Conforme prometido, a coluna de hoje dá continuidade à listinha de obras fundamentais para a estante literária de todo leitor. Cinco obras irão se juntar aos romances elencados na última coluna. São livros que têm mais que bons enredos e personagens bem construídos: mantêm-se vivos pelos temas que abordam.
VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos: uma história ambientada no sertão nordestino; aqui o espaço também é protagonista. O tema é a seca; é esse fenômeno natural que conduz a vida de Fabiano e Sinhá Vitória, uma família de retirantes. O enredo explora a miséria e a seca no Nordeste. Uma família composta por dois filhos e pela carismática cadela Baleia. A narrativa é uma denúncia da ausência do Estado e da desigualdade social. A pobreza experimentada pelos retirantes é muito bem revelada na limitação, na falta de capacidade de expressar os próprios sentimentos; a seca reflete até na economia linguística dos personagens.
TUDO É RIO, de Carla Madeira: aqui Literatura e Direito se encontram com o objetivo de fazer o leitor refletir sobre a violência de gênero por meio de uma narrativa poética e sensível. A autora aborda com profundidade o ciúme, o amor obsessivo e a complexidade da violência doméstica e familiar contra a mulher. A protagonista Dalva é muito criticada por ter sofrido violência praticada pelo marido, Venâncio, e, contudo, não pedir o divórcio, não denunciar, não pedir medidas protetivas. Dalva simplesmente ficou, aparentemente resignada. Muitos críticos dizem que “Tudo é Rio romantiza a violência”, justamente por Dalva ter perdoado seu agressor. A autora é assertiva ao afirmar que a obra é sobre perdoar o imperdoável.
Leia mais:O CORTIÇO, de Aluísio de Azevedo: obra-prima do escritor maranhense, é uma leitura fundamental; o romance pode ser lido sob muitas perspectivas, mas aqui quero destacar seu principal tema: a desigualdade social. A vida é retratada a partir de uma habitação coletiva que dá nome à obra, o cortiço. As personagens são marcadas pela degradação moral e física. O autor trabalha a imagem estereotipada da mulher negra, sensual e provocativa, por meio da personagem Rita Baiana, mulher de espírito livre, que tem autonomia sobre o próprio corpo. Uma mulher negra que foge do comportamento esperado pela sociedade do século XIX.
A MORTE DE IVAN ILITCH, de Liev Tolstói: obra atemporal pela temática: a morte, a finitude do ser humano, nossa única certeza, nossa maior angústia. A morte, como anuncia o título, é a de Ivan Ilitch, um magistrado de carreira, integrante do alto escalão do serviço público russo, um homem bem-sucedido que conclui, diante da morte, que alcançou estabilidade financeira, mas exerceu uma profissão, ocupou um cargo sem vocação, sem amor. Viveu cercado de pessoas que não amava. Tolstói nos coloca diante de alguém que está morrendo, que sucumbiu a uma doença incurável e que, durante o sofrimento causado pela dor física e pela angústia da proximidade do fim, reflete sobre sua própria vida.
MADAME BOVARY, de Gustave Flaubert: um romance que deu vazão ao desejo feminino por meio da personagem Emma Bovary. É o protagonismo feminino na França do século XIX. O adultério feminino fez o autor ser julgado pela criação de uma mulher que, embora vivendo numa sociedade católica, moralista e patriarcal, vai em busca de aventura e paixão e se comporta como uma caçadora. Uma mulher que, entediada com a rotina do casamento e insatisfeita com a maternidade, buscou satisfazer seus anseios por meio de casos extraconjugais, endividou-se para custear seus pequenos prazeres e agradar seus amantes.
São obras de tempos e países diferentes; livros que vão do século XIX até clássicos contemporâneos; literatura nacional, francesa e russa. O que elas têm em comum? São atemporais por suas temáticas, pois falam da condição humana, dos sentimentos e dos dramas que nos atravessam. A literatura potencializa nossa percepção sobre determinados temas, como estes citados aqui hoje: morte, desigualdade social; estereótipo da mulher negra, violência de gênero. O texto literário nos estimula a reflexão de forma profunda, em razão da conexão que estabelecemos com a história e com as personagens. Aproveite a lista acima, escolha seu livro e boa leitura! Até a próxima semana, querido leitor!
São obras de tempos e países diferentes, livros que vão do século XIX até clássicos contemporâneos: literatura nacional, francesa e russa. O que elas têm em comum? São atemporais por suas temáticas, pois falam da condição humana, dos sentimentos e dos dramas que nos atravessam. A literatura potencializa nossa percepção sobre determinados temas, como os citados aqui hoje: morte, desigualdade social, estereótipo da mulher negra e violência de gênero. O texto literário nos estimula a uma reflexão profunda, em razão da conexão que estabelecemos com a história e personagens.
Aproveite a lista acima, escolha seu livro e boa leitura! Até a próxima semana, querido leitor!
MARI HIPÓLITO
Graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela UNIFESSPA e leitora voraz, por amor e vocação.
