📅 Publicado em 07/05/2026 08h54✏️ Atualizado em 07/05/2026 09h35
O sudeste paraense já conviveu com cenas que lembravam verdadeiros conflitos de guerra armada. Eram frequentes as notícias de ataques a carros-fortes e agências bancárias, surpreendidas por grupos criminosos que articulavam ações ousadas, muitas vezes em pleno perímetro urbano.
Dados da Divisão de Repressão e Combate ao Crime Organizado (DRCO), da Polícia Civil, mostram que o Pará registrou centenas desses casos, com maior incidência entre 2016 e 2023 – ano do último grande assalto. Só nas regionais de Marabá, Redenção e Paragominas, foram contabilizadas 23 ocorrências de “novo cangaço” e investidas contra carros-fortes, espalhadas por pelo menos 16 municípios.
O delegado Fausto Bulcão, que atuou por seis anos na DRCO acompanhando esse tipo de crime e hoje integra a Delegacia de Combate à Corrupção (Decor), explica que a escalada começou ainda nos anos 2000, impulsionada por fatores como a grande extensão territorial do estado, dificuldades logísticas e o alto fluxo financeiro ligado ao agronegócio e à mineração. Segundo ele, entre 2000 e 2010, grupos criminosos oriundos principalmente do Ceará e de Pernambuco passaram a se estabelecer no Pará, com forte presença nas regiões de Marabá e Redenção. O ápice, no entanto, ocorreu entre 2016 e 2023.
Leia mais:
A partir de 2019, esse cenário começou a mudar. “Houve uma redução significativa com a reestruturação dos órgãos de segurança e a atuação integrada das forças policiais”, destaca Bulcão. Os números refletem essa virada: em 2018 foram registradas 24 ações; em 2019, apenas duas; em 2020, três; em 2021, nenhuma ocorrência; em 2022, cinco; e, em 2023, apenas um caso.
Em busca de compreender os fatores por trás da queda nos ataques e os impactos dessas mudanças na dinâmica criminosa, o Correio de Carajás recorreu a outras fontes oficiais para analisar como esses grupos têm se reorganizado.
DESCENTRALIZAÇÃO DAS FORÇAS POLICIAIS
Tomando como marco o ataque à base da Prosegur, em 2016, em Marabá, ficou evidente a fragilidade das forças de segurança diante de ações desse tipo à época. Embora os valores não tenham sido oficialmente divulgados, o caso é considerado o maior já registrado no município. Cerca de um ano depois, a empresa voltou a ser alvo, quando mais de R$1 milhão foram furtados de um carro-forte estacionado em um prédio na Cidade Nova.
Naquele período, episódios semelhantes se repetiram em outras cidades da região, muitas vezes com alto grau de violência e organização. Em Rondon do Pará, em 2019, um grupo de aproximadamente 15 a 20 assaltantes invadiu o município, atacou a tiros a delegacia da Polícia Civil e o quartel da Polícia Militar, com o objetivo de impedir a reação policial enquanto explodiam agências bancárias. Já em 2022, um assalto a carro-forte espalhou pânico entre moradores do KM-45 da BR-155, entre Marabá e Eldorado dos Carajás. Pelo menos dez criminosos participaram da ação, que mobilizou equipes especializadas da Polícia Civil.
Apesar do histórico, o cenário atual é outro. De acordo com o superintendente regional da Polícia Civil em Marabá, delegado Antônio Mororó, a redução desse tipo de crime está diretamente ligada ao avanço da inteligência policial e, principalmente, à descentralização das forças de segurança.

Segundo ele, regiões que antes eram consideradas vulneráveis passaram a contar com presença efetiva do estado. Um exemplo é o núcleo Cidade Nova, que hoje dispõe de unidades como o 34º Batalhão da Polícia Militar e o Batalhão Rural, ampliando a capacidade de resposta em áreas que antes eram desguarnecidas.
Outro fator decisivo foi o fortalecimento de unidades especializadas, como a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core) e o atual Batalhão de Missões Especiais da Polícia Militar passaram a atuar de forma mais próxima da região, elevando o nível de enfrentamento a ocorrências de média e alta complexidade.
Ele destaca que, anteriormente, equipes especializadas estavam concentradas na capital, o que dificultava a reação em cidades do interior. Hoje, com bases operacionais mais próximas – incluindo o apoio do grupamento aéreo em Marabá –, o atendimento às ocorrências se tornou mais ágil e eficiente.
“Quando você precisa sair de Belém para atender uma ocorrência em cidades como Redenção ou São Félix do Xingu, o tempo de resposta fica comprometido. Com essa estrutura descentralizada, conseguimos agir com muito mais rapidez”, completa.
MUDANÇA NA DINÂMICA CRIMINOSA
O superintendente explica ainda que os ataques a bancos e carros-fortes seguiam um padrão bem definido, conhecido nacionalmente como “vapor” – uma modalidade altamente organizada e violenta. Segundo ele, a estratégia consistia na tomada de cidades do interior com menor presença policial, planejavam o ataque e sitiavam a cidade.
A ação era dividida minuciosamente em etapas. Enquanto parte dos criminosos se deslocava até delegacias e quartéis da Polícia Militar, efetuando disparos para impedir a saída dos policiais, outro grupo assumia o controle das ruas, exibindo armamento de grosso calibre, enquanto uma terceira equipe invadia as agências bancárias para realizar explosões e subtrair valores.
Ao ser questionado sobre possíveis mudanças nesse tipo de crime, Mororó avalia que não houve exatamente uma transformação na modalidade, mas sim uma adaptação do cenário criminal.
“O crime não deixou de existir, mas a dinâmica social mudou. Hoje vivemos uma realidade muito mais digital, e isso impacta diretamente esse tipo de ocorrência”, afirma.
Ele destaca que, embora crimes virtuais tenham crescido nos últimos anos, não é possível afirmar que houve uma migração direta de assaltantes de banco para esse tipo de prática. “São crimes que exigem perfis e habilidades diferentes. O que existe é uma evolução natural do crime acompanhando a sociedade, que hoje está cada vez mais conectada”. Outro fator relevante, segundo o delegado, é a redução da circulação de dinheiro em espécie e a diminuição do número de carros-fortes nas ruas, reflexo direto da digitalização dos serviços financeiros.
Para o delegado, o que se observa atualmente é um intervalo prolongado sem grandes ataques, resultado direto da atuação mais eficiente das forças de segurança. Além disso, o alto custo operacional desses crimes, que envolve armamento pesado, logística complexa e grande número de participantes, também passou a pesar na decisão das organizações criminosas. “Quando o risco é alto e o retorno deixa de ser garantido, a atividade se torna pouco atrativa. E isso, somado ao rigor das investigações e das punições, contribui para afastar esses grupos”.
Carros-fortes “desaparecem” das ruas com digitalização do dinheiro
A queda no número de ataques a bancos e carros-fortes também acompanha uma mudança silenciosa, que é a forma como o dinheiro circula. Impulsionada pela pandemia de Covid-19 e pela popularização do PIX, a presença de cédulas nas agências diminuiu e com ela, a necessidade de transporte de valores.
De acordo com a diretora do Sindicato dos Bancários subsede Marabá, Heidiany Moreno, a digitalização alterou diretamente a rotina do setor. “Diminuiu o volume de cédulas e, também, as transações nos caixas humanos. As pessoas não vão mais com tanta frequência às agências, elas fazem pagamentos e transferências pelo celular”, explica.

Esse novo comportamento impactou toda a cadeia bancária, pois com menos dinheiro físico circulando, a demanda por carros-fortes caiu de forma significativa, ainda que não tenha desaparecido. “A gente diminuiu a demanda, mas ela não foi totalmente cessada. O carro-forte ainda é utilizado, só que bem menos. É uma mudança gradual, não acontece de uma hora para outra”.
A transformação também refletiu na estrutura das agências. Com menos movimentação, bancos passaram a operar com equipes mais enxutas, reduzindo o número de vigilantes, caixas presenciais e até dispositivos de segurança mais ostensivos, que outrora seria algo inimaginável.
“O crime não acabou, ele se adaptou. Hoje a gente vê muito mais golpes e fraudes pela internet. As pessoas precisam ter cuidado com links, ligações e mensagens, porque é assim que esses crimes acontecem agora”, alerta.

SindBancários e os grandes assaltos
Durante o período mais crítico, marcado por ataques violentos, o sindicato atuava diretamente no apoio aos trabalhadores afetados. A entidade acompanhava as vítimas, auxiliava no registro de ocorrências e encaminhava bancários para atendimento psicológico. “Era um impacto muito grande. A gente tinha casos de profissionais que não conseguiam voltar ao trabalho por causa do trauma”, relembra.
Segundo Heidiany, houve situações extremas, com reféns, violência e forte abalo emocional. Em alguns casos, o retorno às atividades levou anos, e além dos trabalhadores, os efeitos atingiam cidades inteiras. Em municípios menores, ataques sucessivos chegaram a colocar em risco o funcionamento de agências, exigindo mobilização política para manter serviços essenciais. “Não é só um crime pontual. Ele afeta a economia local, o acesso da população ao banco e a vida de todo mundo que depende daquele serviço”, conclui.
Vigilantes apontam queda de 40% na Prosegur e Saga
A fiscalização das empresas responsáveis pelo transporte de valores é atribuição da Polícia Federal. Em nota enviada ao Correio de Carajás, o responsável pelo setor de controle e fiscalização de segurança privada na Delegacia da PF em Marabá, Marcelo Gomes de Deus, explicou que essas empresas só podem atuar mediante autorização prévia e são submetidas a monitoramento permanente, seguindo normas como o Estatuto da Segurança Privada (Lei nº 14.967/2024) e regulamentações internas da corporação.
Segundo a PF, o transporte de valores é uma atividade especializada dentro do setor de segurança privada, envolvendo o deslocamento, guarda e custódia temporária de numerário e outros bens, com uso de veículos blindados e vigilantes habilitados. A autorização para funcionamento é temporária, exige estrutura rigorosa – como capital mínimo elevado, instalações seguras e equipes qualificadas – e passa por revisões periódicas. Ainda de acordo com a nota, a demanda por esse tipo de serviço vem sendo impactada por mudanças no sistema financeiro, como a popularização do PIX, a expansão dos bancos digitais e a redução do volume de dinheiro mantido em agências.
Em Marabá, atualmente, duas empresas se concentram pelo destaque nesse serviço: Prosegur e Saga. Procuradas pela reportagem para comentar as novas dinâmicas do setor e os protocolos de segurança, as assessorias não se manifestaram. A Prosegur chegou a encaminhar contatos, mas não houve retorno efetivo.

A reportagem também ouviu vigilantes e ex-vigilantes que atuaram em empresas do segmento já encerradas no município, para ouvir experiências e compreender o cotidiano de quem trabalha, de certa forma, com um risco iminente. Sob condição de anonimato, eles relataram que, com o fechamento das operações, profissionais foram remanejados para outras cidades, sem desligamentos em massa.
Todos eles reconhecem que houve queda brusca no número de carros-fortes e de agentes atuando neste segmento na cidade.
Um deles, que ainda trabalha na Prosegur, agora em Parauapebas, reconhece que diminuiu sobremaneira o número de carros-fortes em Marabá, da ordem de 40% em relação ao que havia até 2018. “Muitos foram demitidos, mas uma boa parte, como eu, está trabalhando em outras cidades”, diz ele.
