Correio de Carajás

Arrastão do Amor transforma o São João em palco para falar de respeito

No 39º Festejo Junino de Marabá, a quadrilha encantou o público ao levar à arena um personagem muito especial

Casal de dançarinos de quadrilha junina vestidos de branco em apresentação
A junina assume a liderança parcial entre as finalistas da edição deste ano do Festejo /Foto: Cristofer Bino
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 27/06/2026 09h58

Quando a matraca chama e o couro do boi começa a ecoar pela arena, o público já sabe que não verá apenas passos marcados ou um casamento matuto. No São João de Marabá, cada quadrilha leva consigo um pedaço da memória popular, costurado nas fitas coloridas, chapéus de palha e promessas feitas ao santo. Mas, de vez em quando, uma história atravessa o terreiro com outro propósito: lembrar que a tradição também pode abrir espaço para novas vozes.

Foi esse o caminho escolhido pela Junina Arrastão do Amor no 39º Festejo Junino de Marabá. Atual campeã municipal, a quadrilha entrou na arena com o espetáculo “Barrica: Teu Cordão Tem as Cores do São João”, uma narrativa inspirada no universo do Bumba Meu Boi que encontra na inclusão sua principal bandeira. Em vez de apenas revisitar um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira, o grupo decidiu fazer do arraial um espaço de diálogo sobre o autismo, sem abandonar a poesia, a religiosidade e a força que fazem do ciclo junino uma das manifestações culturais mais vivas do país.

No enredo, Barrica é um jovem autista que encontra no boizinho de brinquedo e na dança do Bumba Meu Boi a forma mais sincera de existir. Apaixonado desde a infância por Tainá Racan, chamada por ele de Estrela Dalva, enfrenta o preconceito do pai da jovem até que a fé em São João conduz a história para um desfecho de acolhimento. O milagre, porém, não está em mudar quem Barrica é. Está justamente no contrário: mostrar que ele nunca precisou ser diferente para ser amado.

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A escolha do tema nasceu do desejo de ir além de uma apresentação sobre o Bumba Meu Boi. Para o projetista da Arrastão do Amor, Bruno Araújo, era preciso aproveitar a visibilidade que o São João oferece para colocar uma pauta social diante de milhares de pessoas.

“A gente já vinha com a ideia de trabalhar sobre o Bumba Meu Boi, que é um dos nossos temas. Então pensamos em incluir uma causa social dentro dessa história para não ser só mais uma quadrilha falando sobre o boi. A arena reúne milhares de pessoas e a gente se perguntou: por que não aproveitar esse espaço para dar visibilidade a quem luta todos os dias para mostrar quem é, do que precisa e que também é capaz? A cultura popular tem esse alcance enorme, então unimos o útil ao agradável: contar uma história bonita do Bumba Meu Boi enquanto levamos uma mensagem que continua necessária”.

No terreiro, tradição e inclusão caminham de mãos dadas. A sonoridade, o colorido dos cordões, os giros do casal de noivos e o bailado do boi permanecem presentes, mas agora dividem espaço com uma discussão que ultrapassa os limites da festa. O preconceito aparece como antagonista da narrativa, enquanto o respeito ocupa o centro da cena.

Segundo Bruno, essa foi justamente a principal preocupação durante toda a construção do espetáculo. Sem experiência direta sobre o tema, a equipe decidiu ouvir quem vive essa realidade diariamente antes mesmo de iniciar os ensaios. “A gente não tem lugar de fala. Por isso procuramos mães atípicas, famílias atípicas, pessoas que vivem essa realidade para ajudar na construção da história. O nosso maior cuidado era não transformar essa representação em algo caricatural ou pejorativo. Existe teatro dentro da quadrilha, mas o ator precisava representar aquele personagem da forma mais natural possível. A gente queria levar respeito, não criar uma caricatura. Apesar de acontecer dentro de um arraial, essa continua sendo uma pauta séria e precisava ser tratada com toda responsabilidade”.

Bruno Araújo: “Somos todos quadrilheiros, não bailarinos profissionais, mas estudamos e planejamos cada desenho antes de colocá-lo na quadra”

Esse cuidado se refletiu também na recepção do público. Antes mesmo da competição terminar, as redes sociais da quadrilha começaram a receber mensagens de mães que reconheceram características de seus próprios filhos no personagem Barrica. Pequenos gestos inseridos na dramaturgia, como o apego ao boizinho – tratado como objeto de hiperfoco – acabaram criando uma identificação inesperada para muitas famílias.

A própria evolução artística da Arrastão do Amor contribuiu para que essa mensagem ganhasse ainda mais impacto. Nos últimos anos, a quadrilha passou a investir em pesquisa, planejamento coreográfico e construção teatral, fruto das experiências acumuladas em festivais estaduais e nacionais. Nada surge por acaso. Cada movimento, cada desenho coreográfico e cada cena passam antes pelo papel, pela discussão da equipe e pelos ensaios até chegar à arena.

“Nós somos artistas e construímos um espetáculo. Acho que é quase uma missão não trazer apenas a cultura popular, mas incluir causas sociais dentro dela. Esse crescimento da Arrastão vem muito das vivências que tivemos competindo em festivais grandes e também da organização da equipe. Hoje cada pessoa tem sua função, cada setor desenvolve sua parte e tudo se encontra na arena. A coreografia também amadureceu muito. Quando todas essas partes se unem, a história consegue chegar mais forte até quem está assistindo.”

O resultado apareceu também na competição. A apresentação garantiu à Arrastão do Amor a liderança na classificação parcial do Festejo, mostrando que ousar também pode encontrar reconhecimento técnico. Além das notas, a quadrilha parece ter conquistado algo difícil de medir em planilhas: o sentimento de quem finalmente se viu representado dentro de uma arena de São João.

Porque, no fim das contas, o São João sempre foi sobre comunidade. Sobre pessoas diferentes que se reúnem ao redor da mesma fogueira, dividem o mesmo terreiro e seguem o mesmo compasso. E talvez seja exatamente essa a maior mensagem de “Barrica: Teu Cordão Tem as Cores do São João”: entre o som da matraca, o giro das saias e a dança do boi, sempre existe espaço para mais um cordão. Afinal, uma festa popular só fica completa quando todos podem brincar dela.