Correio de Carajás

Análise estrutural da Ponte do Itacaiunas, em Marabá, custa R$ 1 milhão

Fissuras e intervenções na ponte provocam lentidão no trânsito e afetam a rotina de quem depende diariamente da principal ligação viária de Marabá

Com apenas 15 anos de inauguração, ponte já sofre com diversas fissuras e pode até ser demolida
Por: Ulisses Pompeu

O governo federal destinou R$ 950.150,92 para a contratação do Laboratório de Sistemas Estruturais (LSE), empresa responsável por executar um amplo serviço de monitoramento estrutural contínuo nas duas pontes sobre o Rio Itacaiunas, em Marabá, localizadas na BR-230. O investimento, oficializado por meio de contrato firmado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), tem como objetivo avaliar em tempo real o comportamento da estrutura, diante das graves fissuras e anomalias já identificadas ao longo da obra

De acordo com o extrato publicado no Diário Oficial da União, o serviço contratado inclui instrumentação da ponte, leitura constante de dados, análise estrutural e gestão de tráfego, tanto no lado direito quanto no esquerdo da travessia. O contrato tem vigência de 31 de dezembro de 2025 até 30 de setembro de 2026, podendo ser estendido conforme a necessidade técnica dos estudos

Além desse valor de R$ 950 mil, ainda há o pagamento para a Astra Associação Amazônica de Ciência, Tecnologia e Recursos Ambientais, que trouxe a Marabá uma equipe especializada, a qual identificou as fissuras e posteriormente emitiu parecer técnico reconhecendo a gravidade da situação. Nem o contrato nem o valor pago foi publicado até agora nos portais de transparência. Certamente, o valor global passa da casa de R$ 1 milhão.

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Em ofício encaminhado ao presidente da Câmara Municipal de Marabá, Ilker Moraes Ferreira, o superintendente regional do DNIT no Pará, Diego Benitah Batista, detalha que as avaliações técnicas realizadas até agora já constataram um número significativo de fissuras ao longo da viga-caixão (parte interna da ponte), além de problemas nas fundações dos pilares, especialmente nos pilares P2 e P3. Também foram observadas fissuras longitudinais extensas, em diferentes trechos da estrutura, indicando que a capacidade resistente das fundações precisa ser requalificada, já que o desempenho atual está abaixo do previsto em projeto

Segundo o DNIT, os estudos iniciais ainda não conseguiram apontar com precisão as causas das manifestações patológicas encontradas, sendo necessária a complementação das análises para uma avaliação mais aprofundada. Por isso, a contratação do LSE é considerada a única medida técnica capaz de fornecer dados em tempo real sobre a estabilidade da estrutura, permitindo inclusive decisões imediatas, como interdição total, caso haja evolução dos danos que comprometam a segurança dos usuários

O prazo previsto para a execução dos serviços de monitoramento é de seis meses consecutivos, com possibilidade de prorrogação por mais nove meses, podendo chegar até um ano, a depender da complexidade dos resultados e da evolução do quadro estrutural da ponte

Além do acompanhamento técnico, a empresa deverá produzir relatórios periódicos, com gráficos de evolução da estabilidade e, ao final, um relatório completo conhecido como “as built das patologias”, funcionando como um verdadeiro mapa de danos da estrutura, que servirá de base para os projetos futuros de recuperação ou intervenção

O documento também revela um cenário ainda mais preocupante: paralelamente ao monitoramento, o DNIT já conduz em Brasília um processo de planejamento que avalia possíveis intervenções de grande porte, incluindo demolição e reconstrução completa da ponte, bem como alternativas de reabilitação estrutural, dentro do Programa de Manutenção e Reabilitação de Estruturas (PROARTE)

Inaugurada em 2010, a ponte sobre o Rio Itacaiunas é uma das principais ligações viárias de Marabá, essencial para o fluxo urbano e para o transporte na BR-230. As recentes constatações técnicas e o alto valor investido no monitoramento reforçam a gravidade da situação estrutural da obra, que agora passa a ser acompanhada 24 horas por dia por especialistas.

O DNIT afirma que os trabalhos seguem em andamento com rigor técnico, buscando garantir a segurança dos usuários durante todo o período de estudos e decisões sobre o futuro da ponte, que pode passar por obras profundas de recuperação ou até mesmo por uma reconstrução completa, caso os laudos confirmem a inviabilidade da estrutura atual.

IRRITAÇÃO DE USUÁRIOS

João Carlos Lemos, dono de um comércio de materiais de construção na Cidade Nova, mostra-se preocupando com o longo período que uma das pontes ficará “meia boca”, como definiu ele para a Reportagem do CORREIO DE CARAJÁS. “Praticamente todo dia preciso atravessar a ponte para resolver coisas no outro lado da cidade. O problema é que o trânsito está ficando cada vez mais lento. Antes eu levava uns 15 minutos, agora tem dia que passo mais de meia hora parado. Isso atrasa entregas, compromissos com fornecedores e até o atendimento aos clientes. A gente entende que precisa analisar a estrutura, mas quem depende da ponte diariamente está pagando esse preço no relógio, no bolso e no estresse”, desabafa.

Por sua vez, o servidor público Milton Azevedo, que trabalha na área de saúde, diz que tomou o hábito de olhar no aplicativo se há congestionamento próximo à ponte da Transamazônica. Se houver, ele anda um pouco mais e vai pela ponte Ana Miranda, inaugurada há pouco mais de um ano.

“Sou servidor da Prefeitura e moro em um núcleo diferente de onde trabalho, então atravesso a ponte todos os dias, de manhã e no fim da tarde. O fluxo está cada vez mais complicado, principalmente nos horários de pico. Já cheguei atrasado em reunião, já perdi compromisso médico por causa de engarrafamento ali. A sensação é que a cidade está ficando travada. A gente se preocupa com a segurança da ponte, claro, mas também com essa lentidão que está virando rotina e impactando a vida de quem precisa se deslocar de um lado para o outro.”

Pórtico na entrada da ponte já foi destruído nove vezes desde que o DNIT proibiu o acesso de veículos pesados

DESTRUIÇÃO DE PÓRTICO

Enquanto o dilema da interdição da ponte se prolonga sem perspectiva de solução, o DNIT segue tendo de refazer o pórtico limitador de altura de veículos que podem acessar a ponte, colocado do lado da Nova Marabá. Esta semana, pela nona vez, ele foi destruído por algum caminhão que não deveria passar pelo local, que é bastante sinalizado.