📅 Publicado em 22/09/2026 17h00✏️ Atualizado em 21/09/2026 16h06
Entre seminários sobre poesia medieval e estudos do cancioneiro geral, Gilson Penalva acompanha uma turma de Letras da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) numa manhã de quarta-feira, no Campus 1. A cena resume mais de três décadas dedicadas ao magistério superior, aos livros, à pesquisa e à formação de professores no sudeste do Pará. Aos 63 anos, ele prevê encerrar a carreira em sala de aula no primeiro semestre de 2027, mas pretende continuar ligado à pesquisa e à formação de docentes.
“A gente não deixa de ser professor, de ser educador. Eu acho que essa coisa está no sangue da gente”, afirma em entrevista ao CORREIO, no intervalo de uma aula.
Nascido em 15 de julho de 1963, em uma cidade pequena de Minas Gerais, Gilson passou parte da infância na Bahia e chegou ao Pará ainda jovem, por volta dos 15 anos. Foi em Jacundá que começou a construir a relação com a educação e com a região que mais tarde se tornaria o centro de sua pesquisa acadêmica.
Leia mais:Antes da universidade, trabalhou nos ensinos fundamental e médio. Também participou da organização dos professores e ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) na década de 1980. A experiência aproximou o professor das dificuldades das escolas e da luta por valorização profissional.
Em 1992, iniciou o magistério superior na Universidade Federal do Pará (UFPA), primeiro como professor substituto e depois como efetivo. Com a criação da Unifesspa, em 2013, passou a integrar a nova universidade, que tem sede em Marabá.
Gilson é graduado em Letras e em Direito, mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em Literatura e Cultura das Amazônias. Nunca exerceu a advocacia. Foi ensinando literatura que sustentou a família e construiu sua carreira.
Começou quase do zero
Ao recordar os primeiros anos do curso de Letras, Gilson fala em precariedade. A estrutura universitária era limitada e as atividades se concentravam no ensino. Pesquisa e extensão demoraram mais tempo para se consolidar.
Mesmo nesse cenário, ele considera que a graduação teve papel decisivo na formação de educadores. Projetos como o Gavião, voltado à preparação de professores do ensino médio, cursos intervalares e convênios com municípios levaram turmas a diferentes cidades do sudeste do Pará, entre elas Tucumã e Rondon do Pará.
Muitos ex-alunos se tornaram professores, diretores de escola e profissionais que continuam atuando na educação regional. Gilson cita o professor Valmir, que mantém um cursinho em Marabá. “Apesar dos problemas, o curso de Letras deu uma grande contribuição para a formação de educadores”, resume.
Pesquisa e pós-graduação
Questionado pelo CORREIO sobre como vê o ensino superior nos dias de hoje, o professor avalia que a universidade mudou de perfil nas últimas décadas. A Unifesspa passou a reunir condições para desenvolver pesquisa, extensão e pós-graduação. A região conta com programas como o ProfLetras e o POSLET, e já tem alunos avançando para o doutorado.
Gilson considera essa expansão uma conquista coletiva, pois Marabá tinha poucas pessoas com graduação e enfrentava um ensino médio com escassez de profissionais.
“Essa universidade não é mérito de governo. É mérito do povo dessa região, do movimento social, da luta das pessoas daqui”, afirma. O professor defende a consolidação dos programas existentes e a criação de novos doutorados. “A tendência é a gente melhorar os programas de pós-graduação, para continuar a luta. Não tem como parar”, diz.
A crise das licenciaturas
O jornal também quis saber sobre o futuro do ensino e o interesse de novas gerações pelas Letras. A isso, Gilson reconhece que as licenciaturas atravessam uma crise no Brasil. A desvalorização profissional, a falta de políticas capazes de tornar a carreira mais atrativa e o avanço das tecnologias influenciam as escolhas dos jovens. Ainda assim, observa que o curso de Letras continua procurado e recebe novas turmas todos os anos.
Para ele, a graduação mantém espaço porque atende a quem deseja compreender a linguagem, a literatura e diferentes formas de expressão. No momento da entrevista, ele ministrava Literatura Portuguesa Medieval e Clássica, enquanto os estudantes apresentavam seminários sobre poesia medieval. “Eu sempre falo que sustentei e sustento a minha família dando aula de literatura”, conta.

Amazônia
A identidade amazônica de Gilson foi construída pela experiência. Ele não nasceu na região, mas vive no Pará desde a adolescência e passou a maior parte da vida em cidades paraenses. Por isso, rejeita a forma como algumas pessoas falam da Amazônia como se ela estivesse sempre distante.
Para ele, Marabá e o sudeste do Pará também são Amazônia e essa compreensão orienta o doutorado, os projetos de pesquisa e o trabalho em sala de aula. O professor leva mapas e livros para as atividades e utiliza prosa, poesia, relatos orais e narrativas regionais para discutir identidade, memória, cultura e diferença.
A atuação no mestrado de Letras em Canaã dos Carajás reforça esse compromisso. Gilson defende que a produção amazônica ocupe espaço central na universidade e na escola. A região, afirma ele, possui literatura rica e experiências culturais ainda pouco estudadas. “Eu me sinto amazônida”, resume.
Livros, profissão e família
Gilson tem seis filhos, três homens e três mulheres. As três filhas Kauana, Lorena e Moema Penalva, cursaram Letras. As duas mais velhas fizeram mestrado e doutorado, seguiram os estudos literários e hoje são professoras do Instituto Federal do Pará (IFPA), em Marabá. Moema também passou por Letras, mas depois migrou para o Direito.
O professor atribui a escolha delas pelas letras à influência natural do ambiente doméstico, onde os livros sempre estiveram presentes. Hoje, a relação profissional se transformou em troca entre colegas. Gilson discute pesquisas com as filhas e mantém o hábito de emprestar livros e levar exemplares para as atividades acadêmicas.
O ensino público
A presença da Unifesspa, do IFPA, da UFPA, da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e de instituições particulares fortalece Marabá como polo educacional. O IFPA, onde trabalham Kauana e Lorena Penalva, soma-se à universidade na formação regional. “As coisas precisam somar, agregar”, afirma. Para Gilson, o avanço não elimina a necessidade de valorizar profissionais, melhorar condições de trabalho e garantir políticas permanentes para as licenciaturas.
Aposentadoria
A aposentadoria prevista para 2027 encerrará uma etapa formal, mas não interromperá o vínculo de Gilson com a educação. Questionado sobre o que pretende fazer depois que deixar as salas de aula, após 30 anos de magistério, Penalva admite que vai continuar pesquisando e ajudando na formação de professores.
Às filhas e aos novos docentes, aconselha que aproveitem a riqueza literária da região, ampliem a pesquisa e fortaleçam a pós-graduação. Reafirma, ainda, a importância de ensinar as pessoas a compreender o mundo por meio da linguagem.

