Correio de Carajás

Crônica ouriço cheio: Ah, se o Pirucaba falasse e o Surubim murmurasse

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E me disse de chofre na última semana, comendo chambari num costa pra rua: “como me faz falta um Archimedes bom e um Penta de 12 toneladas pra eu voltar a subir o Itacaiunas como antes”.

Se meu primo Cícero soubesse, mais na frente, do que passa ligeiro, teria arranjado um amor ou amigação. Talvez até raparigado, ou até mesmo juntado os panos pra ver o que rolava. Haveria, hoje, companhia numa casa tão grande e sem fim. E ele foi ficando, engavetando tempo, até que sua mamãe já viúva, teve de ir. E Cícero restou só.

E restar, sobreviver aos mortos, não é negócio. Dias atrás, ele me disse que quando lembra que desejava ir somente aos 100, provavelmente foi castigado. Soubesse, teria ficado mutema e não bateria nos peitos governando ser de ferro e légua sem fim.

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E que coisa é a solidão? Tomar banho e medrar os ruídos? Almoçar numa mesa grande sem sal? Virar-se numa cama e não ter um corpo? Atravessar uma noite sem ter coragem de fazer xixi ou tomar água? Não ter com quem bater boca…Ah, Cícero, isso tudo não tem graça mesmo.

Nada na casa dele muda de lugar. Não suja, não tem televisão em preto e branco, não há o cabra véi que viajava num Penta subindo o grotão pra chapar o barco de castanha e descer de volta melando o passeio de água. Não há livros proibidos escondidos e nem brinquedos para arrumar. As louças estão lavadas, a pia está limpa e o guarda-roupa não está abarrotado de roupas sujas. Nem novenas há mais.

E num cigarro atrás do outro, entre água e um vinho caro (só há ele mesmo), o que lhe remói não o deixa morrer. A casa está quase Inabitada. Volta à Ditadura, um disparate de atraso em sua vida, quando mateiro ajudou alguns militares na caça aos comunistas que apareceram por aqui. Mas ele nunca foi comunista? Não era de aparelho nenhum? Não foi estudante de corriolas e sequer odiava os generais. Não serviu no Oito e nunca, nunca participou da Boina.

Mas veio rebentando, entrou pela porta da sala e esfaqueou. E, medramente, Cícero admite que sente falta até do temor. Daquele tempo empolado, cochichado, entregado, falado por porta de travessa, fogueira nos pés e choque.

Mas só lhe sobrava solidão.

E tão enlouquecedor é o deserto que tem ódio de seu irmão que sumiu por 38 anos e resolveu reaparecer silente. Depois de ter carregado sua vida, sua cidade, seu quintal, sua rua… Vendaval. Pra quê? E que razão restou para Cícero e sua mamãe? A mãe queria receber o filho pródigo de volta. Contou quatro meses… já ia pra mais de 96. Não se aguentava inabitada e sozinha. E se foi.

“Diga meu irmão, que cova rasa hei de reclamar, agora? Por quem derramarei chuvas? Que torturadores terei pra condenar? E que ossadas encontradas de desaparecidos me darão força pra ir guerrilhando?

O irmão fora para as bandas de Xambioá e para lá sumiu por quase quatro décadas. Todos diziam que tinha morrido na guerrilha. Até hoje ainda há sumidos, mas não é o mesmo naipe. Não cresceram ao lado de Cícero, não arengaram meninos. Não os escondeu quando foi preciso, não brincaram no terreiro ciscado e nunca lhe telefonaram do nada suspirando codinomes…

Do mesmo jeito que reapareceu, o irmão de Cícero sumiu seis meses depois. Sem dizer para onde e nem se voltaria. Tinha vindo ver a mãe, mas ela já não estava mais aqui.

E Cícero resignou-se em seu mausoléu, sem ir, nem vir. Cachaça, só aos finais de semana, mas ajudava a afogar as lembranças dos tempos dos castanhais. Ah, se o Pirucaba falasse; se a Cachoeira Grande contasse histórias de naufrágios tenebrosos; se o Surubim ou o Rio Vermelho resolvessem dialogar com Cícero, ele não estaria sozinho.

E me disse de chofre na última semanacomendo chambari num costa pra rua: “como me faz falta um Archimedes bom e um Penta de 12 toneladas pra eu voltar a subir o Itacaiunas como antes”.

* O autor é jornalista há 24 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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