Correio de Carajás

Com desfile mais demorado da história, Marabá reúne 8,6 mil sob sol escaldante

Milhares de marabaenses acompanharam o trajeto de escolas, instituições e militares na Velha Marabá / Fotos: Jefferson Lima
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 07/09/2026 17h48

Há 204 anos, às margens do Ipiranga, Dom Pedro I proclamava a Independência do Brasil. Em Marabá, na manhã desta segunda-feira (7), a história ganhou outras formas, sons e cores. Na Avenida Antônio Maia, na Marabá Pioneira, o verde e o amarelo se misturaram aos uniformes escolares, às fardas militares, às bandas e às bandeiras que tomaram conta da via para mais uma edição do tradicional desfile cívico-militar de 7 de Setembro. Segundo a Secretaria Municipal de Educação (Semed), mais de 8,6 mil participantes passaram pela avenida entre escolas municipais, instituições sociais e tropas das Forças Armadas e de segurança.

Mas um ponto chamou a atenção de quem acompanha os desfiles cívico-militares de 7 de Setembro em Marabá por mais de 30 anos. O longo tempo das apresentações, com quatro horas e meia sob um sol escaldante em temporada de El Nino. Quem não tinha uma sombra e nem um abanador, tinha de se contentar com o calor entre 8h30 até as 13 horas, quando terminou o desfile dos militares.

Entre uma escola e outra, um espaço de tempo muito grande. As forças de segurança e as forças armadas precisaram de apenas meia hora para desfilar suas tropas, suas viaturas e equipamentos. Os desfiles dos anos 1997 até 2020 demoravam, no máximo, 3h30, sempre terminando antes do meio dia.

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Nas calçadas, famílias se acomodavam como podiam. Algumas levaram bancos e cadeiras de casa, outras permaneceram de pé, disputando um espaço de onde fosse possível enxergar melhor. Crianças se equilibravam na ponta dos pés, agitavam pequenas bandeiras e acompanhavam com os olhos cada uniforme que surgia ao longe. A cada nova banda, a expectativa aumentava; a cada apresentação, palmas, gritos e celulares erguidos registravam o momento.

O início estava previsto para às 8h, mas o atraso fez com que parte da programação avançasse para um horário em que o calor já castigava a avenida, a plateia e quem ainda iria desfilar. Próximo ao meio-dia, os termômetros apontavam sensação térmica de 39°C. Ainda assim, o público permaneceu espalhado pelas calçadas, sob sombras improvisadas, guarda-sóis e árvores, resistindo ao sol para não perder a passagem das instituições.

Entre tantos rostos atentos, havia um olhar especialmente emocionado. Dona Nelina de Jesus acompanhava o desfile para ver o neto, Luiz Gustavo Monteiro, tenente do Exército. Ela não escondia o orgulho enquanto aguardava a passagem dele pela avenida e falava sobre a escolha do neto pela carreira militar como quem fala de uma conquista familiar. Para ela, assistir ao desfile não era apenas manter uma tradição de 7 de Setembro, mas testemunhar um momento que carregava um significado muito maior.

Dona Nelina, com um abanador para espantar o calor, aguardava atenta a entrada do neto

“Eu fico emocionada porque meu neto é tudo para mim. Ver ele no Exército, seguindo uma área tão digna, é um orgulho que não cabe no coração. Eu agradeço muito a Deus por esse momento e faço questão de estar aqui acompanhando tudo”, conta Nelina

A emoção se repetia em diferentes pontos da avenida, mas assumia outra intensidade quando entravam em cena as instituições que trabalham diretamente com pessoas com deficiência. Na passagem da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), por exemplo, o público acompanhou com atenção redobrada. Havia aplausos mais demorados, sorrisos, olhos marejados e familiares procurando entre os participantes aqueles que conheciam pelo nome. O desfile, naquele instante, deixava de ser apenas uma demonstração pública e se transformava em espaço de pertencimento, reconhecimento e celebração.

Os alunos da Apae encheram a avenida de inclusão e alegria durante a apresentação

Também havia quem estivesse vivendo a experiência pela primeira vez. Aos 10 anos, Juliana Martins Paixão desfilava pela E.M.E.F. São José. Vestida para a ocasião, ela contou que representava um tema relacionado à inteligência artificial e à tecnologia. Para ela, falar sobre informática para outras crianças era também uma forma de mostrar que a tecnologia pode ser usada para aprender e resolver situações do cotidiano.

Juliana esbanjava sua obra para o desfile, que fala sobre a importância da tecnologia na atualidade

A menina, que antes da apresentação demonstrava ansiedade, logo se entregou à empolgação do momento, cercada pelos colegas e pela movimentação da escola. “A gente está falando de inteligência artificial e informática, porque é importante as crianças aprenderem a usar a tecnologia, e não ficar só mexendo no celular. Se acontecer alguma coisa, por exemplo, a gente também precisa saber como pedir ajuda”.

Para os adultos, entretanto, o significado da data também passava pela transmissão de valores. Um pai que acompanhava a filha lembrou que há cinco anos procura incentivar nela o patriotismo e a participação em projetos escolares. A menina estudou na Escola Mendonça Vergolino e, mesmo depois de deixar a instituição, continuou envolvida nas atividades e voltou à avenida para desfilar tocando flauta.

Na avaliação dele, o papel desses projetos ultrapassa os muros da sala de aula. A música, a disciplina e a convivência proporcionadas pelas atividades ajudam a manter as crianças próximas da escola e criam oportunidades para que elas desenvolvam outros interesses.

No desfile da escola Anísio Teixeira, no núcleo Cidade Nova, cerca de 150 alunos participaram, número que chegou a aproximadamente 170 com a banda. Para a diretora Odinéia Sousa, que acompanha a participação da instituição há seis anos, o momento representa a conclusão de um trabalho que começa muito antes de os alunos pisarem na avenida. O tema escolhido foi meio ambiente e sustentabilidade, levando para o desfile uma discussão que, segundo ela, encontra na escola um dos principais espaços de conscientização.

“O desfile é uma oportunidade de levar para fora dos muros da escola aquilo que a gente trabalha todos os dias. Quando falamos de meio ambiente, estamos falando de qualidade de vida, de bem-estar e do futuro dessas crianças, então trazer esse assunto para a avenida faz com que a mensagem alcance muito mais gente”, conta a diretora.

Mas foi quando as tropas militares começaram a se aproximar que o som da avenida mudou. As bandas ganharam força, os passos ficaram sincronizados e uma onda de aplausos percorreu as calçadas. Crianças apontavam para as viaturas, adultos erguiam os celulares e o público acompanhava com atenção a passagem dos militares. A apresentação militar arrancou uma das maiores reações da manhã, com palmas e manifestações de entusiasmo que acompanhavam o deslocamento das tropas.

Olhares atônitos se espalharam durante as apresentações militares

Somente da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, foram cerca de 1,2 mil militares e 25 viaturas. Para o general Ênio Barbosa, comandante da Brigada, a participação no 7 de Setembro representa uma oportunidade de aproximar ainda mais o Exército da sociedade marabaense e reforçar valores como cidadania e patriotismo. A programação da Semana da Pátria também envolveu cerca de 27 grupos de desfile em atividades realizadas em aproximadamente 16 municípios do Pará e do Maranhão.

General Ênio avalia como positiva a participação do público presente no desfile

“O 7 de Setembro não pertence somente às Forças Armadas, ele pertence a todo cidadão. Quando vemos crianças tão pequenas participando, aprendendo os símbolos nacionais e acompanhando as tropas, percebemos que existe uma tradição sendo construída desde cedo e que esses valores vão passando de uma geração para outra”.

Na avenida, porém, havia espaço para um simbolismo que ultrapassava as fardas e os protocolos. Em determinado momento, uma pequena procissão em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré atravessou o percurso. A imagem da santa avançou em meio à multidão e, por alguns instantes, o movimento da avenida pareceu diminuir. Cabeças se voltaram, mãos se uniram, celulares foram erguidos e o público se curvou simbolicamente diante daquela que, para os devotos, é a Rainha da Amazônia.

O Círio de Nazaré acontece no próximo mês e desde já o convite foi feito à população

Em uma mesma manhã, a avenida havia reunido patriotismo, fé, educação, inclusão, juventude e tradição, costurados pelo som das bandas e pelo calor de uma cidade que decidiu permanecer nas calçadas para assistir a cada apresentação. Em Marabá, a Independência foi celebrada para além dos livros de história como uma tradição viva, ocupando a principal avenida da Marabá Pioneira e reunindo milhares de pessoas em torno de diferentes formas de representar aquilo que se entende por Brasil.