Correio de Carajás

Caderno Proibido: a escrita como ferramenta de autoconhecimento

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

Minha agradável missão nesta coluna de hoje é apresentar a obra Caderno Proibido (1952), da escritora italiana Alba de Céspedes. Em 2025, após meu primeiro contato a ficção de Elena Ferrante, decidi mergulhar na literatura italiana. Foi então que conheci, de modo fortuito e feliz, Alba de Céspedes. Minha porta de entrada para a prosa dessa que é considerada uma das principais escritoras italianas do século XX foi o referido romance. Uma obra ambientada no pós-guerra, rica em camadas e nuances, que hoje será vista sob apenas um aspecto:  a escrita como ferramenta de autoconhecimento.

A personagem de Caderno Proibido, Valeria Cossati, é uma mulher de 43 anos, casada há 23 anos com Michele; tem dois filhos: Mirella e Riccardo; que começa a ressignificar sua vida a partir da compra clandestina de um caderno, no qual passa a registrar eventos do seu cotidiano: “Fiz mal em comprar em comprar este caderno, muito mal. Mas agora é tarde demais para lamentar, o estrago está feito. Nem sei o que me levou a adquiri-lo, foi por acaso. Nunca pensei em manter um diário, até porque sei que um diário deve permanecer secreto”. Aqui há uma dupla razão para o caderno ser proibido: forma de aquisição e o conteúdo que ele abriga, pois é nele que Valeria começa a questionar sua vida e registrar seus desejos mais íntimos.

É a partir deste fato – compra do caderno – algo inofensivo – que Valeria inaugura sua jornada de autoconhecimento pela escrita: “Minha vida sempre me pareceu meio insignificante, sem acontecimentos notáveis além do casamento e do nascimento das crianças. Mas desde que comecei a manter um diário, percebo que uma palavra, um tom, podem ser tão importantes (…). Aprender compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida”.

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Valeria começa a compreender a sua vida, refletindo sobre os papéis que desempenha como mãe, esposa e mulher que trabalha fora para contribuir nas despesas domésticas. Ao escrever sobre sua relação com os filhos e com o marido, um homem que a chama de mamãe, questiona sua identidade e percebe que não possui individualidade dentro da família. Além disso, constata que vive um autoabandono: Parece-se ter chegado a um ponto em que é necessário passar minha vida a limpo, como quem arruma uma gaveta na qual, por muito tempo, tudo foi sendo jogado de qualquer jeito.” Valeria não fazia nada só por si, mas apenas em função do marido e dos filhos: “Só agora, ao poder ficar sozinha para escrever me faz compreender que agora, pela primeira vez em vinte e três de casamento, dedico um pouco de tempo a mim mesma.”

Aquela mulher mergulha num estado de inquietação a partir da escrita. É escrevendo que Valeria percebe que ainda está viva: “tenho vontade de ficar quieta; se pudesse, permaneceria horas e horas deitada na cama, pensando mesmo em seguir um pensamento preciso. Gosto de me perder na certeza de estar viva”. A mulher que estava adormecida dentro de Valeria encontra uma forma de se expressar na e pela escrita. É registrando seu dia a dia e mantendo um diário que ela percebe que não tem um espaço físico que seja apenas seu, como uma gaveta com chave onde possa guardar seu diário. Assim, ela passa a querer, mesmo morando com o marido e filhos, resgatar sua individualidade.

Em Caderno Proibido, temos a escrita como sobrevivência. É escrevendo que Valeria volta a se ver, se olhar com carinho e gentileza. A partir da escrita diária, ela retorna à percepção de si mesma: “Tenho a impressão que alguma coisa mudou até em meu aspecto físico: estou rejuvenescida…. Ontem tranquei a porta do quarto e fui me olhar no espelho. Não fazia isso há muito tempo, estou sempre apressada. No entanto, agora consigo tempo para me ver no espelho, para escrever o diário, me pergunto como é que antes eu não conseguia.” É a escrita como autoconhecimento, como redescoberta de si.

Essa obra maravilhosa voltará a esta coluna em breve, pois é um livro que aborda de forma profunda e delicada diversos temas importantes, sobretudo, para nós mulheres. Temos maternidade, casamento, autoestima, conflito geracional. A sugestão de leitura de hoje é: Caderno Proibido (1952), de Alba de Céspedes. Até a próxima, caro leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.