Correio de Carajás

A leitura como fonte de repertório linguístico e expressão social

Enfim chegou a nossa primeira coluna do ano de 2026! Terminamos o ano de 2025 falando que ler também é hábito! Hoje, para reforçar a importância deste hábito, trago duas obras da literatura brasileira: VIDAS SECAS (1938), de Graciliano Ramos, e A HORA DA ESTRELA (1977), de Clarice Lispector; dois clássicos que fazem parte do Modernismo brasileiro. A obra de Graciliano tem como característica o regionalismo, ela retrata o Nordeste da seca, da pobreza extrema; Clarice Lispector, por sua vez, tem romances urbanos e introspectivos com temas existenciais.

O que une os personagens principais das referidas obras, MACABÉA, criada por Clarice, e FABIANO, criado por Graciliano, além da pobreza e indigência social? Ambos possuem uma invisibilidade social que também é construída pela ausência de domínio da linguagem. Em Vidas Secas, o romance é narrado por um narrador observador e Graciliano recorre ao discurso indireto livre. Os personagens falam muito pouco, em especial Fabiano, que possui uma linguagem direta, seca. A comunicação entre os membros da família de Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos é escassa, por isso, nenhum dos personagens daria conta de contar a saga da família de retirantes, pois o domínio da linguagem é precário.

A seca retratada na obra de Graciliano está nos personagens, na linguagem. Ilustra bem o seguinte trecho: “Falava uma linguagem cantada, monossilábica, gutural. Às vezes utilizava com os companheiros a mesma língua com que se dirigia aos brutos: exclamações, onomatopeias. Na verdade, falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.

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A ausência da capacidade expressiva aprisiona Fabiano. Ele possui uma extrema limitação linguística e cultural. A pobreza experimentada pelos retirantes é revelada na limitada capacidade de expressão dos sentimentos. É diante dessa capacidade reduzida de expressão que ressalto a fundamental importância da leitura como ferramenta que amplia a nossa capacidade comunicativa.

Quando a leitura é de texto literário, ela é uma fonte de entretenimento que colabora para desenvolvimento de empatia e reconhecimento dos próprios sentimentos. Aqui cito MACABÉA, a protagonista de A Hora da Estrela, a “nordestina amarelada. O seu único luxo: “tomar um gole de café frio antes de dormir”. Estamos diante de outra personagem com capacidade comunicativa limitada e isso a conduz a uma invisibilidade social sem precedentes. No livro, há uma fina ironia, pois essa mulher que possui um curtíssimo repertório é datilógrafa.

“Quando acordava não sabia quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser”. Embora seja datilógrafa, lhe falta o domínio das palavras, da língua, pois ela não consegue entender bem o que ouve tampouco o que lê. Macabéa não sabia nomear os seus sentimentos, tinha muita dificuldade de expor as suas ideias e seus pensamentos.

A leitura poderia fazer com que Macabéa tivesse uma melhor compreensão do mundo, ampliaria o seu ambiente comunicativo. A personagem vive uma limitação interior por não conseguir expressar, verbalizar os seus sentimentos, suas angústias. A nordestina não percebe que sofre, pois, falta consciência de si. É ingênua. Não sabe se defender. A todos os constrangimentos que sofre pede desculpa. A palavra DESCULPA é exaustivamente usada pela personagem, mesmo nas ocasiões em que ela foi a ofendida, uma demonstração de ausência de repertório e invisibilidade social que se materializa no domínio precário da linguagem.

Mais uma vez, diante de personagens ficcionais: Fabiano e Macabéa, homem e mulher que sofriam por terem a capacidade comunicativa limitada, te convido a refletir sobre a importância de hábito de ler. A leitura literária não é apenas fonte de entretenimento, mas de crescimento e liberdade interior, além de uma excelente atividade analógica que nos ajuda a descansar, colabora com o sono e concentração.  Encerro a coluna de hoje deixando como sugestão esses dois clássicos da literatura brasileira: VIDAS SECAS e A HORA DA ESTRELA, para começar bem seu ano literário de 2026. Boa leitura, querido leitor! Até a próxima!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.