📅 Publicado em 12/02/2026 15h41✏️ Atualizado em 12/02/2026 15h41
Fevereiro costuma ser um mês mágico, marcado pelo brilho das lantejoulas e embalado pela trilha sonora das marchinhas de Carnaval. Marabá viveu anos de ouro da maior festa popular do mundo, com desfiles alegóricos de escolas de samba que sacudiam as ruas da Marabá Pioneira nos anos 1980 e 1990, além dos blocos espalhados por todo o perímetro da terra de Francisco Coelho.

Foliões saíam de casa vestindo suas melhores fantasias, muitas delas feitas à mão, para aproveitar os embalos da festa. E, no meio de tanta gente, um personagem sempre se destacava. Aquele que arrastava amigos, vizinhos e quem mais quisesse cair na folia, chamando atenção pelas fantasias e adereços marcantes. Seu nome? João Ferreira, ou, como muitos o conheciam, o eterno Rei Momo do Carnaval marabaense.
Leia mais:O empresário, que faleceu em novembro de 2025, ganhará uma homenagem especial neste sábado (14), em uma iniciativa do filho, Márcio Holanda e de outros familiares. A noite promete atrações culturais, música ao vivo, convidados especiais e, claro, uma exposição de fotografias que resgata os anos em que João viveu intensamente o Carnaval nos blocos da cidade. O evento acontece no restaurante Iara ‘s Bistrô, no bairro Belo Horizonte, a partir das 20h.

Como o espaço físico é limitado, o acesso se dará por reservas de mesas pelos contatos (94) 98410-8166 e (94) 99166-9051. Um detalhe torna a data ainda mais simbólica: o sábado de Carnaval cai na data em que João Ferreira comemoraria mais um ano de vida.
O legado do Rei Momo
A geração atual – este que vos fala, por exemplo – não chego a conhecer ou acompanhar de perto o auge do Carnaval marabaense. Tampouco tiveram a chance de presenciar a energia contagiante desse verdadeiro rei da festa. Márcio Holanda, ao lado da esposa, a artista Patrícia Luz, esteve na redação do Correio para compartilhar lembranças, histórias e muitas, mas muitas, fotografias que João fazia questão de registrar durante os dias de folia.

Um detalhe que chama atenção logo de cara é que João brincava todos os dias de Carnaval sem colocar uma gota de álcool na boca, algo curioso em uma festa marcada, tradicionalmente, pela cervejinha gelada entre amigos. A alegria dele vinha de forma natural e se espalhava por onde passava.
“Eu lembro muito de quando eu ainda era pequeno e ele já era o Rei Momo, na época dos carnavais de clube em Marabá. Tinha o Clube de Mães, outros clubes, todos de portas abertas para receber o Rei Momo. A festa ficava mais alegre, mais bonita com a presença dele”, relembra Márcio.

Patrícia conta que João fazia questão de se fantasiar em todas as festas e que nunca repetia figurino, que quanto mais extravagante, melhor. Muitas vezes, ela própria ajudava a customizar as roupas. “Ele me chamava e dizia: ‘Vamos me maquiar, eu quero uma maquiagem assim’. Eu auxiliava e estava presente nesses momentos. Quase sempre ele guardava lembranças dessas ocasiões. O que o seu João traz pra gente é justamente isso: a memória afetiva da alegria presente no Carnaval”, recorda.

João Ferreira também foi um dos fundadores de um dos blocos mais célebres de Marabá: o Bloco do Maneco. Surgido na Marabá Pioneira, o bloco já nasceu grande, arrastando multidões. Segundo Márcio, isso se deve ao apelo simbólico do nome. Maneco foi um importante carnavalesco da cidade e, ao lado de João e de Caboquinho, ajudou a escrever a cultura local. Durante um desfile, Maneco caiu de um dos carros alegóricos e faleceu em seguida. Como costumava dizer que queria morrer em uma noite de Carnaval, sua partida poética acabou se tornando inspiração e sinônimo da própria festa.
Respeitado também pelas autoridades, João costumava aparecer nas fotos sempre acompanhado da simbólica chave da cidade, entregue pelo prefeito da época. No início dos anos 1990, foi oficialmente condecorado como Rei Momo, título que carregou até os últimos anos de vida.
Outro nome marcante do Carnaval de Marabá e presença constante ao lado de João é Letícia Werneck, a primeira Rainha Gay do Carnaval da cidade. Em entrevista, Letícia relembra com carinho os momentos vividos ao lado dele e destaca a alegria contagiante que João espalhava. Um episódio inesquecível aconteceu durante um desfile do bloco Gaiola das Loucas, quando os dois “trocaram de lugar”.
“Ele se vestiu de mulher e eu me vesti de homem. Ele virou a rainha e eu me tornei o rei, por um momento único nosso. Seu João era carismático, alegre, não gostava de tristeza. Tinha uma energia elétrica que, ao mesmo tempo, te dava paz”, conta.
Foram 12 anos de parceria. Letícia, eleita Rainha Gay com uma fantasia inspirada em Ayrton Senna e nos feitiços da Amazônia, lembra que a dupla sempre levava novidades à avenida. “As pessoas aguardavam nossa chegada. Eu fazia a abertura levando a chave ao prefeito”.

Fora do Carnaval, João mantinha a mesma autenticidade ao longo do ano. Promovia festas beneficentes, realizava visitas solidárias à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), organizava grandes festejos juninos em homenagem a São João e, no Natal, trocava as roupas extravagantes de fevereiro pela indumentária clássica do bom velhinho.
A trajetória desse gigante da cultura marabaense também teve momentos difíceis. João se afastou do Carnaval após a morte de um dos filhos, por volta de 2019. Segundo Márcio, o Rei Momo se fechou e perdeu o ânimo para brincar a festa que, por tantos anos, foi sua maior alegria.
Natural de Belém, João Ferreira encontrou em Marabá o lugar onde viveu intensamente: brincou, sorriu, dançou e também lamentou. Mas, acima de tudo, deixou uma marca profunda na memória coletiva da cidade. E como diz o samba, “o show tem que continuar”, sem jamais esquecer aqueles que pavimentaram o caminho até aqui. Viva o Rei Momo marabaense!

