Correio de Carajás

Apagão de quase três horas expõe fragilidade da rede

Falha em linha de transmissão causa apagão no Pará e no Mato Grosso e acende alerta sobre segurança do Sistema Interligado Nacional

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Por: Da Redação

Duas ocorrências na linha de transmissão Salto Paraíso–Alta Floresta, de 138 quilovolts (kV), provocaram interrupções severas no fornecimento de energia elétrica em cidades do Pará e do Mato Grosso na noite de sábado (1º). No episódio mais grave, a queda de carga chegou a 516 megawatts (MW), segundo informações do Informe Preliminar de Interrupção de Energia no Sistema Interligado Nacional (Ipie), elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O fornecimento só foi completamente restabelecido durante a madrugada de domingo (2), gerando transtornos significativos para a população e o comércio local.

A primeira ocorrência foi registrada às 21h15, quando houve o desligamento automático da linha de transmissão. O problema interrompeu 124 MW de cargas atendidas pela rede de distribuição da Energisa Mato Grosso. O fornecimento foi totalmente restabelecido às 21h28, apenas 13 minutos depois. A situação parecia controlada, mas a tranquilidade durou pouco.

Leia mais:

Às 23h05, a mesma linha voltou a desligar automaticamente, provocando inicialmente a interrupção de 229 MW de cargas da Energisa Mato Grosso. O evento desencadeou desligamentos em cascata de outros equipamentos do sistema de transmissão, acrescentando 265 MW de cargas interrompidas em Mato Grosso e 22 MW no Pará. Às 23h15, dez minutos depois do início da ocorrência, a interrupção total havia alcançado a marca crítica de 516 MW.

Foram afetados equipamentos operados pela Axia Energia Norte e pela Empresa Brasileira de Transmissão de Energia (EBTE). O impacto foi sentido de forma severa em polos importantes do agronegócio e da economia regional, incluindo instalações em Sinop, Lucas do Rio Verde, Sorriso, Nova Mutum, Alta Floresta, Santa Carmem, Tapurah, Itanhangá, Ipiranga do Norte, Matupá, Peixoto de Azevedo, Guarantã do Norte, Colíder e Marcelândia. Nas redes sociais, moradores compartilharam vídeos das ruas iluminadas apenas pelos faróis dos veículos, relatando prejuízos e insegurança.

A recomposição do sistema começou às 23h24. À 0h15 de domingo, 413 MW já haviam sido restabelecidos em Mato Grosso, mas 81 MW ligados à subestação de Lucas do Rio Verde permaneciam interrompidos. No Pará, o fornecimento foi totalmente recomposto à 1h29. Em Mato Grosso, a normalização foi concluída às 2h03, quase três horas depois do início da ocorrência. Um equipamento da subestação de Sinop permaneceu indisponível mesmo após o fim do apagão, exigindo manutenção contínua.

Em nota, a Energisa informou que o fornecimento está normalizado em todas as regiões afetadas. A concessionária afirmou que manteve equipes mobilizadas e acompanhou o processo de restabelecimento em contato direto com o ONS. A Energisa ressaltou que a ocorrência envolveu uma linha sob responsabilidade de uma empresa transmissora e que sua própria rede de distribuição permaneceu íntegra durante todo o episódio. A Equatorial Pará e a Axia Energia foram procuradas, mas não responderam até o fechamento desta reportagem. A causa exata dos desligamentos ainda não foi identificada e segue sob investigação técnica.

Sistema Interligado Nacional

O apagão deste fim de semana lança luz sobre o funcionamento do Sistema Interligado Nacional (SIN) e a fragilidade das linhas de transmissão. O SIN é uma malha complexa que conecta praticamente todo o país, permitindo que a energia gerada em uma região seja consumida em outra. A lógica do sistema é garantir segurança energética e otimizar o uso das fontes de geração, como hidrelétricas, parques eólicos e usinas solares.

A transmissão de energia funciona como as grandes rodovias do sistema elétrico. As linhas de alta tensão transportam a energia produzida nas usinas até as subestações espalhadas pelo país. Somente depois de passar por essas subestações é que a energia entra na rede de distribuição, operada pelas concessionárias locais, que têm o papel de levá-la até as casas, empresas e propriedades rurais.

Quando uma linha de transmissão apresenta falha, as subestações deixam de receber energia. A distribuidora fica temporariamente sem o produto que entrega aos consumidores, mesmo que toda a sua rede de postes e transformadores urbanos esteja funcionando perfeitamente. Foi exatamente esse o cenário registrado na noite de sábado no norte de Mato Grosso e no Pará. A interrupção ocorreu em uma estrutura de transmissão, o que fez com que diversos municípios fossem afetados simultaneamente, criando um efeito dominó de desabastecimento.

A sucessora da Eletronorte

O envolvimento da Axia Energia Norte na ocorrência chama a atenção para o recente processo de reestruturação do setor elétrico brasileiro. A Axia é a nova marca da antiga Eletrobras, que passou por um processo de privatização concluído em 2022. A mudança de nome e identidade visual, o chamado rebranding, foi anunciada em outubro de 2025 como um movimento de transformação da companhia para responder a um setor em transição.

A Axia Energia Norte, especificamente, é a sucessora direta da Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A, a histórica Eletronorte. Criada em 1973 para explorar o potencial hidrelétrico da Região Amazônica, a Eletronorte foi responsável por obras monumentais, como a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, e por integrar a região Norte ao resto do país.

Com a privatização, a empresa agora opera sob a lógica do mercado privado, mantendo a responsabilidade sobre milhares de quilômetros de linhas de transmissão e dezenas de usinas. A Axia é a maior empresa de energia renovável do Hemisfério Sul, respondendo por 17% da capacidade de geração nacional e 37% do total de linhas de transmissão do SIN.

Apesar dos investimentos anunciados pela nova gestão privada, incidentes como o deste fim de semana mostram que a infraestrutura de transmissão ainda enfrenta gargalos significativos, especialmente em regiões de grande extensão territorial e rápido crescimento econômico, como o Norte e o Centro-Oeste.

Um histórico de apagões

O apagão em Mato Grosso e no Pará não é um evento isolado no histórico recente do sistema elétrico nacional. Nos últimos anos, o Brasil tem registrado falhas de grandes proporções que expõem a vulnerabilidade do SIN. O caso mais emblemático ocorreu em agosto de 2023, quando um apagão deixou cerca de 30 milhões de pessoas sem luz em quase todos os estados brasileiros e no Distrito Federal.

Naquela ocasião, a interrupção cortou cerca de 23.368 MW, o equivalente a 34,5% da carga total do país no momento do incidente. O ONS identificou que o apagão teve início com uma queda de tensão em uma linha de transmissão no Ceará, operada pela Chesf, outra subsidiária da atual Axia Energia.

O problema inicial foi agravado por falhas no controle de tensão de usinas eólicas e solares na região Nordeste, que não conseguiram sustentar o sistema e acabaram se desligando da rede.

Mais recentemente, em outubro de 2025, um novo apagão atingiu todas as regiões do Brasil, cortando cerca de 10 mil MW de carga. Segundo o ONS, a causa foi um incêndio em um reator na subestação de Bateias, no Paraná. O fogo desligou toda a subestação de 500 kV e ocasionou a abertura da interligação entre as regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste. Na época, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, fez questão de ressaltar que o problema não era falta de energia, mas sim uma falha na infraestrutura de transmissão.

Esses episódios recorrentes levantam questionamentos sobre a resiliência da malha de transmissão brasileira frente a eventos climáticos extremos, falhas em equipamentos envelhecidos e a complexidade de integrar um volume crescente de fontes de energia intermitentes, como a solar e a eólica.