📅 Publicado em 03/10/2026 09h00✏️ Atualizado em 03/10/2026 09h07
Antes mesmo de aprender a olhar para Nossa Senhora de Nazaré como mãe, Eugênio Vale, de 45 anos, aprendeu a enxergá-la pelos olhos da própria mãe, a senhora Fátima Nunes, de 74. A devoção que hoje faz parte da rotina dele, da esposa e dos filhos começou ainda na infância, dentro de casa, nas orações e nos ensinamentos de uma mulher que encontrou na fé uma forma de cuidar da família e de outras pessoas.
“Nossa Senhora vem de berço”, resume Eugênio, em uma frase que à primeira vista parece simples, mas carrega uma história construída ao longo de décadas. A devoção, segundo ele, já vinha dos avós e foi sendo passada de geração em geração. Em sua memória, Nossa Senhora está nas reuniões familiares, nas orações e até nas brincadeiras da infância, quando ele e os amigos se juntavam para jogar bola no terreno próximo de casa.

Era justamente nessa hora que a mãe entrava em cena, já que antes da bola, vinha o terço. O que poderia ser lembrado apenas como uma cobrança materna transformou-se em um dos ensinamentos mais importantes da vida de Eugênio. “Ela sempre cobrava da gente. A gente tinha muitos amigos ali na rua de casa e tinha um terreno grande, um galpão, e a gente jogava bola toda noite. E ela falava: ‘Vocês querem jogar? Tá bom, mas primeiro vocês vão rezar o terço’. Então, esse puxão de orelha era um ensinamento, hoje ela sempre fala que a única coisa que vai deixar é justamente a oração”, recorda.
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Fé com ações
Foi assim que a relação de Eugênio com Nossa Senhora ganhou forma e se estreitou. Dona Fátima ensinava a rezar, mas também mostrava, por meio das próprias atitudes, o significado de colocar a fé em prática, como ensina a Bíblia em Tiago 2:17. Ela aparecia no cuidado com os outros e, principalmente, em uma ação que marcou a trajetória da família: a distribuição de sopa para pessoas em situação de vulnerabilidade.
Segundo Eugênio, a iniciativa começou depois de uma promessa feita pela mãe a Nossa Senhora, através de uma experiência onírica. Ela teria tido um sonho com Maria e, a partir dali, passou a preparar e distribuir sopa para pessoas carentes. Com o passar dos anos e a idade, a atividade diminuiu de intensidade, mas o exemplo permaneceu.
É justamente nesse ponto que, para Eugênio, as duas figuras maternas de sua vida se encontram. De um lado, está a mãe que o ensinou a rezar e que, até hoje, “puxa a orelha” quando necessário. Do outro, Nossa Senhora, a quem recorre nos momentos de aflição e a quem atribui a intercessão diante de Deus.

“A mãe divina e a mãe terrena não têm uma divisão. A mãe terrena é quem está nos ensinamentos, é quem aprendeu e repassa com amor. O que a mãe divina deu de amor ao Pai, a mãe terrena também dá um amor aos filhos”, afirma Eugênio.
A fé herdada da mãe também se tornou um caminho que Eugênio passou a percorrer com a própria família. Hoje, ele e a esposa procuram transmitir aos filhos aquilo que recebeu ainda pequenp. O terço, que antes vinha antes das partidas de futebol, permanece presente na rotina. Atualmente, segundo ele, a família chega a rezar um rosário.
Pedidos, graças e promessas
Em sua trajetória, Eugênio também guarda um pedido especial que, para ele, foi atendido por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. Depois do casamento, ele e a esposa passaram oito anos esperando pelo primeiro filho. A resposta, acredita, veio depois de um pedido feito justamente durante uma missa de cura e libertação, em um momento de oração diante da imagem de Nossa Senhora de Nazaré.
A primeira filha chegou depois daquele período de espera. A experiência reforçou uma certeza que já acompanhava Eugênio desde a infância, de que Maria acolhe os pedidos e os apresenta a Deus, ainda que a resposta não aconteça no tempo esperado pelos homens.
Essa fé também foi importante diante da perda do irmão, há um ano e dez meses. Eugênio lembra que a última fotografia publicada por ele antes de morrer o mostrava rezando. Para a família, a oração se tornou uma forma de atravessar o luto e continuar caminhando.
Neste Círio, a caminhada terá ainda um significado especial. O arquiteto, a esposa e os dois filhos vão percorrer o trajeto como forma de cumprir uma promessa. Para Eugênio, a essência do Círio é de uma multidão que não se reúne apenas pelo movimento das ruas, mas pela fé, pelos pedidos e pelos agradecimentos. E, quando pensa em como gostaria que as pessoas olhassem para Nossa Senhora, ele retorna ao mesmo ensinamento que recebeu em casa: “é preciso pedir, confiar e saber esperar”.

Se pudesse ficar diante de Maria e falar diretamente com ela, Eugênio não faria um pedido. Depois de uma vida inteira aprendendo a confiar, escolheria entregar a própria caminhada. “Seja feita a tua vontade sobre mim, mãezinha. Ela sabe de tudo, cuidou de tudo. Então, mãezinha, seja feita a tua vontade sobre mim”.
É talvez a maneira mais simples de resumir uma devoção que começou no olhar de uma mãe, atravessou a infância, sustentou a família nos momentos de dor e agora segue para uma nova geração. Para Eugênio, Nossa Senhora de Nazaré é parte daquilo que ele recebeu, daquilo que vive e, principalmente, daquilo que pretende deixar para os filhos.

