📅 Publicado em 05/03/2026 16h30✏️ Atualizado em 05/03/2026 16h44
O cheiro do álcool estéril enche o nariz das pacientes que entram na sala de quimioterapia do Hospital Regional Geraldo Veloso, em Marabá. Sentadas em poltronas confortáveis, elas observam o medicamento correr vagarosamente pela infusão intravenosa. Para elas, o líquido é a arma mais poderosa contra o câncer. A batalha, muitas vezes solitária, perdeu seus tons melancólicos numa manhã, enquanto as águas de março banhavam Marabá.
Timidamente, quatro meninas reverenciaram as histórias dessas mulheres em tratamento ao ler, para elas, cartas escritas por 37 alunas da Escola Municipal Geraldo Veloso.
O encontro foi possível graças a uma parceria entre a instituição de ensino e o hospital, na 2ª edição do projeto “Elas por Elas”, idealizado pelo professor de Português Ulisses Pompeu. Realizada às vésperas do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a iniciativa aconteceu pela primeira vez em 2025.
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Neste e naquele momento, a ação se tornou uma demonstração pública de afeto. As que escreveram depositaram no papel pedaços de suas histórias, fazendo reverberar força e esperança para aquelas que, apesar do cansaço, seguem lutando.
E foi na sala que cheira a álcool estéril que a aluna Juliana Gindri, de 13 anos, estudante do 8º ano, leu sua carta de forma emocionada para as seis mulheres que estavam em sessão de quimioterapia.

Na missiva, além de registrar palavras de motivação e fé, a garota também contou sua história. Quando ainda era muito nova para compreender a gravidade da doença, aos oito anos, na aurora de sua vida, ela recebeu o diagnóstico de câncer de pele. “Fiz todo o acompanhamento em um hospital de Porto Alegre, onde eu morava. Eu e meu padrasto fizemos o tratamento juntos”, narra.
As lágrimas vertidas por Juliana no final da leitura se somam às derramadas por Meire Arlen Frazão. Visivelmente fragilizada pelo tratamento, ela estava aconchegada na poltrona enquanto ouvia o relato acalentador da estudante. Comovida, ela compartilhou sua surpresa com a generosidade das estudantes.
“Fiquei muito feliz em ver pessoas dispostas a dedicar um pouco do seu tempo a algo assim. Só quem passa por uma situação dessas sabe o quanto um diagnóstico como esse é difícil, principalmente quando se tem filhos pequenos. Então fico muito feliz por ela ter dedicado o tempo dela para pensar, para escrever. Não só por ela, mas por todas. E também pelo colégio, que incentivou essa iniciativa”, confidencia Meire.
Olhar além do diagnóstico
Fora da sala de quimioterapia, mas ainda dentro das paredes do hospital, é Daiane Uszynski, analista de humanização do Hospital Regional, quem dá voz aos sentimentos não ditos pelas destinatárias das cartas.

“Para nós, é importante olhar para essa paciente além do diagnóstico e além do protocolo, porque ela não é só a doença”, frisa.
O que Daiane não diz é que, em muitos casos oncológicos, quem recebe o diagnóstico acaba perdendo parte da própria identidade e passa a ser enxergado apenas como “a pessoa com câncer”. Por isso, projetos como o “Elas por Elas” vão muito além de levar uma palavra de conforto a quem está em tratamento. Iniciativas como essa mostram que aquelas mulheres – e também homens – estão sendo vistas e que suas existências seguem sendo celebradas em vida.
Naquela manhã de março, Aelyta Mota percebeu que, para além de enxergar as pacientes, sua própria voz também foi ouvida e sentida por elas. A descoberta marcou a estudante do 8º ano da Escola Municipal Geraldo Veloso.
“Teve uma em especial. Quando eu comecei a falar de Deus, percebi que ela passou a prestar mais atenção. Quando eu disse que ela poderia ser curada pela fé no Senhor, ela respondeu “aleluia”. A forma como ela acredita é algo incrível”, maravilha-se a adolescente.
O projeto “Elas por Elas”, muito além de ensinar um gênero textual para as estudantes, é um exemplo de como celebrar, de maneira delicada, o Dia Internacional da Mulher. Não à toa, o esforço, a compaixão e o cuidado das estudantes na escrita das cartas chamam a atenção até mesmo de quem está distante do hospital.
É Silney Sales, diretor da Escola Geraldo Veloso, quem vê na iniciativa uma forma de fortalecer valores que vão além da sala de aula. Para ele, as cartas carregadas de afeto, carinho e esperança demonstraram a importância de cultivar empatia em tempos em que a atenção dos jovens está voltada para as telas de celular.
“Por isso precisamos nos reinventar, buscando estratégias que incentivem os estudantes a aprender, desenvolver suas habilidades e assumir protagonismo na construção do próprio conhecimento. Elas estão de parabéns.”
Mesmo em meio ao tratamento oncológico, há espaço para viver e reconhecer a beleza do momento presente. Entre cartas, gestos de afeto e palavras de esperança, aquelas mulheres foram lembradas de que ainda existem instantes que merecem ser acolhidos. Como escreveu Clarice Lispector em A Hora da Estrela, é preciso “não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”.
