📅 Publicado em 12/08/2026 11h32✏️ Atualizado em 12/08/2026 11h37
Durante décadas, a imagem da advocacia brasileira esteve associada majoritariamente aos homens. Eram eles que ocupavam os escritórios, os tribunais e os espaços de decisão da profissão. Esse cenário, porém, mudou. Atualmente, a advocacia brasileira passou a ter rosto feminino, e as mulheres já representam a maioria entre os profissionais inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). De acordo com o Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira, até março de 2025, elas representavam 50,8% dos profissionais da área.
A mudança também revela uma transformação geracional. Enquanto profissionais que ingressaram na carreira há duas ou três décadas precisaram conquistar espaço em um ambiente ainda predominantemente masculino, uma nova geração de advogadas chega ao mercado encontrando outras possibilidades. Ainda assim, antigos desafios permanecem, como o preconceito, a desigualdade na ocupação de espaços de liderança e a necessidade de conciliar carreira e vida pessoal.
Mais do que uma mudança expressiva nos números, essa transformação representa as histórias de inúmeras mulheres que construíram suas trajetórias em diferentes momentos da advocacia. São caminhos marcados por escolhas, desafios, conquistas e pela constante busca por espaço em uma profissão que, durante muito tempo, teve os homens como maioria.
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No Dia do Advogado, que está sendo comemorado hoje, quarta-feira, 12, na Câmara Municipal de Marabá, o Correio de Carajás conversou com profissionais de diferentes gerações, com experiências e perspectivas próprias, mas unidas por um ponto em comum: a construção de uma advocacia em que as mulheres possam ocupar, cada vez mais, espaços.
Márcia transforma 25 anos de advocacia em história de luta
Advogada há 25 anos, Márcia Mendonça de Abreu conhece de perto as transformações vividas pela profissão. Ao CORREIO, a goiana conta que escolheu o Tocantins para construir a vida acadêmica e dar os primeiros passos na carreira, mas posteriormente deixou o estado com destino ao Pará, especificamente a Marabá, onde consolidou sua trajetória profissional.
A experiência de Márcia atravessa diferentes fases da advocacia e acompanha de perto a transformação do perfil da profissão. Quando iniciou a carreira, o cenário era diferente do atual. “Eu morava em Gurupi, no Tocantins. Vim para cá em busca de mercado, visando uma perspectiva de crescimento na advocacia. Em razão da riqueza e da diversidade de Marabá, nós temos mais campos”, diz Márcia.
Atuante nas áreas de família, consumidor e trabalhista, a profissional destaca a chegada de um número cada vez maior de mulheres ao Direito. Segundo ela, a advocacia foi, durante muito tempo, um setor masculinizado, mas a busca das mulheres por espaço contribuiu para o crescimento expressivo da presença feminina na profissão. “Com o decorrer dos anos, e com a busca da mulher pelo espaço de decisões, o número foi crescendo. Eu acredito que seja essa busca pela igualdade de gênero e direitos”, destaca.

Em sua fala, Márcia também enfatiza a dupla jornada enfrentada por muitas mulheres, que precisam conciliar a vida profissional com as responsabilidades familiares. “A proporção de trabalho é muito maior. As mulheres conseguem se distribuir nos serviços de casa e trabalhar fora. A mulher consegue se projetar e ocupar esses espaços”, evidencia.
Embora reconheça o crescimento da presença feminina, Márcia pontua que os desafios ainda estão longe de terminar. Entre eles, está a desigualdade de remuneração. “Se formos falar em salários, há estatísticas de que o número de mulheres que ganham acima de cinco salários mínimos é menor que o número de homens”, declara.
Quando perguntada sobre o significado de advogar, Márcia resume sua resposta em uma palavra: lutar. “Representa nossas lutas diárias com relação à Justiça. Passamos o tempo todo buscando melhoria para os jurisdicionados e, consequentemente, para a advocacia. Essa busca é constante na nossa profissão”, finaliza.
A história de Márcia se conecta a uma transformação que ultrapassa a própria trajetória. É parte de uma narrativa construída por muitas outras mulheres que, geração após geração, passaram a ocupar um espaço que antes lhes era restrito.
Joana defende mais mulheres ocupando espaços de decisão
Advogada, mãe, docente, filha e vice-presidente da OAB Marabá, Joana Lima também tem sua trajetória marcada pela luta pela ocupação dos espaços pelas mulheres. Em entrevista, a profissional compartilha experiências e desafios vividos ao longo do caminho dentro do ramo.
Natural do Rio de Janeiro, ela rememora a origem da própria história e a forma como chegou a Marabá. “Sou neta de Maria da Penha e filha de Simone Rodrigues. Gosto de me apresentar assim, porque mais importante do que onde nós estamos é também de onde nós viemos. É algo que me marca e que gosto de evidenciar”, explica Joana.
Após concluir sua formação, a advogada se mudou para Marabá por motivos profissionais. Foi no município que construiu a família e teve os filhos. Depois de 11 anos de atuação no mercado, Joana se considera radicada na cidade que a acolheu.
Ao deixar uma capital para seguir a carreira em uma cidade do interior do Pará, ela conta que os desafios foram inúmeros, especialmente pelas limitações de acesso a informações e a determinados órgãos. “Muitas vezes encontramos dificuldades no acesso à informação, à labuta, pela questão de estarmos na região. Temos mais facilidade por estar na capital e por ter acesso a determinados órgãos”, comenta.
A trajetória de Joana também é marcada por encontros entre diferentes gerações e pela renovação de uma profissão que, ao longo das décadas, mudou seu perfil. Para ela, um dos marcos dessa transformação está justamente na compreensão dos espaços ocupados pelas mulheres na sociedade, sobretudo na advocacia. “Isso é um processo histórico de ruptura, com um espaço que nos era negado de acesso ao conhecimento, onde historicamente nós ficamos incumbidas a um trabalho de cuidado, que muitas vezes era invisibilizado. Muitas vezes, nós, mulheres, fomos obrigadas a estar no seio do lar, no seio doméstico, e não nos era oportunizado atingir o espaço da formação acadêmica”, argumenta.
Segundo a advogada, a ampliação do acesso das mulheres à formação e ao mercado possibilitou não apenas o crescimento numérico, mas também o aumento da representatividade. “Penso que nós precisamos avançar em muitos sentidos, mas também é necessário comemorar aquilo que nós já conquistamos. Entendo isso como uma conquista”, avalia Joana.
Para a vice-presidente, entretanto, um dos maiores desafios da advocacia está em ocupar os espaços não apenas em números, mas também em representatividade, tomada de decisões e ambientes capazes de ouvir as vozes das mulheres. “Hoje nós temos 27 OABs dentro do nosso estado. Destas, apenas seis apresentam mulheres como presidentes. Avançamos, mas em espaço de tomada de decisão não chega nem a 30%. Precisamos ter esses espaços ocupados”, destaca.
Mesmo diante dos avanços, Joana é pontual ao afirmar que os espaços ainda estão sendo construídos e ampliados. Para ela, essa realidade também provoca uma reflexão que ultrapassa sua atuação como advogada e alcança sua experiência como professora do ensino superior.
Além do desafio de ocupar posições de decisão, Joana também chama atenção para a disparidade de remuneração entre homens e mulheres. Ela cita o anuário estatístico da OAB, segundo o qual 73% das mulheres ainda recebem menos que os homens.
A advogada defende que a igualdade, tanto nos espaços de debate quanto na remuneração, é necessária e deve ser construída coletivamente. “Nas áreas que eu leciono, trabalhista, previdenciária, trago esse recorte. Precisamos de uma rede de apoio que venha viabilizar, principalmente, as mulheres para estar em um espaço universitário. Mais do que estar nesse ambiente, é proporcionar que as pessoas consigam realizar os sonhos delas”, completa.
Para Joana, advogar pode ser resumido em uma única palavra: coragem. “É isso que a advocacia exige de nós. Coragem por nós, pelos nossos clientes. É uma profissão que demanda de nós em várias esferas. É uma profissão que nos desafia e nos motiva constantemente”, conclui.
Yasmin desafia preconceitos e aposta na força da nova geração
Entre as profissionais que representam uma geração mais recente da advocacia está Yasmin Campelo. Natural de Tucumã, ela atua há quatro anos na profissão e chegou ao Direito por um caminho que, inicialmente, apontava para outra direção.
No ensino médio, não pensava em seguir a carreira jurídica. Ela relembra que seu interesse estava voltado para as relações internacionais, mas a ausência do curso na região fez com que os planos mudassem. Depois de fazer cursinho, ingressou na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), onde se graduou em Direito entre 2014 e 2018.
Yasmin compartilha que a advocacia não era seu primeiro objetivo profissional. Logo após a faculdade, a advogada chegou a pensar em seguir outros caminhos. “Eu queria prestar concurso público. Ao decorrer da vida, algumas chances foram aparecendo, eu agarrei-as e optei por fazer OAB”, relata.
A chegada da jovem à profissão ocorreu em um momento diferente daquele vivido por advogadas que começaram a carreira há décadas. A presença feminina cresceu, os espaços foram ampliados e as mulheres passaram a ocupar posições antes pouco acessíveis. Mas, segundo ela, isso não significa que as barreiras tenham desaparecido. “Hoje em dia, apesar de termos tantas transformações na sociedade, e tantos direitos garantidos, as mulheres ainda possuem muitas barreiras”, afirma.

De acordo com a advogada, os obstáculos não estão somente no cotidiano. No mundo jurídico, existem inúmeras barreiras, principalmente na relação com clientes e nas audiências. “A nossa relação no dia a dia no Judiciário é bem desafiadora”, enfatiza.
Para a advogada, a presença feminina em posições de liderança também tem um efeito que ultrapassa o próprio cargo. “Uma mulher ter um cargo como advogada, uma líder de um escritório, ela traz aquela questão dos sonhos. Ela está ali ocupando um espaço muito importante”, avalia.
Apesar da liderança e da experiência, Yasmin revela que idade e gênero ainda podem alimentar julgamentos dentro da profissão. Ela compartilha que enfrentou situações em que sua capacidade foi colocada em dúvida justamente por ser uma jovem advogada. “Essa questão traz um pré-julgamento”, revela.
Para ela, a advocacia exige preparação permanente, pois o trabalho envolve processos e histórias humanas. “A advocacia traz muitos desafios. Nós temos que estar estudando e se atualizando o tempo todo, porque não estamos trabalhando somente com Direito, estamos trabalhando com vidas, com futuro de pessoas”, destaca.
A jovem profissional reconhece que os obstáculos continuam presentes, principalmente para mulheres que estão começando, mas encara a própria trajetória como parte da transformação. “Dentro do Judiciário, existe sim esse desafio, principalmente para as mulheres e jovens advogadas. Estamos aqui sempre dispostas a quebrar todas essas barreiras”, argumenta.
A experiência da advogada também passa pela convivência profissional com homens. Em sua trajetória, ela conta que durante muito tempo esteve em ambientes predominantemente masculinos e chegou a ser a única mulher entre as advogadas de seu escritório, o que a fez mudar a visão de seu trabalho.
Para ela, a mudança na composição dos ambientes profissionais acompanha uma transformação maior da própria sociedade, marcada pela busca das mulheres por formação e espaço no mercado de trabalho. “Depois de tanta transformação da sociedade, de trazer a mulher para o mercado de trabalho, dela querer conquistar essa questão da autonomia, de ter mais acesso aos estudos, tudo isso traz uma transformação e faz com que a mulher tenha mais espaço”, finaliza Yasmin.
E talvez seja justamente nessa passagem de uma geração para outra que esteja uma das maiores mudanças da advocacia. Uma mulher que ocupa uma posição para si pode abrir caminho para que outras também se reconheçam naquele espaço. Se para Márcia a profissão significa lutar e para Joana traz a reflexão de coragem, Yasmin define a profissão como dedicação. “Nós nos dedicamos a trazer o melhor para a sociedade. A advocacia é essencial à Justiça e, muito mais, ela é essencial para a sociedade, para o futuro como um todo”, encerra.
