📅 Publicado em 09/01/2026 17h34✏️ Atualizado em 09/01/2026 17h35
Uma operação de alta complexidade, que mobilizou diversas esferas da Polícia Militar do Pará por quase 48 horas, chegou ao fim na tarde da última sexta-feira (9), em Xinguara, no sul do Pará. O Batalhão de Missões Especiais (BME) de Marabá, tropa de elite da região, foi o ator central no desfecho de um evento crítico envolvendo um médico que se encontrava em surto, armado e isolado dentro de sua residência. A ação, marcada por tensão e estratégia, culminou com o resgate do homem com vida e seu encaminhamento para cuidados médicos.
A crise, que manteve em alerta o bairro Jardim Tropical, teve seu desfecho por volta das 16h30 de sexta-feira, quando as equipes táticas finalmente conseguiram acessar o interior do imóvel e controlar o médico. Ele foi encontrado trancado em um dos quartos da casa, localizada na Rua 6.
Após a contenção segura, uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionada e prestou os primeiros socorros, conduzindo-o para uma unidade de saúde para receber o acompanhamento psiquiátrico necessário. O sucesso da operação, que priorizou a preservação da vida, foi resultado de um meticuloso trabalho de gerenciamento de crise.
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Tudo começou no final da tarde de quarta-feira (7), por volta das 17 horas. Familiares do homem, preocupados com seu isolamento que já durava entre dois e três dias, tentaram um contato na residência. Foram recebidos com disparos de arma de fogo efetuados de dentro do imóvel, um sinal claro da gravidade da situação. O ato impensado, mas que felizmente não feriu ninguém, levou os parentes a procurar ajuda da Polícia Militar.
O primeiro a responder ao chamado foi o Capitão Castro, subcomandante do 17º Batalhão da PM de Xinguara (17º BPM). Ao chegar ao local e constatar o perigo iminente, ele imediatamente classificou a ocorrência como um “evento crítico”, acionando os protocolos de segurança previstos para situações dessa natureza. A primeira medida foi determinar a contenção e o isolamento completo do perímetro, garantindo a segurança de vizinhos e curiosos.
Em entrevista, o coronel PM Marcos Formigosa, comandante do Comando de Policiamento Regional XIII (CPR XIII), detalhou os passos seguintes. “De imediato, eu pedi para ele deslocar até o local para ver se de fato era um evento crítico e, se fosse, para ele me avisar. E, quando ele deslocou para cá, ele constatou. De imediato, foi dado ordem para ele fazer a contenção da área do evento crítico”, explicou o coronel.
Forças Especiais
Confirmada a complexidade do caso, a estrutura de comando da Polícia Militar foi rapidamente acionada. O coronel Formigosa comunicou-se com o Departamento Geral de Operações (DGO), sob o comando do Coronel Mariúba, que, por sua vez, reportou ao Comandante Geral da corporação. A resposta foi imediata: a ordem era para que as tropas especializadas mais próximas fossem deslocadas.
O Batalhão de Missões Especiais (BME) de Marabá, unidade de referência para operações de alto risco na região, foi prontamente acionado. Simultaneamente, a Companhia Independente de Missões Especiais (CIME) de Xinguara também foi mobilizada para dar suporte.
O próprio coronel da PM se deslocou de Redenção para Xinguara ainda na noite de quarta-feira, chegando por volta das 22h para supervisionar pessoalmente as ações.
Durante a madrugada de quinta-feira, a tensão aumentou. As equipes táticas tentaram estabelecer algum tipo de comunicação com o médico, sem sucesso. Havia um temor de que o pior pudesse ter acontecido, pois não havia qualquer sinal de vida vindo da casa desde as 16h do dia anterior.
Para verificar se o homem ainda estava vivo e responsivo, por volta das 3h da manhã, a equipe utilizou um recurso tático: o lançamento de uma granada de luz e som. A explosão controlada gerou a reação esperada: um disparo de arma de fogo foi efetuado de dentro da casa para o alto, confirmando que o médico estava vivo e armado. Após essa confirmação, as ações foram temporariamente suspensas para reavaliação estratégica ao amanhecer.
Avanço Tático
Com a complexidade do cenário, o comando da PM em Belém enviou reforços de peso. Uma equipe do Comando de Ações Táticas (CAT), a mais alta unidade de operações especiais do estado, foi deslocada para Xinguara, trazendo consigo negociadores especializados. A coordenação da equipe de negociação ficou a cargo do Capitão Soares, enquanto a parte tática era liderada pelo major Teixeira, líder do BME.
Na manhã de sexta-feira, as tentativas de contato foram retomadas, desta vez com o uso de megafones, mas novamente sem resposta. A ausência de diálogo e a necessidade de uma aproximação mais segura levaram a uma decisão drástica por volta das 10h: o portão da residência foi arrancado com o uso de uma caminhonete e cordas.
“Nós arrancamos o portão da casa para poder nos aproximarmos mais, para tentar viabilizar contato verbal com ele, também de megafone. Até agora isso não foi possível”, relatou o Coronel Formigosa na ocasião.
Apesar da remoção do portão, a ordem era de cautela máxima. A invasão tática não era a primeira opção. As equipes mantiveram o cerco durante toda a quinta-feira e a manhã de sexta, utilizando a aproximação para observar a movimentação interna e planejar os próximos passos do protocolo de gerenciamento de crise, sempre aguardando as orientações do comando superior.
Finalmente, na tarde de sexta-feira, após quase dois dias de cerco, a equipe tática encontrou a janela de oportunidade necessária para intervir. A ação foi executada com precisão, resultando na contenção do médico sem ferimentos para nenhuma das partes e encerrando um dos eventos de crise mais longos e delicados já registrados na região.
Embora tenha conseguido acesso ao nome do homem, o Correio de Carajás optou por não divulgar, por se tratar de uma situação de ordem psicológica e que obviamente deverá ser tratada pela ótica da área de saúde.
