Correio de Carajás

O culto à beleza no romance O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

✏️ Atualizado em 20/10/2026 07h37

A coluna de hoje é em homenagem a OSCAR WILDE, escritor aniversariante do mês. Há 172 anos, no dia 16 de outubro de 1854, nascia em Dublin, na Irlanda, o escritor que, com um único romance, garantiu seu lugar no cânone literário: O RETRATO DE DORIAN GRAY (1891). O livro tornou o autor conhecido em todo o mundo e, ironicamente, tornou-se a principal prova utilizada em seu julgamento por “indecência”, em 1895. Sim, o romance foi censurado!

A obra, apesar de escrita no fim do século XIX, se mantém atual pelos temas abordados: beleza, juventude eterna, identidade, narcisismo. Um romance de muitas camadas e diversas possibilidades de leitura. São inúmeros os trechos com reflexões sobre a BELEZA e sua FUGACIDADE: “Quando sua juventude terminar, sua beleza irá com ela, e o senhor descobrirá que não lhe resta nenhum triunfo (…). O tempo tem ciúme do senhor e luta contra seus lilases e suas rosas. Sua pele vai ficar amarelada, o rosto encovado e sua pele sem brilho. O senhor vai sofrer horrivelmente.” É um livro com alto teor filosófico, representado sobretudo pelo irônico personagem Lorde Henry, uma figura diabólica que pode ser considerada o grande mentor do jovem Dorian.

O enredo é centrado no personagem que é retratado numa pintura a óleo: Dorian Gray, descrito com uma beleza clássica: “Sim, era sem dúvida maravilhosamente bonito, lábios escarlates finamente delineados. Os olhos azuis e francos, os cabelos louros e encaracolados. Algo em seu rosto fazia com que as pessoas confiassem nele de imediato.” Ao ver a própria imagem no retrato, Dorian faz um pedido: nunca envelhecer, jamais deixar de ser belo. É o famoso pacto fáustico, no qual o personagem entrega sua alma e consciência ao demônio em troca da juventude eterna.

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Segue trecho do momento em que o pacto é feito: “Como é triste! — murmurou Dorian Gray com os olhos ainda fixados no retrato. — Como é triste! Vou ficar velho, feio, desprezível. Mas esse retrato ficará jovem para sempre. (…) Se eu permanecesse jovem para sempre, e o quadro envelhecesse! Por tal coisa — por isso — eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse!” Diante do quadro, Dorian se angustia com a consciência de que um dia envelhecerá e se tornará “feio” e “desprezível”; o culto à beleza já é reflexo da influência que Lorde Henry exerce sobre o jovem: “Diz-se às vezes que a beleza é apenas superficial. Pode ser, mas, pelo menos, não é tão superficial quanto o pensamento. Para mim, a beleza é a maravilha das maravilhas. (…).

É a partir do desejo externado diante do quadro que o retrato ganha vida, configurando o elemento sobrenatural — típico dos romances góticos — que constrói uma atmosfera sombria e misteriosa que envolve a narrativa. Ao ser escondido pelo protagonista, o quadro deixa de ser apenas um objeto de arte e se torna a representação da alma de Dorian Gray. É justamente essa presença do sobrenatural que explora a dualidade existente na obra: a beleza e a monstruosidade, o visível e o oculto.

Após o pacto, o protagonista se sente livre para buscar o prazer e cometer crimes sem qualquer sentimento de culpa. O jovem passa a viver em busca das sensações, como lhe aconselhava Lorde Henry: “Desfrute de sua juventude enquanto a tem. Viva a vida maravilhosa que existe dentro de si! Não deixe de aproveitar nada. Busque sempre novas sensações. Não tema nada.” A partir do pacto, a obra começa a explorar o duplo, pois Dorian e o retrato são duas versões da mesma pessoa. O rapaz personifica a beleza e o quadro é seu lado monstruoso; a pintura representa sua consciência, suja, cheia de manchas em razão de suas atitudes, além de feia e envelhecida pelo tempo. As marcas simbolizam a crueldade de seu caráter, suas maldades e crimes.

O Retrato de Dorian Gray, mesmo após mais de 130 anos de sua publicação, é atual e conversa diretamente conosco aqui no século XXI, geração que posta e curte fotos com filtros nas redes sociais, ambiente em que todos são “bonitos e felizes” — lugar em que a vida perfeita é “possível”. O culto à beleza e a valorização da aparência nunca estiveram tão atuais. Dorian somos todos nós. Finalizo perguntando: o que você faria se fosse presenteado com juventude e beleza eternas? O que você estaria disposta a fazer ou trocar para se manter jovem? Antes de responder a essas perguntas, leia o romance de Wilde. Até a próxima, queridos leitores!

Graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela UNIFESSPA e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.