📅 Publicado em 31/03/2026 09h20✏️ Atualizado em 31/03/2026 09h34
Começa quase sempre do mesmo jeito, com uma oferta que parece boa demais para ignorar, fotos convincentes, conversa rápida e uma sensação de segurança construída palavra por palavra na tela do celular. Em poucos cliques, a negociação avança, o pagamento é feito e a expectativa de resolver um problema ou aproveitar uma oportunidade vira frustração. Em Marabá, histórias de golpes aplicados pelo Marketplace do Facebook se multiplicam no boca a boca e nas redes sociais, deixando claro que o prejuízo vai muito além do valor transferido, atingindo também a confiança, o emocional e a forma como essas pessoas passam a enxergar qualquer compra virtual dali em diante.
Sem números oficiais que dimensionam o tamanho do problema, o que resta são relatos que se repetem com assustadora semelhança. O Correio de Carajás ouviu vítimas que aceitaram contar suas experiências. São histórias de quem tentava economizar, montar a casa, comprar um veículo ou simplesmente vender um bem, e acabou envolvido em esquemas que exploram a boa-fé, usando perfis aparentemente comuns, linguagem educada e até referências religiosas para criar uma falsa sensação de segurança.

A geladeira que nunca existiu
Recém-chegada a Marabá, a dona de casa Luciana Vieira precisava montar a casa praticamente do zero. Com orçamento apertado, decidiu recorrer ao Marketplace em busca de móveis e eletrodomésticos usados, e foi assim que encontrou o anúncio de uma geladeira pela bagatela de R$500 – valor que parecia encaixar exatamente na sua realidade. A conversa com o suposto vendedor fluiu até então fluiu bacana, com envio de fotos, explicações detalhadas e até informações sobre a entrega, o que fez com que Luciana se sentisse segura para seguir adiante, mesmo diante da desconfiança levantada por familiares.
“Tudo me parecia muito certo, muito organizado, e eu acabei acreditando”, conta. O arrependimento veio quase imediatamente após a transferência via PIX, quando o perfil sumiu, as mensagens desapareceram e qualquer possibilidade de contato foi interrompida. O impacto foi imediato não apenas pelo dinheiro perdido, mas sim pelo sentimento de impotência e medo, agravada pelo fato de ela ter compartilhado endereço, telefone e imagens da casa durante a negociação.
Na tentativa de buscar algum tipo de resposta, Luciana chegou a procurar a delegacia com prints e registros salvos, mas saiu ainda mais frustrada. O que ouviu foi que situações como aquela eram comuns, o que acabou despertando a percepção de que dificilmente teria retorno. Mesmo assim, resolveu investigar por conta própria e descobriu que o endereço da suposta loja informado pelo golpista simplesmente não existia, confirmação que veio após um conhecido e o ex-marido irem até o local e encontrarem apenas uma rua sem saída.
O perfil utilizado no golpe exibia fotos de família e imagens ligadas a ambientes religiosos, estratégia que, segundo Luciana, foi decisiva para gerar confiança. Para ela, o prejuízo financeiro não resume o dano causado: “não é só o dinheiro, é o esforço para juntar, é o emocional. Eu chorei muito, fiquei abalada e até hoje tenho receio de comprar qualquer coisa pela internet”. O medo de represálias também pesou na decisão de não denunciar o perfil diretamente na plataforma, já que, mesmo após o golpe, o anúncio da mesma geladeira continuava ativo.
O raio que “quase” caiu duas vezes no mesmo lugar
Outra história que ilustra como esses esquemas funcionam envolve Gilson Santana, que quase viu o golpe se repetir duas vezes, uma como comprador e outra como vendedor. Na primeira situação, ao tentar adquirir uma motocicleta anunciada na internet, o autônomo percebeu algo estranho ao chegar ao endereço combinado e encontrar um conhecido, que também havia sido envolvido na negociação sem saber. Alguém já havia feito um pagamento para “reservar” a moto, acreditando estar falando com o verdadeiro dono, quando, na prática, conversava com um intermediário que manipulava as duas partes.
Tempos depois, ao anunciar uma betoneira para venda, Gilson passou a desconfiar ao notar contradições na conversa com o interessado, que dizia não poder comparecer pessoalmente e insistia em enviar um terceiro para concluir o negócio. O encontro presencial entre Gilson e esse suposto comprador revelou a tentativa de repetir o mesmo esquema, com o golpista se passando por parente de um e empregador de outro, orientando o pagamento para uma conta que não tinha relação com a venda. A negociação só não terminou em prejuízo porque Gilson exigiu que qualquer pagamento fosse feito diretamente a ele, no local.
Mesmo sem ter perdido dinheiro nessa segunda tentativa, o episódio revelou a sensação de insegurança. Para ele, a principal lição foi desconfiar sempre que a negociação envolve intermediários, pressa ou histórias elaboradas demais para justificar a ausência do vendedor. “Se a pessoa não pode vir e manda outra no lugar, tem algo errado”, resume.
A falsa camionete e a perda de R$ 20 mil
Já o comerciante Ivan Silva, morador de Parauapebas, não teve a mesma chance de interromper o golpe a tempo. Ao se interessar por um anúncio de uma SW4 que supostamente estaria em Marabá, iniciou a negociação e foi convencido a fazer pagamentos antecipados como forma de garantir o negócio. Ao todo, transferiu R$20 mil antes de viajar até a cidade para buscar o veículo e acertar o restante. No dia combinado, passou horas aguardando respostas que nunca vinham, enquanto novas tentativas de pedir mais dinheiro surgiam como condição para a entrega do carro.

Somente após conversar com pessoas no local onde o veículo supostamente estaria é que Ivan teve a confirmação do que já suspeitava: o carro nunca existiu. O dinheiro foi perdido e o impacto da experiência mudou completamente sua relação com compras online. Hoje, ele afirma que qualquer negociação virtual é vista com extrema desconfiança, justamente por saber que, do outro lado da tela, nem sempre quem fala é quem diz ser.
Sem dados oficiais que dimensionem o alcance desse tipo de golpe em Marabá e região, as histórias acabam sendo o principal termômetro do problema. Desconfiar de facilidades, evitar pagamentos antecipados e priorizar encontros presenciais seguem sendo, na prática, as únicas formas de reduzir o risco de transformar uma boa oportunidade em mais um prejuízo silencioso.
A reportagem entrou em contato com o Facebook para esclarecer quais mecanismos a plataforma utiliza atualmente para identificar e remover anúncios fraudulentos no Marketplace, como funciona o processo de denúncia feito pelos usuários, se há prazo médio de resposta, se perfis comprovadamente envolvidos em golpes são banidos de forma definitiva e se existe cooperação com autoridades policiais brasileiras em casos de estelionato praticados por meio da rede social. Até o fechamento desta edição não houve retorno.

