Correio de Carajás

Contabilidade: desafios de uma profissão cada vez mais estratégica

No Dia do Contador(a), celebrado nesta terça-feira (22), Erica Fabiula fala sobre tecnologia, reforma tributária e a importância do profissional na gestão das empresas

Erica Fabiula: “A inteligência artificial, atualmente, agrega valor, auxilia, mas ela não te isenta”/ Foto: Luciana Araújo
Por: Luciana Araújo

O Dia do Contador, celebrado nesta terça-feira (22), coloca em evidência uma profissão muitas vezes invisibilizada, mas que é fundamental na forma de administrar empresas. Em Marabá, a contadora Erica Fabiula Machado Santana, de 29 anos, vive essa transformação no dia a dia do escritório e, também, na atuação como delegada do Conselho Regional de Contabilidade (CRC) na região.

Formada em Ciências Contábeis há três anos, ela mantém um escritório que atende Marabá e São Domingos do Araguaia. A profissional se mantém atualizada nas inovações da área, incluindo a digitalização dos processos, o avanço da inteligência artificial e as atuais mudanças provocadas pela reforma tributária.

Em entrevista ao Correio de Carajás, Erica frisa que as novas ferramentas não diminuem a importância do contador, mas mudam a forma como o profissional trabalha e amplia o espaço para orientação de clientes e tomada de decisões.

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“Da mesma forma que você precisa de um médico para consultar sua saúde física ou emocional, você precisa de um contador para consultar sua saúde financeira”, compara.

TECNOLOGIA COMO ALIADA

Uma das principais mudanças na rotina dos escritórios veio com a digitalização dos processos e, mais recentemente, com a inteligência artificial. Ferramentas que automatizam tarefas e organizam informações passaram a fazer parte do dia a dia dos profissionais.

Erica conta que utiliza sistemas automatizados em seu escritório e afirma que a tecnologia permite ganhar tempo e dar mais agilidade ao atendimento. Ela destaca que o uso dessas soluções não elimina a necessidade de conhecimento técnico e análise profissional.

“Eu tenho funcionários para fazer a gestão da inteligência artificial, não é ela que faz o trabalho”, explica.

Na prática, segundo ela, a ferramenta pode auxiliar na busca por informações, na análise de dados e na execução de tarefas operacionais. Mas cabe ao profissional avaliar os resultados, interpretar as informações e orientar o cliente.

Para Erica, essa mudança exigiu que os contadores buscassem especialização para acompanhar os recursos disponíveis e entender como utilizá-los de forma adequada.

“A inteligência artificial hoje agrega valor, ela te auxilia, mas ela não te isenta. Então ela é uma aliada”, afirma.

Ela reflete que a tecnologia também ampliou o acesso de empresários a informações sobre a própria contabilidade. Mesmo assim, a contadora considera que o conhecimento disponível em ferramentas digitais não substitui a responsabilidade técnica do profissional.

Para exemplificar ela cita o Microempreendedor Individual (MEI), que não tem obrigatoriedade de contratar contador em determinadas situações. Contudo, há procedimentos em que o empresário pode precisar de orientação ou da assinatura de um profissional habilitado.

ATUALIZAÇÃO CONSTANTE

A necessidade de acompanhar mudanças também faz parte do trabalho. É o caso da reforma tributária, que teve sua fase de testes iniciada este ano. Na programação do Governo Federal, a implementação é gradual e deve ser concluída em 2033.

Para os contadores, o processo representa uma nova etapa de estudos e adaptação.

“Dizem que ela está batendo na porta e eu sempre falo que ela já está dentro. A gente já está vivendo a realidade da reforma tributária hoje”, afirma Erica.

Segundo ela, as atualizações são frequentes e exigem acompanhamento constante das normas. O desafio não está apenas em entender as mudanças, mas em traduzi-las para a realidade de cada empresa.

A contadora também considera importante que os empresários tenham conhecimento básico sobre os impactos das novas regras. Saber quanto o negócio paga de impostos, quanto custa um funcionário e qual é a capacidade de pagamento da empresa faz parte da gestão.

“Para gerenciar, para fazer a gestão do seu negócio, sem o mínimo do conhecimento básico fica inviável”, afirma.

Erica foi uma das profissionais homenageadas em uma sessão especial na Câmara Municipal de Marabá

Por isso, a profissional recomenda que os empresários procurem orientação de contadores habilitados e fontes especializadas para entender a reforma, em vez de se basearem apenas em conteúdos curtos publicados nas redes sociais.

FISCALIZAÇÃO E ORIENTAÇÃO

Além de ter seu escritório de contabilidade, Erica é delegada do CRC e representa o órgão em Marabá e em municípios da região que não possuem uma delegacia própria.

Questionada pela reportagem, ela explica que a instituição promove ações de educação continuada, com palestras e eventos, além da fiscalização do exercício profissional. Neste último caso, a intenção é verificar se os contadores estão atuando de acordo com as normas e se os serviços estão sendo prestados por profissionais habilitados.

Em Marabá, segundo Erica, o conselho já recebeu denúncias e realizou fiscalizações relacionadas à atuação irregular.

 

“Quando o conselho fiscaliza, ele também está orientando. A gente está ali para garantir que o profissional esteja regular, mas também para levar conhecimento e educação continuada para os contadores”, resume.

Sobre os dados marabaenses, ela detalha que o município tem 267 contadores registrados no CRC. São 142 homens e 125 mulheres. Para a contadora, a diferença entre os números mostra também o crescimento da presença feminina na profissão.

A própria Erica passou a ocupar espaços de representação profissional poucos anos depois de entrar na área. Primeiro, integrou a Comissão da Mulher do conselho e, posteriormente, assumiu a função de delegada.

DESAFIOS DA PROFISSÃO

A presença em espaços de representação também se relaciona a um dos desafios que Erica enfrenta na carreira: a percepção sobre mulheres jovens em uma profissão que exige conhecimento técnico e capacidade de decisão.

Ela conta que já percebeu situações em que sua idade e o fato de ser mulher foram associados a uma suposta fragilidade profissional.

“O fato de ser mulher, na maioria das vezes, traz um certo constrangimento. Às vezes o outro lado enxerga uma fragilidade e quer desmerecer o trabalho da pessoa”, relata.

Para ela, o posicionamento profissional e a experiência acumulada ajudam a enfrentar esse tipo de situação.

A escolha pela contabilidade, aliás, aconteceu de forma diferente do que havia planejado. Erica inicialmente pretendia seguir na área da saúde e chegou a cursar Biomedicina. Natural de Brejo Grande do Araguaia, ela conseguiu uma bolsa integral pelo Enem para Ciências Contábeis em Marabá.

A identificação com a área não tardou a acontecer, veio ainda no início da graduação. Hoje, além do escritório e da atuação no CRC, ela busca na formação em Direito conhecimentos que possam complementar o trabalho contábil.

“Quando eu me dei conta, eu já estava dentro da contabilidade, já estava vivendo a contabilidade e vi que hoje, de fato, o meu objetivo de vida e meu propósito é contabilidade”, afirma.

ALÉM DOS NÚMEROS

A rotina do contador, na visão de Erica, está cada vez mais ligada à orientação e à tomada de decisões. O profissional acompanha números, interpreta informações e ajuda o empresário a entender a situação real do negócio.

É esse trabalho que, para ela, diferencia a atuação profissional do simples acesso a ferramentas digitais ou sistemas automatizados. O contador pode ajudar a identificar a capacidade de pagamento de uma empresa, avaliar custos, orientar sobre impostos e oferecer informações para que o empresário tome decisões com mais segurança.

 

“Ele é de extrema importância, ele é essencial para te auxiliar na tomada da decisão, para ele te mostrar a realidade em números, o que a sua empresa tem capacidade de pagamento”, afirma.

Com a tecnologia assumindo parte das tarefas operacionais, o conhecimento técnico e a capacidade de interpretar informações ganham ainda mais espaço na profissão. Para Erica, acompanhar essas transformações sem perder a responsabilidade profissional é parte do trabalho de quem atua na contabilidade atualmente.