📅 Publicado em 12/01/2026 15h40
Há 165 anos, em 12 de janeiro de 1861, a caderneta de poupança foi criada no Brasil com a fundação da Caixa Econômica da Corte, no Rio de Janeiro. A proposta era estimular o hábito da economia popular, permitindo que trabalhadores e pessoas de baixa renda guardassem pequenas quantias de forma segura. Ao longo de quase dois séculos, a prática foi adotada principalmente como forma de proteção diante de crises econômicas recorrentes e da instabilidade da renda de parte significativa da população.
Nos últimos anos, porém, esse cenário vem mudando. Dados do Banco Central indicam que os usuários desse sistema têm retirado mais dinheiro da poupança do que aplicado. Com isso, o hábito vem perdendo força de forma gradual entre os brasileiros.
A principal explicação para esse movimento está na rentabilidade limitada do produto, que se tornou menos atrativa diante de um ambiente de juros elevados e da ampliação da oferta de alternativas de investimento. Nesse contexto, modalidades financeiras mais rentáveis têm ganhado espaço em um cenário cada vez mais digital.
Leia mais:Podendo ser acessados pelo celular, criptomoedas, fundos imobiliários, aplicações atreladas ao CDI e o Tesouro Direto estão entre os novos destinos dos recursos que antes eram concentrados na poupança. Para especialistas, quem mantém sua reserva financeira em aplicações de baixo rendimento está perdendo dinheiro.
DADOS EXPLICADOS
Entre 2021 e 2024, a caderneta registrou quatro anos consecutivos de saída líquida de recursos. Em 2022, o volume de retiradas superou os depósitos em R$ 103,2 bilhões, o maior resultado negativo da série histórica. Em 2023, o saldo também ficou no vermelho, com saques líquidos de R$ 87,8 bilhões.
Já em 2024, embora em menor intensidade, a poupança voltou a registrar retirada líquida, estimada em R$ 15,4 bilhões. A tendência se manteve em 2025. Apenas no primeiro semestre, as retiradas superaram os depósitos em cerca de R$ 49,65 bilhões, e o acumulado do ano chegou a aproximadamente R$ 78,5 bilhões, segundo o Banco Central. Esse comportamento indica que a poupança segue presente na vida financeira de milhões de brasileiros, mas já não exerce o mesmo protagonismo.
Hoje, o quanto a poupança rende é definido por lei. Quando a taxa Selic, que é o principal juro da economia, fica abaixo de 8,5% ao ano, a poupança não acompanha esse valor integralmente e acaba rendendo menos. Em cenários de inflação mais elevada ou de juros reais baixos, esse modelo faz com que o rendimento fique próximo ou até abaixo da inflação, reduzindo o poder de compra do dinheiro ao longo do tempo.
Na prática, a poupança serve para guardar dinheiro por pouco tempo, mas não faz o patrimônio crescer. Por isso, especialistas em finanças costumam recomendar outras opções de investimento.
A comparação com outros produtos de renda fixa ajuda a entender esse direcionamento dos investidores. Aplicações como CDBs, Tesouro Direto, LCIs e LCAs costumam oferecer rendimentos superiores, por estarem diretamente vinculadas às taxas de mercado.
Em simulações, um aporte de R$ 1.000 em um CDB que rende 100% do CDI pode alcançar cerca de R$ 1.150 em um ano, enquanto o mesmo valor aplicado na poupança ficaria em torno de R$ 1.061 no mesmo período. Mesmo com a incidência de imposto de renda em parte dessas aplicações, o retorno final tende a ser mais elevado.
Apesar disso, a poupança ainda concentra um grande número de usuários. Estimativas indicam que cerca de 32 milhões de brasileiros aplicam exclusivamente nesse tipo de produto. A preferência está associada a fatores como simplicidade, liquidez imediata, isenção de imposto de renda e a percepção de segurança, reforçada pela garantia do Fundo Garantidor de Créditos para valores de até R$ 250 mil por instituição.
PEGADA HISTORICA
Ao longo do século 19, a poupança foi utilizada inclusive por pessoas escravizadas que buscavam acumular recursos para a compra da própria alforria. Com o passar do tempo, tornou-se um dos principais instrumentos de formação de poupança no país.
Durante grande parte do século 20, a caderneta manteve rendimentos fixos considerados atrativos e consolidou-se como símbolo de estabilidade financeira. A ausência de tributação, a facilidade de acesso e a previsibilidade do retorno reforçaram sua popularidade. No entanto, mudanças nas regras de remuneração, aliadas à evolução do sistema financeiro, reduziram sua competitividade.
O desuso gradual da caderneta não indica o fim do produto, mas sinaliza uma mudança no papel que ela ocupa. De instrumento central de formação de patrimônio, a poupança passa a ser vista, cada vez mais, como uma reserva de curto prazo, enquanto outros investimentos assumem a função de gerar crescimento financeiro. O movimento reflete não apenas alterações nas condições econômicas, mas também uma transformação na forma como os brasileiros lidam com o próprio dinheiro.
