Correio de Carajás

Familiares choram perdas para a violência e buscam Justiça em encontro do MPPA

“Mães que choram e lutam por Justiça” promove acolhimento, escuta e orientação a familiares de vítimas de mortes violentas em Marabá

Representantes do MPPA e de entidades de proteção às mulheres se reuniram com as famílias das vítimas / Fotos: Evangelista Rocha
Por: Kauã Fhillipe

“Ela era uma mãe diferente na proteção dos filhos. Se viesse uma reclamação, a premissa era tomar o lado dos filhos, para depois ir escutar”, resumiu Hildegard Angel ao falar sobre a mãe, Zuzu Angel, em uma entrevista concedida ao Itaú Cultural. Estilista brasileira, Zuzu transformou a dor pela morte do filho, Stuart Angel, em uma luta incansável por Justiça. Preso, torturado e morto durante a ditadura militar, Stuart teve sua história denunciada pela mãe, que usou inclusive o próprio trabalho para expor internacionalmente as violações cometidas pelo regime. Zuzu morreu sem ver os responsáveis pelo assassinato do filho serem punidos, mas deixou como legado a resistência de quem se recusou a deixar a violência cair no esquecimento.

Décadas depois, em outro contexto, mães e familiares que também carregam a dor de perder alguém para a violência encontraram espaço para compartilhar suas histórias e buscar orientação em Marabá. Na manhã desta terça-feira (20), o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) promoveu o encontro “Mães que choram e lutam por Justiça”, uma iniciativa voltada ao acolhimento de famílias que enfrentam não apenas o luto, mas também as dúvidas e dificuldades que acompanham a busca por respostas no sistema de Justiça.

O encontro buscou aproximar a instituição dessas famílias, ouvir suas angústias e identificar obstáculos que muitas vezes tornam a caminhada ainda mais difícil. A intenção, segundo a titular da 5ª Promotoria de Justiça Criminal de Marabá, Cristine Magela, é fazer com que os familiares saibam a quem recorrer e compreendam o papel do Ministério Público, sem que suas histórias se reduzam a números de processos.

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“Queremos ouvir quais são as angústias, os medos e as expectativas dessas famílias. Dizer que o Ministério Público está junto delas, que suas histórias não foram esquecidas e não serão esquecidas, mesmo depois que os processos terminarem”, explica a promotora. Ela também destacou que a iniciativa permitirá identificar dificuldades enfrentadas pelos familiares e avaliar como a instituição pode aprimorar o atendimento às vítimas.

A preocupação com essas famílias também encontra eco na trajetória pessoal de Cristine, que compartilhou com os participantes a experiência de ter perdido o pai, assassinado quando ela ainda era jovem. Ao dividir essa lembrança, a promotora aproximou sua própria história da realidade de quem estava ali, sem deixar de lado a responsabilidade institucional de buscar caminhos para que essas pessoas recebam orientação e apoio.

A iniciativa foi idealizada pela promotora de Justiça Ana Maria Magalhães, atual presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Pará (AMPEP). A proposta também nasceu de uma experiência dolorosa vivida por ela, a perda de um sobrinho durante uma operação policial. Ana Maria explicou que a ideia surgiu ao perceber que familiares de vítimas de mortes violentas, além de enfrentarem o luto, muitas vezes não sabem por onde começar a busca por respostas.

Promotora Ana Maria: “Essas pessoas choram, mas lutam por Justiça e querem respostas do Estado”

“Quando digo mães, são também os pais, as tias, as irmãs. São familiares de pessoas vítimas de homicídio, feminicídio, acidentes de trânsito, erro médico, enfim, crimes que resultam em morte. Entendo que essas famílias enfrentam um sofrimento diferente, porque a morte é definitiva. É um crime que, uma vez praticado, não permite que a pessoa volte”, explica.

Mães que choram por justiça

Ao ouvir os relatos de mães e familiares que convivem com a ausência de quem foi levado pela violência, o CORREIO reencontrou histórias que já estamparam as páginas do jornal. Por trás de cada caso, há uma família que tenta seguir em frente enquanto espera respostas, acompanha processos judiciais e enfrenta as marcas deixadas por mortes que interromperam vidas e mudaram outras para sempre.

Acompanhada por familiares, Maria Sebastiana Rodrigues, mãe de Layane Rodrigues Porto, relembrou o dia em que teve a filha assassinada a tiros pelo ex-companheiro. A violência arrancou Layane do convívio da família e deixou uma ausência que permanece, mesmo com os avanços na busca por Justiça.

Há um mês, dona Maria perdia a filha para o feminicídio e contou toda a sua dor

Sebastiana participou da roda de conversa, mas precisou ser socorrida após passar mal, tomada pela emoção ao ouvir o relato de outra mãe. A história compartilhada por uma desconhecida trouxe de volta a lembrança da própria filha, mostrando como a dor de uma família pode encontrar eco na experiência de tantas outras. Apesar da perda, a mãe de Layane reconhece os avanços do processo judicial. A possibilidade de acompanhar o caso e perceber que ele caminha adiante representa um ponto de apoio em meio ao sofrimento, embora nenhuma resposta seja capaz de reparar a ausência da filha.

Outra história compartilhada durante o encontro foi a de Marlene Sousa Feitosa, morta após ser atropelada pelo subtenente da reserva da Polícia Militar José do Espírito Santo Barbosa. A filha dela, a psicóloga Nathiele Feitosa Lima, participou da atividade oito meses após a morte da mãe e relatou à reportagem como tem acompanhado o caso na Justiça.

Nathiele relembra da tragédia com a mãe e avalia a importância do encontro com outras vítimas

Segundo Nathiele, o motorista, que ela afirma estar embriagado no momento do acidente, teria invadido a preferencial em alta velocidade e fugido sem prestar socorro. Ele foi preso alguns dias depois, mas deixou a prisão cerca de 20 dias mais tarde, após a apresentação de um recurso pela defesa. Até o momento do relato, o processo continuava em andamento.

Mesmo diante das dúvidas e da espera por uma decisão judicial, Nathiele destaca a importância de encontrar pessoas que compreendem, por experiência própria, a dimensão dessa perda. Para ela, o acolhimento oferecido pelo encontro também tem valor no processo de enfrentamento do luto. “Você ter espaço para compartilhar com pessoas que passam por uma situação parecida com a sua, é muito importante o processo de falar. Você conseguir transmitir, passar a sua dor, conversar sobre aquilo que você está sentindo, ter espaço para que você se sinta vista e ouvida naquele momento que voc êestá vulnerável, aquele momento que é doloroso, então ter momentos como esse é de suma importância”.

A roda de conversa também abriu espaço para a dor de familiares de Marlyson Cleber de Lima Maranhão, policial militar morto com uma facada no pescoço em novembro de 2025. A viúva relatou o trauma deixado pela perda do companheiro e as dificuldades enfrentadas pelas filhas para lidar com a ausência do pai.

Entre os relatos, também estiveram familiares de Ana Beatriz Sousa Machado, assassinada a facadas em 2024. Embora o caso tenha chegado a uma condenação, a decisão judicial não encerrou o sofrimento de quem ficou. A presença da família mostrou que, mesmo quando há uma sentença, a lembrança da violência continua fazendo parte da vida de quem perdeu alguém. Sara Nunes recebeu pena de 13 anos de prisão pelo crime, em dezembro de 2025 .

Apoio institucional

Diretora da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil, em Nova Marabá, Simone Felinto destacou a importância da atuação conjunta entre as instituições e reconheceu o trabalho da promotora de Justiça Cristine Magela no acompanhamento de investigações e processos. Com 16 anos de atuação em Marabá, a delegada ressaltou que a promotora mantém contato frequente com a Polícia Civil, inclusive indo pessoalmente à delegacia para acompanhar procedimentos e buscar soluções para casos pendentes. Simone também colocou a instituição à disposição das famílias para prestar esclarecimentos sobre inquéritos e ajudar a identificar situações que precisam de encaminhamento.

Delegada Simone Felinto parabeniza o trabalho do MPPA e reconhece as falhas da própria Polícia Civil

A delegada reconheceu, ainda, que a Polícia Civil enfrenta dificuldades estruturais, especialmente a carência de servidores para atender às demandas da Delegacia de Homicídios. Segundo ela, a necessidade de reforçar o efetivo deve ser levada aos gestores da instituição, em Belém, para garantir melhores condições de investigação. Simone também defendeu a melhoria do atendimento e do acolhimento oferecidos às famílias, que procuram as delegacias em um dos momentos mais dolorosos de suas vidas. “O problema começa a ser resolvido quando nós reconhecemos que temos um problema e que precisamos melhorar”, afirmou, colocando-se à disposição para ouvir os familiares e fornecer informações sobre os casos dentro de suas possibilidades.

Assim como Zuzu Angel transformou a dor pela perda do filho em uma luta que atravessou fronteiras, as famílias reunidas em Marabá mostram que o tempo não apaga a ausência nem encerra a busca por respostas. Afinal, por trás de cada inquérito e de cada sentença, há histórias de vidas interrompidas e familiares que se recusam a deixar que a violência seja a última palavra.