Correio de Carajás

“Em Marabá, todo mundo quer fazer tudo na área de estética”, criticam profissionais

Profissionais da área avaliam o crescimento da procura em Marabá / Foto: Magnific
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 27/08/2026 15h19

O que promete beleza, autoestima e transformação pode terminar em complicações graves quando um procedimento estético é realizado por quem não tem habilitação, estrutura ou preparo adequado. Em Marabá, o crescimento acelerado do mercado de estética acende o alerta entre profissionais da saúde, que defendem mais fiscalização e atenção redobrada dos pacientes antes de entregar o próprio corpo a uma intervenção.

A fisioterapeuta dermatofuncional Fabiana Andrade, que atua há mais de 15 anos na área e que também é conselheira municipal de saúde, acompanha de perto a expansão do mercado de estética em Marabá. Na avaliação dela, a cidade vive um “boom” de tratamentos estéticos, movimento que ampliou o acesso aos procedimentos, mas também trouxe preocupação entre profissionais e órgãos de saúde diante da atuação de pessoas sem habilitação adequada.

Enquanto conselheira de saúde, Fabiana afirma que o setor em Marabá é fortemente fiscalizado para prevenir erros / Evangelista Rocha

Como integrante do Conselho Municipal de Saúde, Fabiana afirma que a preocupação deixou de ser apenas uma percepção entre profissionais e passou a exigir medidas de fiscalização. Segundo ela, o órgão já solicitou explicações sobre estabelecimentos onde estariam sendo realizados procedimentos invasivos e pretende realizar visitas em conjunto com outros setores para verificar tanto a formação dos profissionais quanto as condições dos locais.

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“Todo mundo quer fazer tudo. Na saúde, além dos médicos habilitados para trabalhar com estética, você tem que ter uma graduação de nível superior na área da saúde, uma pós-graduação na área de estética e ainda fazer cursos de aprimoramento”, alerta Fabiana, ao destacar que a formação necessária varia conforme o procedimento e a categoria profissional.

Para a profissional, o mercado vem passando por mudanças, e é fundamental que os profissionais mantenham a ética e sigam os princípios da profissão

A preocupação aumenta quando entram em cena intervenções como lipoaspirações, abdominoplastias e lipoenxertias, que, segundo a fisioterapeuta, exigem estrutura adequada e suporte de uma equipe de saúde para eventuais complicações. Ela também observa que a procura deixou de estar concentrada em uma única faixa etária, uma vez que há pacientes jovens, a partir dos 18 ou 20 anos, e pessoas com mais de 80, enquanto o público masculino também passou a ocupar mais espaço, principalmente em tratamentos relacionados ao emagrecimento e ao envelhecimento.

As redes sociais completam esse cenário ao aproximarem profissionais, procedimentos e potenciais pacientes, mas também podem contribuir para a romantização de intervenções e para a formação de expectativas pouco realistas. Fabiana defende que a escolha não seja baseada apenas na divulgação digital e recomenda que o paciente confira o registro do profissional no conselho de classe, sua habilitação para o procedimento e referências de pessoas que já foram atendidas. Para ela, o crescimento do setor precisa ser acompanhado pela mesma velocidade de informação e fiscalização.

Popularização amplia procura

É justamente nesse mercado em expansão que profissionais de diferentes formações vêm encontrando espaço para atuar. A enfermeira Conceição Alves, conhecida na área como Flávia, está há pouco mais de um ano na estética avançada, depois de quase duas décadas na enfermagem e de experiências anteriores junto à cirurgia plástica. Especializada principalmente em procedimentos de pós-operatório, ela atende pacientes que passaram por lipoaspiração, abdominoplastia, próteses e cirurgias faciais, além de mulheres no período após o parto.

Flávia: “O profissional precisa entender o que o paciente quer, mas também mostrar até onde ele pode chegar”

Para Flávia, a mudança não está apenas na quantidade de pessoas que procuram esses serviços, mas também na forma como a estética passou a ser percebida. Cuidados antes associados exclusivamente à aparência passaram a ser procurados também como parte do bem-estar e da recuperação após procedimentos cirúrgicos ou mesmo do parto. O movimento, segundo ela, acompanha uma busca cada vez maior por profissionais especializados.

“Cada vez mais o mercado abrange esses cuidados. Para você ter esse atendimento, tem que ter uma especialização, uma pós, para dar uma qualidade melhor”, afirma a enfermeira, que vê a qualificação como uma necessidade diante da evolução constante dos procedimentos e das tecnologias disponíveis.

O perfil dos pacientes também ajuda a dimensionar essa transformação. Flávia aponta maior concentração entre pessoas de 18 a 40 anos, com objetivos diferentes conforme a idade. Entre os mais jovens, predominam cuidados relacionados à acne e à pele, enquanto procedimentos como toxina botulínica aparecem com maior frequência entre pacientes mais velhos. Embora as mulheres ainda sejam maioria, ela também percebe crescimento da procura masculina, especialmente por tratamentos capilares voltados à calvície e à alopecia androgenética.

A enfermeira destaca a importância da especialização antes de ingressar na área e defende que esse cuidado seja adotado por todos os profissionais

A maior acessibilidade financeira também contribuiu para aproximar esses procedimentos de um público mais amplo, com diferentes faixas de preço e possibilidade de parcelamento. Para Flávia, entretanto, a facilidade de pagamento não pode substituir os cuidados básicos antes de uma intervenção. Ela considera necessário verificar a habilitação do profissional, a procedência dos produtos, o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as condições do estabelecimento, além da realização de exames e avaliação adequada antes de cirurgias.

A preocupação com a segurança se estende ao próprio pós-operatório, etapa que, segundo a profissional, ainda é subestimada por alguns pacientes. O acompanhamento pode envolver drenagem linfática, laserterapia e outros recursos, mas também depende das condições individuais de cada pessoa e da orientação recebida antes da cirurgia. Por isso, ela defende que o paciente não trate o procedimento como uma decisão imediata, baseada apenas no preço ou no resultado visto em outra pessoa.

No fim, as duas profissionais convergem em um ponto central: a expansão da estética em Marabá tende a continuar, mas o crescimento do setor aumenta também a responsabilidade de quem oferece e de quem procura esses serviços. Enquanto Fabiana, a partir da atuação no Conselho Municipal de Saúde, chama atenção para fiscalização, habilitação e estrutura, Flávia reforça a importância da qualificação e do acompanhamento para que a busca por resultados não ultrapasse os limites de segurança de cada paciente.