📅 Publicado em 31/08/2026 10h49
Com investimento em tecnologia e inovação, a pecuária brasileira passou por uma transformação profunda e acelerada, evoluindo de um sistema de baixa produtividade para um modelo mais tecnificado e competitivo no mercado global.
Em Marabá, o rebanho bovino chegou a 1,3 milhão de cabeças em 2024. O número coloca o município como o segundo maior rebanho do Pará e o quinto maior do Brasil. Quando se trata de galináceos e suínos, os números são menos expressivos, mas ainda relevantes. Em 2024, a terra de Francisco Coelho contabilizava 560 mil galináceos e 21,3 mil suínos. No mesmo ano, foram produzidas 290 mil dúzias de ovos, o equivalente a 3,48 milhões de unidades.
Estar entre os cinco maiores municípios do Brasil em número de bovinos coloca Marabá em uma posição diferenciada na cadeia da carne. Não se trata apenas de produção rural: existe uma cadeia envolvendo criação, compra e venda de animais, transporte, alimentação, medicamentos veterinários, assistência técnica, frigoríficos, comércio e serviços.
Leia mais:Um rebanho dessa magnitude movimenta uma cadeia econômica extensa. Cada animal envolve gastos e serviços ao longo do ciclo produtivo: pastagem, suplementação, vacinas, medicamentos, máquinas, cercas, mão de obra, transporte, comercialização e abate.
Isso significa que a importância econômica da pecuária de Marabá não deve ser medida apenas pelo valor dos animais. O efeito multiplicador sobre comércio e serviços é bastante relevante. Ter milhões de reais imobilizados em animais não significa necessariamente capturar toda a riqueza gerada pela cadeia.
Existe uma diferença importante entre produzir boi e industrializar a carne. Quanto mais etapas da cadeia permanecem no município, maior tende a ser a possibilidade de geração de emprego e renda local: abate, processamento, frigorificação, produção de subprodutos, couro, logística e distribuição. Nem todo gado que é criado em território marabaense é abatido em frigoríficos locais. Uma parte é vendida em pé, às vezes até exportada.
Um rebanho desse tamanho precisa ser movimentado. Isso aumenta a importância de estradas rurais, rodovias, pontes, postos de fiscalização, transporte de animais, armazenamento e conexão com frigoríficos e centros consumidores.
E aqui existe uma conexão muito interessante com a infraestrutura de Marabá: quanto maior a produção agropecuária, maior a necessidade de uma infraestrutura capaz de escoá-la com segurança e eficiência. A pecuária, portanto, também ajuda a explicar a importância estratégica de investimentos em logística regional.
OUTROS MUNICÍPIOS DO PARÁ
No ranking paraense de rebanho bovino, São Félix do Xingu ocupava e – ainda ocupa – o primeiro lugar, com quase o dobro de cabeças de gado de Marabá. O município tinha 2,5 milhões de bovinos e, também, liderava o ranking nacional.
Na sequência, aparecem outros municípios que integram o cinturão pecuário da BR-230. Novo Repartimento ocupava a terceira posição, com 1,3 milhão de cabeças, seguido por Altamira, em quarto, com 1,1 milhão, e Pacajá, em quinto, com 900 mil. Itupiranga, Novo Progresso, Cumaru do Norte e Água Azul do Norte apareciam, respectivamente, entre a sexta e a nona posições, com cerca de 700 mil cabeças cada. Santana do Araguaia fechava o ranking dos dez maiores rebanhos do Pará, com 600 mil bovinos.
Desde 1960, a produção agropecuária se expandiu para o interior do Brasil. Os resultados mostraram que até 1997 a produção e exportação de grãos eram dominadas pelas regiões do Arco Sul. Em 2017, o Arco Norte já respondia por 21% do volume exportado, de um total de 91 milhões de toneladas, e por 59% da produção nacional, que alcançou 212 milhões de toneladas.
Mato Grosso se tornou o maior produtor de grãos do país, que influenciou a dinâmica espacial da pecuária bovina e na criação de aves e suínos, que se deslocou para o Arco Norte.
Embora o Brasil disponha de infraestrutura logística, o transporte está concentrado nas rodovias (61%). Neste aspecto, a política pública em infraestrutura logística passa por enfatizar investimentos públicos e privados no Arco Norte, intensificar o programa de concessões à iniciativa privada, ampliar o sistema de armazenagem e sua integração com os modais de transporte a fim de promover uma maior integração da porteira aos mercados consumidores.
Pão ou commodity
Colocássemos as atuais lavouras de soja brasileiras uma ao lado da outra, elas ocupariam área equivalente ao estado do Maranhão – ou mais de três vezes o território de Portugal. As plantações de cana-de-açúcar, por sua vez, já ocupam o dobro da área urbana do Brasil, enquanto as pastagens ocupam 154 milhões de hectares de Norte a Sul – área 6,2 vezes maior que o estado de São Paulo.
Somadas, agricultura e pecuária ganharam 81,2 milhões de hectares nos últimos 35 anos, um crescimento de 44,6%; e a soja representa boa parte disso: foi ela a cultura que mais expandiu no período entre 1962 e 2017, saltando de 310 mil para 30 milhões de hectares em área colhida (alta de 9.577%); o aumento de produção foi superior a 29.000%. A cana-de-açúcar, outro monocultivo, teve um crescimento em produção de 2.781% entre 1940 e 2017, com ampliação da área colhida de 53 mil hectares para 9,13 milhões (1.622% mais).
Em sentido inverso, porém, os alimentos basilares da cultura brasileira – arroz e feijão – tiveram redução em sua área de colheita e, também, em seu volume de produção nos últimos anos: o feijão, atualmente, ocupa uma área menor do que ocupava em 1960 (tendo caído de 2,5 milhões de hectares para 2,1); em 1995, produzia-se 2,95 milhões de toneladas desse grão no Brasil, com um pico de 3,46 milhões em 2006.
Em 2017, contudo, a produção caiu para 2,21 milhões de toneladas – abaixo do que se produzia duas décadas atrás. Já o arroz, que nos anos 1960 ocupava 2,97 milhões de hectares em área colhida e cresceu para 4,37 milhões em 1995, caiu para os mesmos 2,97 milhões em 2006 e ainda menos em 2017: 1,72 milhões de hectares. Em termos de produção, o arroz – após crescimento entre 1940 e 1995 – manteve-se estável, variando entre 11 e 12 milhões de toneladas até 2017.

Tamanho do rebanho aumenta a responsabilidade ambiental
A pecuária gera atividade econômica, mas também exerce pressão sobre o território. A expansão da criação bovina pode estar associada à necessidade de abertura ou ampliação de áreas de pastagem. Por isso, um município com um dos maiores rebanhos do país precisa enfrentar questões como desmatamento, degradação de pastagens, queimadas, emissões de gases de efeito estufa, recuperação de áreas degradadas e regularização ambiental.
José Carlos Ramos, que acompanha a movimentação de produção agrícola no sul e sudeste do Pará, observa que isso não significa afirmar que o rebanho de Marabá seja responsável por determinado desmatamento. “É importante separar correlação de causalidade. Mas o tamanho da atividade torna a questão ambiental incontornável”.
Ele também destaca que quanto maior a participação de um município na pecuária brasileira, maior a relevância de mecanismos de rastreabilidade, controle sanitário e regularidade ambiental das propriedades. “Uma cidade com uma pecuária muito grande também fica exposta às oscilações desse mercado. Preço da arroba, custo da alimentação, clima, disponibilidade de pastagens, doenças, mercado externo, câmbio e demanda internacional podem afetar a rentabilidade dos produtores”.
José Carlos Ramos diz que há outro aspecto a observar: um rebanho enorme não significa necessariamente uma população igualmente rica. “Quanto da riqueza produzida pelo rebanho permanece efetivamente em Marabá? Essa pergunta serve para São Félix do Xingu (maior produtor do Brasil) e para Novo Repartimento, nossos vizinhos?”
