos era imperiosa: nada dele aqui de novo. Ela usa celular, mas ele não sabe nem mesmo digitar os números no “tijolão” que carregava para cima e para baixo.

Mas deram um jeito de se encontrar em um lugar neutro e comum para os dois. Uma ilha no Rio Tocantins, que os dois haviam comprado há 15 anos e tinha apenas uma pequena choupana. Cada um fez as malas e partiram numa rabeta na manhã de uma sexta-feira.

Lá, longe dos filhos dela, Raimundo e Josinete voltaram a viver as emoções da antiga casa de forró. Sem sinal de celular e com contato apenas por água, estavam seguros de que não seriam molestados. Foi uma segunda lua de mel. Aliás, está sendo. Passam lá uma semana por mês e depois voltam para suas casas, como se nada tivesse acontecido.

Cozidão, galinha caipira e mais alguns mimos amorosos fazem parte do cardápio que se permitem na casinha da ilha. Vizinhos? O mais próximo está a 400 metros e nada escutam do que fazem no giral, no quaradouro, na rede e também na cama. Decidiram que passarão mais tempo na ilha do que na cidade daqui para frente e, como sabem que os filhos dela têm medo de água, não haverá fiscalização das peripécias da aposentada.

A desculpa para passar mais tempo com o velho amor é o medo da covid-19. Nenhum deles pegou a doença e a ilha lhes parece um lugar imune ao vírus mortal que veio da China. Agora, ao vírus do amor, não há território que ele não possa penetrar. (Ulisses Pompeu)

* O autor é jornalista do CORREIO há 24 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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