Correio de Carajás

Cena de reportagem em que homem finge estar morto é de ato pelo meio ambiente

Enganoso
É enganosa postagem no Facebook que usa o vídeo de uma reportagem sobre um protesto de ativistas pelo clima para dizer que a mídia está “corrompida”. No ato, os manifestantes simularam a morte de pessoas que são afetadas pela falta de medidas para reduzir as emissões de CO2,. Deitados ao chão, como cadáveres, um deles levanta e é impedido por outra pessoa. Não há relação com vítimas da covid-19 ou com qualquer iniciativa do próprio repórter ou jornal.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo publicado em um grupo do Facebook mostra o trecho de uma reportagem com imagens de pessoas deitadas no chão sob sacos plásticos, como cadáveres. Um dos “defuntos” começa a se levantar, mas é impedido por outra pessoa. Na legenda, o post afirma que a mídia está “corrompida”, sugerindo que o jornal teria montado a cena para noticiar mortes que não aconteceram.

É enganoso um post no Facebook que usa o trecho de uma reportagem para afirmar que a mídia está “corrompida”. O vídeo exibe imagens de um grupo de pessoas deitadas no chão sob sacos plásticos, como se fossem cadáveres. Um dos “defuntos” tenta se levantar, mas é impedido por outra pessoa. O post sugere que o jornal teria montado a cena para noticiar mortes que não ocorreram, passando a ideia de que se trata de algo que ocorreu durante a pandemia. Na verdade, trata-se da cobertura de um protesto de rua organizado por ativistas do clima — não houve mortes nem qualquer tentativa de enganar a respeito disso por parte da mídia.

A cobertura foi feita pelo repórter Marvin Bergauer, do jornal austríaco OE24 e foi exibida no dia 4 de fevereiro de 2022. O ato foi organizado pelo grupo Fridays For Future e ocorreu em frente ao escritório do chanceler austríaco, Karl Nehammer. A ideia era fazer alusão ao número de pessoas que diariamente morrem vítimas de emissão de CO2 e cobrar a aprovação de uma política de proteção climática no país.

Além das 49 pessoas deitadas, outras também estavam vestidas de “morte”, com foices na mão e cartazes. Em um dos cartazes exibidos, havia a frase: “Klimaschutzgesetz rettet leben” (“Lei de proteção climática salva vidas”, em tradução livre).

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A postagem feita no Facebook distorce as informações e dá a entender que os jornalistas teriam fabricado a cena. “Falhou! Um defunto ressuscitou antes de terminar a reportagem. A mídia está corrompida no mundo todo”, diz a publicação. O repórter Marvin Bergauer, autor da matéria compartilhada na publicação, rebateu as acusações, em nota publicada no seu perfil do Facebook, e explicou que estava de fato cobrindo um protesto.

A autora do post original deletou a publicação após ser questionada pela equipe do Projeto Comprova.

O conteúdo foi classificado como enganoso, pois foi retirado do contexto original e teve seu significado original alterado, o que induziu a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?

Começamos a nossa verificação buscando no Google a origem do vídeo. Ao observar a imagem, conseguimos identificar o nome do repórter Marvin Bergauer e chegamos ao site austríaco Österreich. Em uma pesquisa mais detalhada pelo portal, encontramos a reportagem com o título: “Schock-Protest: 49 Aktivisten im Leichensack” (“Protesto de choque: 49 ativistas em sacos para corpos”).

Utilizamos o Google Tradutor para entender o conteúdo da reportagem. Trata-se de um protesto pela falta de uma política para redução de emissões de CO2 na atmosfera na Áustria.

Realizamos uma busca no Facebook para tentar contato com o repórter Marvin Bergauer. Depois disso, conseguimos localizar o autor original do vídeo no TikTok, através de postagem feita pelo repórter, que se pronunciou sobre o caso. O vídeo reúne mais de 1,7 milhão de visualizações na rede até 14 de fevereiro. Ele não relaciona o conteúdo a mortes pela covid-19 e apenas ironiza a falha da organização.

Também procuramos mais imagens desse mesmo dia e encontramos publicações na página do Facebook da Fridays for Future de Vienna.

Verificação

O grupo em que a publicação foi feita é usado para fazer propagandas de ações do governo federal e do presidente Jair Bolsonaro. Nele, há postagens contra a vacina da covid-19, que é uma medida comprovadamente eficaz para reduzir mortes e casos graves da doença.

Após as tentativas de contato com a autora original, a publicação no grupo foi deletada e não houve retorno de respostas.

A manifestação que de fato ocorreu e foi organizada pela Fridays For Future menciona um estudo publicado na Revista Nature. De acordo com a pesquisa, para cada 4.434 toneladas de emissões de dióxido de carbono, uma pessoa morrerá como resultado da crise climática neste século na Áustria.

Eles cobram que uma política climática seja estabelecida no país, porque a última venceu no final de 2020. Um dos representantes, Michael Spiekermann, também fez publicação em seu perfil no Instagram, explicando as motivações do ato. “Cada melhoria na lei de proteção climática reduz nossas emissões e salva milhares de vidas”, disse.

O repórter

O repórter Marvin Bergauer se pronunciou através das redes sociais e explicou que havia sido procurado por pessoas do Brasil, Canadá, Polônia, Rússia e Espanha, entre outros países, após a sua reportagem ter sido tirada do contexto. Ele criticou o uso do conteúdo para desacreditar a imprensa e acusá-la de manipular as informações sobre mortes causadas pela covid-19. Segundo ele, os termos mais usados foram “manipulador” e “mentiroso”.

Por fim, ele escreveu: “Por favor, não acreditem em tudo que lêem nas redes sociais […] Repostar tudo cegamente sem sequer questionar o que poderia realmente ser, só leva a mais teorias da conspiração, insultos desnecessários e uma distorção da realidade”.

Marvin foi procurado pela equipe do Projeto Comprova, mas não retornou as mensagens.

Sobre Fridays for Future

A Fridays for Future é uma organização não governamental formada por jovens e estudantes da Áustria que realizam manifestações para cobrar que políticos cumpram o acordo climático de Paris, compromisso firmado entre 200 países para conter a elevação das temperaturas globais a 1,5°C em relação à média pré-industrial.

Para isso, a ONG se divide em diversas regiões do país e realiza atos de forma individualizada, mas também em conjunto. A organização não tem filiação com partidos políticos e aceita o ingresso de qualquer pessoa que se interessar.

O grupo foi inspirado pela adolescente e ativista Greta Thunberg, que ficou conhecida por fazer protestos todas as sextas-feiras em frente ao parlamento sueco. Além dos atos de rua, eles também fazem oficinas e workshops em escolas, empresas e organizações. Um dos princípios para os protestos é que sejam pacíficos, sem ações que envolvam qualquer violência.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagens sobre políticas públicas do governo federal, eleições presidenciais e a pandemia da covid-19. O conteúdo verificado teve mais de 2.500 interações no Facebook e mais de 1,6 milhão de visualizações no Tik Tok.

O grande número de mortes por covid-19 já foi evidenciado por órgãos sanitários, governos e jornais diversas vezes. De acordo com dados do Ministério da Saúde, já foram registrados 637.152 óbitos desde o início da pandemia.

O Projeto Comprova já mostrou em outros momentos que a pandemia de fato causou muitas mortes no país. Em agosto de 2020 um post distorceu dados para negar o número de óbitos. Depois, o Projeto Comprova também mostrou que a média de mortes em 2020 foi maior do que em 2019, em decorrência da pandemia.

Além disso, essa verificação também foi feita pelo Fato ou Fake, que conversou com o repórter autor da matéria distorcida.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Desde 2020 o Correio de Carajás integra o Projeto Comprova, que reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.