O sorriso de Ronaldo esconde que um dia comeu lama, foi levado para um abrigo com os irmãos e saiu de lá para mudar os rumos de sua história/ Fotos: Ulisses Pompeu
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Quem vê Ronaldo Gomes de Araújo como empacotador do Supermercado Colinas, na Folha 29, não imagina que por trás daquele rapaz de 18 anos de idade há uma história surpreendente de superação e muitos desafios ainda pela frente.

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Aos cinco de idade, ele e dois irmãos mais velhos foram retirados da companhia dos pais e levados para um abrigo público porque a mãe era doente mental e o pai idoso demais para cuidar deles. Eles moravam em um casebre na Folha 6, Nova Marabá, quando os vizinhos resolveram denunciar o caso às autoridades competentes.

“Eu tinha uma doença grave e por conta disso vivia comendo lama, no chão. Meus pais não conseguiam continuar nossa criação e acabamos no abrigo. Fiquei lá por 12 anos e só sai aos 17 de idade, quando provei ao juiz da Infância que eu estava trabalhando e poderia cuidar de meus irmãos”, conta o jovem, com lágrimas nos olhos.

A entrevista com Ronaldo aconteceu na tarde desta segunda-feira, 12, logo depois de ele ser apresentado aos novos alunos do curso Qualifica 2, que a Obra Kolping do Brasil oferecerá neste semestre para 240 adolescentes e jovens da cidade.

Ronaldo Araújo é apresentado pela diretora da Obra Kolping, Andreia, como exemplo de superação

Um dia, os vizinhos denunciaram o descaso com as crianças para a Secretaria de Assistência Social. Uma mulher, que morava perto, levou Ronaldo para sua casa, lhe deu comida, mas percebeu que seu nariz sangrava bastante. Chamou um conselheiro tutelar e os três meninos foram direito para o Espaço de Abrigo Provisório. “Lá eu fui bem cuidado com meus irmãos. Ninguém nunca quis saber de adotar a gente”, recorda.

Com ajuda de funcionários do Ministério Público, os médicos descobriram que o pequeno Ronaldo tinha uma doença chamada púrpura trombocitopênica idiopática (PTI). Em outras palavras, é um distúrbio autoimune marcado pelo ataque das próprias defesas às plaquetas, células responsáveis pela coagulação do sangue. “Fui levado para Belém, fiz tratamento, tomei sangue e fiquei curado”.

Para Ronaldo, o ponto de virada de sua vida foi na Obra Kolping, onde ele foi bem recebido e aproveitou a chance e fez cursos de informática, mecânica, administração e agora cursa almoxarifado. Mesmo como jovem aprendiz na Colina – onde ele se sente muito bem – ele continua estudando na CEEJA, um curso de aceleração do ensino fundamental. “Eu perdi muito tempo durante o tratamento de saúde, mas não desisto dos estudos”.

O irmão mais velho de Ronaldo tem 26 anos de idade, é altista e o do meio, de 22, fica praticamente 24 horas do dia cuidando dele, em casa. Com isso, o embalador de compras da Colina é o único provedor em casa e se orgulha de cuidar dos irmãos. “Eu tenho uma missão e vou cumprir. Quero cuidar deles e vou conseguir”.

SONHOS

Ronaldo tem dois sonhos bem definidos em sua cabeça. Quer estudar medicina para ajudar a dar melhor qualidade de vida para o irmão mais velho, autista.

Além disso, pretende continuar trabalhando para construir a casa que herdaram dos pais, que é de madeira e está em condições sofríveis na folha 6, onde moram. “Eu vejo muitos jovens que têm melhores condições de vida do que a gente e não valorizam, não querem estudar e nem trabalhar”, lamenta. 

TEM NAMORADA?

A pergunta acima foi feita para Ronaldo, que disse nunca ter namorado, embora tenha vontade. Ele lembra que sua rotina consome muito tempo, mas espera um dia encontrar o amor de sua vida. “Vai chegar a hora certa”, justifica, com sorriso discreto.

Projeto Qualifica pretende atender mais 220 jovens

Na tarde desta segunda-feira, 12, o Centro Profissionalizante “Pedro Arrupe” da Obra Kolping do Brasil fez uma recepção calorosa para os 240 alunos matriculados em um dos oito cursos oferecidos pela entidade para este segundo semestre.

Uma cerimônia com cerca de 300 pessoas – entre alunos e familiares – marcou a segunda etapa do Qualifica, um projeto que recebe apoio do Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho e Prefeitura de Marabá.

Andreia Rodrigues Moura, diretora da entidade há mais de 20 anos, celebra este novo momento e diz que a entidade tem se mantido graças aos esforço de parceiros. Ela exaltou o comprometimento dos educadores e conclamou os alunos a se dedicarem nas aulas para alcançarem êxito durante o curso em que foram matriculados. “Muitas empresas nos procuram para absorver mão de obra qualificada, por meio do projeto Menor Aprendiz. Mas temos de oferecer o melhor”, sustentou.

Ela ressalta que os cursos se dividem em duas grandes áreas: indústria e administrativa e que a procura é muito grande, sempre ficando gente numa lista de espera. “Temos ainda outro projeto em parceria com o MPT que alcança jovens de Bom Jesus do Tocantins, que vêm para cá se qualificar. Também temos uma parceria mais recente com uma empresa privada para qualificação de 25 alunos na área administrativa”, conta, sempre motivada com o trabalho desenvolvido na entidade.

Os cursos oferecidos pela Obra Kolping têm duração entre cinco a seis meses e, ao final, os nomes dos jovens qualificados vão para um banco de dados e muitos são chamados pelas empresas para o primeiro emprego. “Mais de 30 mil jovens passaram por essa instituição e pelo menos 70% ingressaram no mercado de trabalho”, orgulha-se.

Atualmente, a Prefeitura ajuda com camisetas e uniformes dos alunos, limpeza e ainda com profissionais para realizar acompanhamento psicológico dos estudantes. “Estamos felizes com o convênio que a atual gestão está mantendo com nossa instituição e queremos manter”.

Secretário Orlando Morais conclama os jovens a fazerem o seu melhor no cursos da Kolping

Orlando Morais, secretário adjunto de Educação, participou da aula inaugural do Qualifica e disse que seu sonho, quando adolescente, era estudar na Obra Kolping. Ele motivou os presentes a se dedicarem ao máximo ao curso e valorizarem o esforço de seus pais e educadores e, ao mesmo tempo, garantirem um futuro melhor para eles mesmos e para a família que vão constituir.

Auxiliar administrativo, auxiliar de almoxarifado, informática básica, informática avançada, mecânica, eletricidade e auxiliar de contabilidade. “Esse é um lugar de desafios, mas também de oportunidades. Espero que vocês honrem os nomes dos pais de vocês e cheguem o mais rápido possível no mercado de trabalho”, disse.

O bispo Dom Vital Corbelini, que também prestigiou o evento, levou uma mensagem de esperança e conforto para os alunos e pais presentes. Ele reconheceu a importância da Obra Kolping para a juventude e também desejou um futuro de prosperidade a partir do conhecimento que os alunos terão ao participarem dos cursos oferecidos pela entidade. (Ulisses Pompeu)

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