📅 Publicado em 17/10/2026 08h30✏️ Atualizado em 17/10/2026 08h29
Às vésperas de mais um Círio de Marabá, a história do padre Matheus Felipe Costa Barbosa, de 32 anos, é marcada pela devoção a Nossa Senhora de Nazaré, por experiências de fé e pela superação de momentos difíceis. Ordenado sacerdote há quase oito anos, ele é pároco da Paróquia São José Operário, localizada no Km 7, em Marabá.
Em uma entrevista emocionante, o padre relembra sua trajetória, iniciada na infância, quando acompanhava o crescimento do Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, na Folha 16. Segundo ele, foi na comunidade que deu os primeiros passos na Igreja Católica.
Terceiro de quatro filhos, o religioso conta que sua família não era formada por católicos praticantes. A aproximação com a Igreja aconteceu gradualmente, e o serviço no altar como coroinha despertou nele o desejo de seguir a vida sacerdotal.
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Aos 16 anos, durante um retiro para jovens realizado em 2009, chamado Segue-me, o sacerdote assegura ter compreendido melhor o chamado que sentia desde criança. “Não teve nada de extraordinário ou fantasioso. Eu percebi, na simplicidade, na ordinariedade da minha vida, nos sinais que Deus me dava, que a minha vocação era aquela”, relembra.

Ele conta que, em 2011, ingressou no período de formação que hoje é conhecido como seminário propedêutico. No ano seguinte, iniciou os estudos de Filosofia no Paraná, onde permaneceu até o fim de 2013. Em 2014, retornou ao Pará e continuou sua formação em Belém até 2017.
Ao longo desse percurso, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, presente desde sua infância, dividiu espaço com uma relação especial com Nossa Senhora de Guadalupe.
Emoção de caminhar na corda
O religioso explica que a ligação com Nossa Senhora de Guadalupe ganhou um significado especial em dezembro de 2017, quando ainda era seminarista e não tinha certeza de quando seria ordenado diácono.
Ele relembra que, naquele período, havia discussões sobre a possibilidade de os seminaristas realizarem um ano de experiência pastoral antes da ordenação. A previsão inicial era que a turma recebesse o diaconato apenas em 2018, mas o formador decidiu tentar antecipar a data.
Durante uma viagem de van com outros seminaristas, o sacerdote fez uma promessa: caso fosse ordenado diácono ainda naquele ano, pagaria uma promessa caminhando na corda do Círio de Nazaré, em Belém.
Pouco tempo depois, veio a confirmação de que a ordenação aconteceria. “Eu cumpri a promessa, fui na corda. Foi a experiência mais bela da minha vida, porque a gente imagina aquele sufoco todo, mas só o romeiro sabe, o peregrino, o filho de Nossa Senhora sabe o que é cumprir uma promessa, ser grato por aquilo que ela fez”, relata.
Para o sacerdote, aquele momento representou mais do que o cumprimento de uma promessa: foi uma experiência de gratidão e uma expressão concreta de sua devoção mariana.
Apesar das alegrias vividas durante a formação, a caminhada do padre Matheus também foi marcada por dificuldades. Depois de anos dedicados aos estudos, com noites mal dormidas e uma rotina intensa, ele enfrentou uma crise depressiva e um quadro de esgotamento, que descreve como burnout. Segundo ele, o período exigiu seu afastamento temporário das atividades.
Foi durante essa fase que teve um sonho que, posteriormente, associaria à sua espiritualidade e à proteção de Nossa Senhora.
Segundo ele, Nossa Senhora lhe revelou, por meio do sonho, que estava com ele. Algum tempo depois, quando se sentia em condições de retomar suas atividades, o sacerdote recomeçou as missas e as participações ativas na Igreja. Um sinal espiritual presente no sonho o fez lembrar que “Nazinha” sempre esteve presente. “Não me resta dúvida alguma de que era uma mensagem dela para dizer que ela sempre me protegeu”, afirma.
Para ele, a fé não significa ausência de sofrimento, mas a possibilidade de encontrar amparo mesmo nos momentos mais difíceis. “Isso não faz de mim uma pessoa nada especial, porque eu só sou mais um miserável em busca da misericórdia de Deus e que a alcançou sem mérito algum”, diz.
Ao olhar para sua história, o sacerdote reconhece a importância da fé e da devoção mariana durante o processo de recuperação. “Eu não consigo dizer em palavras. Até porque, se hoje eu estou aqui, é graças a ela. Gratidão, porque eu poderia ter me perdido, eu poderia não estar aqui devido à depressão e tantas outras coisas. Graças a Deus e à intercessão dela, eu fui curado. Eu fui tirado do vale da sombra da morte, graças à intercessão dela”, declara emocionado.
Ele também destaca a participação do movimento Mães que Oram pelos Filhos em sua trajetória espiritual, citando pessoas que contribuíram para sua caminhada. “Não tem como eu olhar para tudo isso que Deus construiu na minha vida e não perceber que ela tá em tudo, esteve e ainda continua estando em tudo”, conclui.

Devoção popular mantém a fé viva
Como sacerdote, ele também acompanha histórias de fiéis que atribuem a Nossa Senhora experiências de proteção e graças alcançadas. Para ele, escutar esses relatos exige sensibilidade e uma compreensão pessoal da devoção mariana. “Eu acredito que, para um sacerdote conseguir ser sensível à história dos outros, ele tem que ter devoção. Então, ele tem que saber que primeiro ele é um filho de Nossa Senhora também, que precisa recorrer à proteção dela”, explica.
Para o sacerdote, ouvir essas histórias é reconhecer que a religiosidade popular continua sendo uma expressão importante da relação das pessoas com o sagrado. “É muito emocionante nós percebermos tudo isso, ouvir essas histórias e conseguir entender que o nosso povo ainda é sensível ao transcendente. Mas, sobretudo, pela intercessão e proteção materna da Mãe de Deus”, completa.
À espera de mais um Círio, o sacerdote contou que a relação com a data começou muito antes de sua ordenação. Ainda criança, quando acompanhava a movimentação no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, localizado na Folha 16, observava os romeiros caminhando pelas ruas e presenciava a participação de diferentes sacerdotes na festividade.
Agora, como padre, ele se prepara para viver mais uma edição com um sentimento que vai além de suas responsabilidades religiosas, pois carrega o desejo de participar também como devoto. “Cresci vendo as pessoas caminhando nas ruas de Marabá. Tudo isso marca muito a minha infância e essas memórias são sacramentais”, recorda.
Para ele, o momento não se resume somente a um evento religioso realizado anualmente. A celebração representa a continuidade de uma história construída pela dedicação das comunidades e pelo esforço de muitas pessoas. “É a rememoração de uma história que se constrói e o esforço de muita gente para que isso aconteça. Estou ansioso, porque não quero ir só como padre, mas quero ir como romeiro, como filho de Nossa Senhora, alguém que tem total gratidão por tudo que ela fez”, declara.
“Maria é minha mãe”
Ao falar sobre a importância de Nossa Senhora em sua vida, o padre resume sua devoção em uma frase simples, mas carregada de significado. “Maria é minha mãe”, declara.
A declaração traduz a relação de confiança que acompanha sua trajetória, passando pela descoberta da vocação, a formação sacerdotal e o enfrentamento dos momentos difíceis. “É minha mãe porque protege, afaga, cuida, coloca no colo, faz cafuné no cabelo. É uma mãe protetora”, explica.
Para o padre Matheus, a maternidade de Maria é parte essencial de sua experiência como católico e da maneira como compreende a caminhada da Igreja. “Não tem sentido uma fé católica sem a maternidade de Maria”, conclui.

