📅 Publicado em 28/01/2026 17h53✏️ Atualizado em 28/01/2026 17h54
Há mais de uma década, a Chácara Emaús – Centro de Recuperação de Dependentes Químicos – desenvolve um trabalho contínuo de tratamento e reinserção social de homens em situação de dependência química. O espaço funciona como abrigo, mas também como um lugar de reconstrução, onde disciplina, espiritualidade, trabalho e convivência formam a base do processo terapêutico.
Ao longo desses anos, centenas de histórias passaram pela casa. Cada uma revela esforços, escolhas e renúncias feitas em diferentes tempos, sempre em busca de um propósito maior: a sobriedade.
Existem destinos que se cruzam em momentos inesperados. Alguns se encontram em fases de conquista e estabilidade, outros se reconhecem quando a vida chega ao limite. Este é caso de Alessandro Silva Oliveira e Alex do Carmo Silva que chegaram à Chácara Emaús em períodos distintos, mas carregando o mesmo símbolo da luta para sair do fundo do poço.
Leia mais:Em 2017, Alessandro Silva Oliveira, de 44 anos, iniciou um percurso que mudaria a própria história. Ao CORREIO, ele revela que o passo foi dado quando já não conseguia mais sustentar a própria vida fora do mundo das drogas e da bebida. O tratamento, segundo ele, foi decisivo para interromper um ciclo de sofrimento pessoal e familiar. “Eu fui interno e cumpri nove meses de tratamento. Quando finalizei, o padre me contratou como monitor”, relata.

Desde então, ele conta que a relação com a casa se consolidou. “Venho acompanhando há muito tempo, de 2017 para cá. Já saí, voltei, e estou aqui há três anos de novo. A cada dia eu ganho força aqui na casa”, afirma.
Atualmente, Alessandro é monitor e acompanha os internos nas atividades diárias e nas terapias. Ele também é responsável pela produção de polpas das mais variadas frutas cultivadas na chácara. “Todo dia estamos juntos incentivando o que tem que ser feito”, explica.
Em sobriedade, o monitor garante que a maior recompensa está em ver o outro avançar. “Quando eu vejo uma pessoa entrar e sair desse portão e continuar a caminhada dela, é uma felicidade muito grande”, diz.

UMA DECISÃO QUE MUDOU UMA TRAJETÓRIA
Enquanto bate as frutas, Alessandro relembra e embala também a própria história, revivendo a chegada à chácara em um momento extremo. “Um dia eu tomei a decisão de parar de fazer minha família sofrer e eu também. O principal motivo do sofrimento da minha família era eu. Passava de cinco dias em uma roupa só, então fiz uma escolha”, relembra.
Ele resume o ponto de virada em uma decisão diária. “Um dia eu parei e pedi para Deus me dar essa força. Para quem vive nesse mundo, tudo começa com decisão”, completa.
Para ele, as dificuldades continuam existindo, mas quando há propósito é possível focar e seguir em frente. Nesse processo, a fé se tornou uma aliada constante. “Continuo enfrentando todos os dias”, reconhece.
Mesmo com anos de sobriedade, Alessandro reforça que o cuidado é permanente e que o tratamento é para o resto da vida. “Eu tenho de dizer ‘não’ todos os dias”.
Na Emaús, ele garante ter encontrado dignidade e confiança, algo que, segundo ele, não conseguiu fora dali. Grato pela oportunidade, reconhece que poucos têm acesso a esse recomeço.
O monitor também faz planos para o futuro, entre eles construir a casa própria e adquirir um meio de transporte. Para ele, essas conquistas simbolizam a vitória sobre os vícios. “Quero mostrar para mim mesmo que eu fui capaz de sair das drogas e alcançar meus objetivos”.
“Em primeiro lugar, minha força vem de Deus. Em segundo, agradeço essa casa que me acolheu e me dá a oportunidade de ser alguém. Ninguém confiava mais em mim, e aqui encontrei um lugar onde me deram confiança e uma oportunidade. Foi aqui que eu nasci novamente”, conclui.
RECOMEÇAR COM AS MÃOS NA TERRA
Enquanto Alessandro já percorreu grande parte do caminho e hoje ajuda outros a se manterem de pé, Alex ainda dá os primeiros passos, ressignificando a própria história para curar o vício de dentro para fora.
Com apenas três meses no processo de reabilitação, Alex do Carmo Silva, de 31 anos, organiza os próprios sentimentos enquanto constrói uma nova rotina. Pai de três filhos, ele reconhece que o vício atravessou sua vida por anos até o momento em que decidiu pedir ajuda.
O pedido revelou não apenas fragilidade, mas um grito de socorro em busca de cura. “A droga não escolhe classe nem sociedade. Venho há oito anos lutando para me manter limpo, mas nunca dava certo. A partir do momento que eu me reconheci como doente e vi que precisava de ajuda, aceitei”, relata.

Separado em consequência da dependência, Alex diz encontrar nos filhos a principal motivação para se manter limpo. “Eu sou pai de três meninos e hoje vejo que eles precisam de mim”, sintetiza.
Tendo crescido sem a presença do pai, ele assegura buscar ajuda para não repetir essa ausência na vida dos filhos, consciente de que precisa estar bem para cuidar deles.
Em meio à horta, onde a vida cresce em abundância, Alex compartilha que foi na Emaús que encontrou identificação com o trabalho que desenvolve hoje. “Quando cheguei aqui não era assim. E eu falei para o padre que gostava de plantar. Hoje tudo que tem aqui é fruto nosso”, comemora.
Na rotina diária, ele cultiva coentro, cebolinha, couve, alface, rúcula, pepino, quiabo, jiló e uma variedade de frutas e verduras. Parte da produção ajuda a manter a casa e o restante é comercializado. Para ele, o trabalho vai além da função prática.
“O meu maior prazer não é nem comer: é plantar”, garante.
Ao falar do próprio processo, Alex constrói uma metáfora que resume a própria trajetória. “Às vezes eu me comparo a um pé de jiló. Ele cresce, dá muitos ramos, mas quando o solo fica muito úmido ele deita. Então, eu preciso fincar um torno e levantar ele de novo. Tento levar isso para minha vida. Quando eu sair daqui tenho que continuar de pé e me agarrar em uma força maior que é Jesus, em quem eu acredito”, justifica.
Segundo ele, manter a mente ocupada é parte fundamental do tratamento e estar na horta o ajuda muito nesse processo. “A minha terapia é isso aqui. Eu gosto de leitura e faço artesanato. Não posso ficar com a mente desocupada, porque o adicto (indivíduo que tem dependência química) pensa coisa que não deve”, relata.
PLANOS, ESTUDO E EXEMPLO PARA OS FILHOS
Alex sabe que o tratamento ainda está no início e que o processo é longo. Ainda assim, prefere se apegar à fé e às terapias oferecidas pela chácara como alternativa para se afastar do vício.
Sem planos imediatos, ele prefere focar no presente. Questionado sobre o que espera até concluir o tratamento, é direto. “Minha expectativa é concluir os nove meses de tratamento. Eu não gosto de fazer muitos planos porque fico ansioso e vem a auto enganação”, reflete.
Mesmo assim, revela sonhos de longo prazo. “Quero concluir o ensino médio e ingressar numa faculdade, talvez engenharia mecânica ou agronômica. Eu li que nós podemos tudo nessa vida, desde que tenha disposição para trabalhar”.

Para Alex, a maior conquista já está acontecendo. Estar lúcido e limpo, trabalhar, e acima de tudo, ter força física e mental para lidar com o cotidiano, além de andar cheiroso. No fundo, a motivação tem nome e sobrenome. “São meus três filhos. Antes o meu maior medo era cair, hoje é que eles conheçam a droga. Se depender de mim, não vão conhecer, por isso meu objetivo é me manter limpo”, declara.
Sem vergonha do passado, ele acredita que a própria história poderá inspirar outros. Agarrado no propósito, Alex entende que a adicção é uma doença e que fraquejar pode o levar para o fundo do poço, mais uma vez.
Em um ambiente onde inúmeras histórias se cruzam diariamente, a trajetória de Alessandro encontrou a de Alex. Um representa a constância e a permanência, o outro simboliza o início e a reconstrução. Em comum, ambos carregam a certeza de que sair do fundo do poço exige decisão e renúncia diária.
Mais do que tratar a dependência química, o espaço que compartilham segue cumprindo um papel essencial: oferecer a possibilidade de recomeçar. É ali, na Chácara Emaús, que mais de dez homens fazem a própria caminhada, em um percurso que não tem fim, mas que já deu inúmeros frutos.
