Correio de Carajás

Onde Isnayra encontra amparo para enfrentar a perda do filho?

Entre a saudade do primogênito Saimon e o cuidado com o caçula, a pedagoga encontra na devoção à Maria um amparo para a maternidade

Mulher de vestido amarelo abraça porta-retrato com foto de família em um ambiente com objetos religiosos e porta-retratos de um jovem.
Após a perda do filho, Isnayra encontra na fé a certeza de que Maria o acolheu em seus braços/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 15/10/2026 10h36

Na manhã de uma quinta-feira de outubro, ao procurar o documento de sua consagração à Nossa Senhora, Isnayra Gomes da Silva Lustosa encontrou uma lembrança que guardava havia três anos: uma fotografia com o filho Saimon, cercada de pequenos corações e acompanhada de um desenho de Nossa Senhora Aparecida. O presente havia sido feito em um Dia das Mães, quando o rapaz ainda era vivo. Naquele momento, as lagrimas saltaram aos olhos ao recordar que a devoção que cultivava em casa também havia chegado ao filho.

A imagem estava guardada junto à fórmula da consagração que Isnayra fez em 2023. Ao reencontrá-la, a pedagoga e empresária, de 43 anos, atribuiu àquela coincidência um significado especial. Ali ela viu um sinal do acolhimento de Maria. É com a mãe de Cristo que ela se apega também para lidar com a morte de Saimon. O jovem de 17 anos perdeu a vida em setembro de 2026, enquanto organizava um acampamento da igreja.

“Eu senti um cuidado muito grande dela ali naquele momento, assim, ela falando mesmo: ‘Minha filha, eu tô aqui, tô cuidando de você, tô cuidando do seu filho’”, conta.

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A relação de Isnayra com Nossa Senhora não é recente, começou muito antes dela se tornar mãe. Na infância, estudou em uma escola de freiras, onde rezava e cantava músicas católicas. A devoção, porém, teve períodos de maior e menor presença em sua vida.

Quando se casou com Josenildo, em 2006, estava mais distante da prática religiosa.

Em 2011, já morando em Marabá, participou de um ‘Encontro de Casais com Cristo’ e sentiu vontade de comprar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima para ter em casa. Foi a primeira que adquiriu e que guarda até hoje. Foi nessa época que começou a rezar o terço, mas ainda não conseguia fazer disso um hábito constante.

A mudança veio durante a pandemia de covid-19, em 2020. Dentro de casa, a família passou a rezar o terço e acompanhar as missas pela televisão. Isnayra, por sua vez, sentiu vontade de estreitar sua relação com Maria. Dedicou-se a estudar os mistérios do rosário e passou a rezar diariamente.

“Eu fui estreitando e fui pedindo a ela que eu a amasse cada vez mais”.

FÉ FORA DE CASA

Em 2022, a devoção ganhou espaço na comunidade de Santa Clara, no bairro Cidade Jardim, onde Isnayra mora. Ela propôs que, durante os 30 dias de maio, mês dedicado a Maria na tradição católica, as famílias se reunissem para rezar o terço. A cada dia, uma casa diferente receberia os fiéis.

A comunidade abraçou a ideia. Desde então, a iniciativa é realizada todos os anos. Para Isnayra, levar a oração a outras famílias também é uma forma de compartilhar uma experiência que vinha transformando sua própria relação com a fé.

Dentro de casa, ela conta que nunca tentou os filhos a terem a mesma devoção. Preferia mostrar o que Maria representava para ela por meio dos próprios hábitos: vestia azul e branco durante o mês de maio, participava das orações e convidava os meninos para acompanhá-la.

“Então eles viam essa relação e começaram a amar Virgem Maria também”.

Com o tempo, percebeu que Saimon também havia criado seu vínculo com Nossa Senhora. Depois de participar de um acampamento religioso, ele passou a rezar o terço todos os dias e o carregava sempre consigo, inclusive no dia em que morreu.

“Ele realmente tinha Maria como intercessora, como essa como essa mãe que cuida, que ama. E eu creio sim que ele foi acolhido por ela. Assim como creio também que ela tá cuidando da gente, principalmente de mim, como mãe”.

Nos mistérios do terço Isnayra revive a dor de Maria enquanto lida com o próprio luto

MARIA COMO MÃE

A entrevista para o especial ‘Sob o olhar de mãe’, do Grupo Correio, é a primeira vez que Isnayra fala sobre a morte do filho para a imprensa. Segundo ela, ao receber a notícia de que o filho havia sofrido um acidente, começou a rezar durante o trajeto até o hospital. Ainda tinha esperança de que ele sobrevivesse.

A notícia da morte mudou o sentido daquela oração. Em meio à dor, ela se lembrava de Maria aos pés da cruz, acompanhando o sofrimento de Jesus.

“Quando eu pensava em me desesperar, eu dizia: Mas ela é mãe, ela sofreu essa dor, assim como eu estou sofrendo’, relata.

Isnayra também recorda o relato de alguém que estava com Saimon no trajeto de um sítio até o hospital. A mulher segurou a mão do rapaz e começou a rezar, falando de Nossa Senhora. Naquele momento, Saimon abriu os olhos, esboçou um sorriso de canto de boca e deu os últimos suspiros.

Desde que ouviu essa história, Isnayra diz imaginar Maria conduzindo o filho até Jesus. Acredita que ele foi acolhido pela Virgem e que a mesma presença continua ao seu lado.

“Eu sinto que ela, como mãe, partilha dessa dor comigo e, por isso, me fortalece, me encoraja a continuar”.

A fé também aparece na maneira como Isnayra compreende a própria maternidade. Ao falar sobre o que gostaria de transmitir a outras mães, ela destaca o amor, o acolhimento e a educação dos filhos. Para ela, a devoção a Maria não deve terminar na oração, mas se expressar na forma como as pessoas cuidam umas das outras.

Maria é aquela que aponta para Jesus. Por isso ela considera importante educar os filhos na fé e mostrar a eles valores que possam orientar suas escolhas.

Agora, Ysnara tenta encontrar o equilíbrio entre cuidar, mas não superproteger, o filho mais novo

ENTRE O CUIDADO E A LIBERDADE

A morte de Saimon também mudou a rotina da família e a maneira como Isnayra olha para Sávio, de 12 anos, seu filho mais novo. Ela reconhece que sente vontade de protegê-lo ainda mais, mas sabe que precisa encontrar um equilíbrio entre o cuidado e a educação.

“A gente tem que cuidar com um zelo especial, mas não passar a mão, não ser permissiva. Nós o educamos para que seja íntegro, humilde, amoroso. Estamos passando pela fase de adaptação dele a tudo que aconteceu, mas com fé na Virgem Maria nós vamos conseguir”.

O desafio, para ela, é continuar acolhendo o filho sem deixar de estabelecer limites. Uma preocupação que se conecta a um pedido que já fazia a Deus antes da morte de Saimon: que a ajudasse a ser mais amorosa, compreensiva e acolhedora.

Hoje, Isnayra procura levar esse aprendizado para a relação com Sávio. Não quer que o medo de perdê-lo impeça o menino de crescer, assim como não quer que o cuidado se confunda com permissividade.

É nesse equilíbrio que ela procura manter viva a maneira como entende a maternidade: amar, cuidar e orientar, sem deixar de permitir que os filhos construam o próprio caminho. E é também na devoção a Maria que encontra inspiração para seguir exercendo esse papel.

“Eu acho que esse momento agora eu tenho que acolher, que eu tenho que amar, mas eu não posso deixar de educar. E nem superproteger”.