Uma das mais significativas revisões nos protocolos de hemoterapia do país já está em vigor no Brasil para remodelar a rotina dos hemocentros e ampliar os estoques de sangue. Formalizada pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria GM/MS nº 11.685/2026, a medida atualizou as diretrizes clínicas de aptidão para a doação de sangue, reduzindo períodos de inaptidão temporária e derrubando barreiras etárias históricas. As novas regras trazem fôlego renovado às redes estaduais de saúde e atendem a reivindicações antigas de entidades médicas e doadores assíduos.
Uma das mudanças mais celebradas por especialistas é a flexibilização do limite de idade. Anteriormente, a legislação proibia a coleta de sangue de qualquer pessoa após completar 70 anos. Com a nova norma, doadores regulares e voluntários que completarem 70 anos poderão continuar doando sangue. A permanência fica condicionada à avaliação médica individual e à manutenção de um bom estado de saúde durante a triagem clínica. A mudança reconhece o aumento da expectativa e da qualidade de vida da população sênior brasileira.
“A pessoa que já é doadora regular costuma apresentar uma boa adaptação ao processo de doação. Então quando ela doa sangue, o organismo rapidamente trabalha para repor o volume que foi retirado”, explica a hematologista, Rafaela Ramos, professora do curso de Medicina da Afya Marabá. “A grande mudança está no fato de que a idade deixa de ser considerada sozinha o fator que define a doação ou não. Se o doador estiver em boas condições de saúde e já for doador recorrente, ele continua doando normalmente”.
Leia mais:Outro gargalo histórico na captação de doadores jovens era o longo período de impedimento pós-procedimentos estéticos ou exames preventivos. A nova portaria promove uma redução expressiva nos tempos de espera após tatuagens e piercings, por exemplo, que caiu de 12 meses para quatro meses. Assim como após a realização de exames de endoscopia e colonoscopia, prazo que caiu também para quatro meses.
A portaria também introduz atualizações em consonância com as novas tecnologias de prevenção à saúde. Foram estabelecidos critérios específicos de inaptidão temporária para candidatos em uso de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Pós-Exposição (PEP) contra o HIV, diferenciando os períodos de impedimento de acordo com a via de administração (oral ou injetável).
A norma também reforçou rigorosos protocolos de triagem em relação ao compartilhamento de dispositivos para aplicação de medicamentos injetáveis.
“O grande desafio da hemoterapia é justamente buscar o equilíbrio entre a manutenção do estoque nos hemocentros e garantir que esse sangue seja seguro para quem vai receber. A expectativa é que com a redução de restrições que hoje não são mais necessárias cada vez mais pessoas possam se tornar doadoras”, afirma a médica.
Otimismo nos hemocentros
A expectativa do Ministério da Saúde e dos gestores de bancos de sangue é que a modernização da norma amplie a margem de doadores aptos diários, prevenindo o desabastecimento em períodos críticos como feriados prolongados e meses de inverno.
No Hemocentro Regional de Marabá, o clima é de positividade com a expectativa de uma procura maior de pessoas interessadas e aptas a doar sangue.
Apesar disso, a enfermeira Alane Santos, que atua na unidade, explica que as camadas de segurança pelas quais a bolsa de sangue precisa passar antes de chegar ao receptor não mudaram. “No momento da doação, o doador vai observar que são retirados tubinhos sorológicos para essa análise, né? Tipagem sanguínea, eletroforese, HIV, HTLV, hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, malária, e vai para análise. Então, em 72 horas a gente tem um retorno daquela doação: se aquela doação foi aceita ou não”, detalha.
A enfermeira conta ainda que o hemocentro de Marabá é responsável pelo abastecimento de sangue em unidades de saúde de 17 municípios do sudeste paraense. Por isso, a preocupação é cada vez maior com a manutenção do estoque de bolsas de sangue. Uma bolsa coletada pode acondicionar até 640 mililítros. Um material altamente perecível, que pode aguardar apenas cerca de 30 dias para encontrar um receptor.
“Esse trabalho se torna ainda mais importante em épocas festivas, férias escolares, em que as viagens aumentam, as doações diminuem e a demanda por sangue aumenta. Nessa hora, a gente já começa a busca ativa mesmo. É ligar, captar, convocar dos doadores recorrentes para poder vir doar sangue”, revela Alane. (Divulgação)
