Mudanças no estilo de vida e alimentação saudável são essenciais para a prevenção de problemas cardíacos. Mas, para quem já tem os níveis de colesterol alto e grande risco cardiovascular, as estatinas costumam ser um importante aliado.
➡️As estatinas são um tipo de medicamento comumente prescrito para reduzir os índices do colesterol LDL, popularmente conhecido como colesterol ruim. Elas inibem a secreção de uma enzima no corpo que é responsável pela produção do colesterol no fígado, o que faz com que os níveis de LDL no sangue caiam. (entenda mais sobre a ação das estatinas no corpo abaixo)
🩸O LDL é responsável por transportar o colesterol das células do fígado para outras partes do corpo. Em excesso no sangue, ele pode se acumular nas paredes das artérias, formando placas e aumentando o risco de doenças cardíacas e acidente vascular cerebral (AVC).
Leia mais:Além da redução dos níveis de colesterol, as estatinas também têm outros efeitos positivos como:
- Redução da inflamação nas artérias
- Estabilização das placas de gordura, diminuindo o risco de ruptura e infarto
- Redução do risco de doenças cardiovasculares
➡️Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista científica “Annals of Internal Medicine” também mostrou que esse medicamento é capaz de reduzir significativamente o risco de mortalidade em adultos com diabetes, independentemente do risco cardiovascular.
Na reportagem abaixo, você confere:
- Como as estatinas agem no corpo
- Para quem esse medicamento é indicado
- Quais os efeitos colaterais mais comuns
- Quais outras medidas devem ser adotadas para reduzir os níveis de colesterol no sangue
Como as estatinas agem no corpo?
As estatinas são uma classe de medicamentos que atuam no fígado bloqueando uma via enzimática com o objetivo principal de reduzir a produção de colesterol no corpo.
“Quando o fígado produz menos colesterol, ele passa a captar mais colesterol do sangue por meio de receptores de LDL. O resultado é a queda do LDL, colesterol ruim no sangue”, detalha o médico endocrinologista, Marcello Bertoluci.
Bertoluci, que é diretor do Departamento de Dislipidemia e Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e coordenador do Departamento de Cardiometabolismo da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), detalha que há ao menos seis representantes dentro da classe das estatinas.
O que muda, segundo o médico, é a potência do esquema, que depende da molécula e, principalmente, da dose.
“Em geral, a atorvastatina em dose alta e a rosuvastatina em dose alta reduzem em torno de 50% o LDL, enquanto outras como a sinvastatina, a pitavastatina, a pravastatina e a fluvastatina tendem a reduzir por volta de 30%”, analisa.
Quem deve tomar o medicamento?
A indicação para o início do uso das estatinas depende diretamente da categoria de risco cardiovascular e do nível do LDL no sangue.
Bertoluci pontua que, quanto mais alto for o risco, maior a necessidade de reduzir o colesterol.
👉Elaine dos Reis Coutinho, médica cardiologista e membro do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que, de maneira geral, o tratamento com estatinas é indicado para os seguintes casos:
- Colesterol LDL elevado, principalmente quando não há resposta adequada apenas com mudanças no estilo de vida
- Pessoas que já tiveram infarto, AVC ou angina (prevenção secundária)
- Pacientes com diabetes, principalmente acima dos 40 anos
- Indivíduos com hipertensão associada a outros fatores de risco, como obesidade e tabagismo
- Pessoas com história familiar de doença cardiovascular precoce
- Casos de hipercolesterolemia familiar, uma condição genética
“Em resumo, as estatinas entram quando o LDL está alto e, principalmente, quando o risco e a necessidade de redução são grandes o suficiente, a ponto de as medidas de estilo de vida – que conseguem reduzir em média 15% do colesterol – não darem conta sozinhas de atingir a meta de colesterol”, detalha Bertoluci.
É importante lembrar que, em 2025, a Sociedade Brasileira de Cardiologia atualizou a Diretriz de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose e endureceu as metas de colesterol, incluindo pela primeira vez a categoria de risco extremo – voltada para pacientes que já tiveram múltiplos eventos cardiovasculares.
A nova versão do documento estabelece:
- Baixo risco: menor que 115 mg/dL (antes era menor que 130 mg/dL)
- Intermediário: menor que 100 mg/dL (antes era menor que 100 mg/dL)
- Alto: menor que 70 mg/dL (sem alteração)
- Muito alto: <50 mg/dL (antes era menor que 70 mg/dL)
- Extremo: <40 mg/dL (não existia na diretriz anterior)
🫀Ou seja, quanto maior o risco cardiovascular envolvido, mais baixo é o nível de LDL aceitável no sangue do paciente.
Helio Magarinos Torrres Filho, patologista clínico e diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, pondera que, por muito tempo, o controle do colesterol foi tratado como um número isolado, especialmente o LDL. Mas a nova diretriz mostra que o tratamento precisa ir muito além.
“Quem tem risco mais alto precisa de metas mais baixas. Ou seja, dois pacientes podem ter o mesmo LDL e receber condutas diferentes, porque uma pessoa de baixo risco pode estar em um patamar aceitável e outra, que já teve um evento cardiovascular, pode precisar reduzir muito mais”, compara.
Efeitos colaterais
De acordo com os especialistas, as estatinas são medicamentos seguros, eficazes e com estudos robustos que demonstram que podem salvar vidas quando bem indicados.
Apesar disso, como acontece com todos os medicamentos, essa categoria de remédios pode causar alguns efeitos colaterais. O mais comum deles é a dor muscular.
“É algo que acomete cerca de 10% das pessoas, mas, em geral, é tolerável e reversível, quando se troca a medicação ou se ajusta a dose, ou mesmo quando se muda para doses mais baixas em combinação com outras medicações”, explica Bertoluci.
Elaine detalha que as dores musculares costumam ser leves, no primeiro mês do tratamento, e podem levar também à sensação de câimbras.
Em situações muito raras, o uso do medicamento pode levar a uma lesão muscular grave com consequência aos rins. O efeito é algo bem mais incomum que também costuma ser reversível com as medidas adequadas.
Outro efeito raro é relacionado ao fígado, como uma hepatite medicamentosa com alterações laboratoriais. A reação também é pouco relatada e, quando acontece, pode ser revertida.
“Os efeitos colaterais importantes são raros e o benefício do tratamento na grande maioria das vezes é maior que o risco”, analisa Elaine Coutinho.
Importância dos hábitos saudáveis
Os especialistas reforçam que uma alimentação saudável e mudanças no estilo de vida são fundamentais para controlar os níveis de colesterol e reduzir o risco cardiovascular.
Bertoluci lembra que, quando o risco é baixo, muitas vezes é possível controlar o colesterol somente com o estilo de vida mais saudável, que inclui:
- Reduzir a ingestão de gordura saturada
- Não ganhar peso
- Fazer atividade física regular
- Evitar excessos alimentares que em algumas pessoas elevam rapidamente o colesterol
- Aumentar a ingestão de fibras
- Não fumar
- Reduzir ou evitar a ingestão de bebida alcoólica
“Mas mudanças de estilo de vida costumam reduzir o colesterol em torno de 15%, e, em muitos casos de alto risco, a meta exige reduções de acima de 50% – o que geralmente não se alcança só com dieta e exercício”, alerta.
Assim, para pessoas com risco alto ou muito alto, por mais que hábitos saudáveis sejam importantes para a manutenção da saúde de forma geral, a prevenção ou tratamento deve ser medicamentosa, à base de estatina.
(Fonte:G1)
