Correio de Carajás

A urgência da violência e nossa superficialidade

Societizando

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Chagas Filho

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Acordei-me às 6 horas da manhã e, ao vasculhar a caixa de pandora na palma de minha mão, meus olhos se ofuscaram diante das mensagens em grupos de WhatsApp que tratavam da morte de um ex-presidiário dentro do Hospital Municipal de Marabá. Depois disso, não houve mais trégua durante todo o dia. Calma, que o sol já vem.

Nunca mais tinha recebido tantas mensagens e telefonemas, com perguntas e pedidos de publicação de uma matéria jornalística sobre o tema. É como se o sangue do morto precisasse logo escorrer pelas bordas do celular e gotejar nos olhos e ouvidos de toda a sociedade. A violência, dotada de uma urgência irrefreável, é incapaz de esperar por qualquer outra notícia. A primeira publicação sobre este fato já havia se dado às 4 horas da madrugada, porque a notícia não espera e o sono é um privilégio que o jornalista não tem o direito de desfrutar quando bem quer.

Sites, rádios, jornais, TVs se empregaram a dar a notícia sobre um jovem ex-presidiário, que baleado no domingo, fora levado ao hospital, onde acabou alcançado pelos mesmos homens que precisavam terminar um “serviço”. Os porquês e as dores da família não entram em questão porque repousam nas profundezas. O que nós, jornalistas, buscamos é a superfície meramente, para satisfazer o prazer momentâneo por sangue, que move o mundo moderno. E é sobre isso que desejo falar.

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A partir do momento em que o conjunto dos meios de comunicação de massa não tem condições materiais de alcançar todos os fenômenos sociais que produzem dinâmicas na sociedade, torna-se necessário construir um processo de seleção e classificação do que seria relevante e, por isso, deve ou não ser transformado em notícia.

Teoricamente, essa escolha é feita a partir dos fenômenos que fazem sentido para a maioria das pessoas de determinada sociedade. Mas, como tudo que se move na sociedade moderna, a notícia também está condicionada ao mercado, que põe em funcionamento determinados procedimentos capazes de selecionar os acontecimentos, categorizando seu grau de relevância, dentro do que é importante numa sociedade mercantilizada, para só então redistribuir a informação aos grupos sociais que lhes são clientes. O resultado dessa escolha é sempre mais do mesmo: a violência nossa de cada dia.

Diante do brilho dos celulares e das telas de computador e televisão, os olhos do mundo seguem bailando à guisa de uma espécie de iconografia da violência. É como se vivêssemos eternamente na caverna de Platão, “vedetizando”, em looping, o componente externo da violência, a sua sombra, sem compreender o cerne dessas questões, que desaguam em tiros e morte, na rua ou num leito de hospital.

Somos superficiais.

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