Correio de Carajás

Boom das motonetas elétricas preocupa autoridades em Marabá

Autopropelidos ganham espaço nas ruas da cidade e acendem alerta para uso seguro e para os riscos no trânsito

Mulher pilotando uma scooter elétrica preta em uma avenida movimentada.
A modalidade ganha cada vez mais força nas ruas de Marabá com novos usuários se adequando / Fotos: Evangelista Rocha
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 04/08/2026 10h11

Silenciosos, econômicos e cada vez mais comuns nas ruas de Marabá, os equipamentos de mobilidade individual autopropelidos vêm conquistando espaço entre moradores que buscam alternativas para os deslocamentos diários. A popularização desses veículos, no entanto, também tem levado órgãos de trânsito a reforçarem orientações sobre segurança e o cumprimento das regras previstas na legislação brasileira.

Nas avenidas da cidade, principalmente em bairros mais populosos e em áreas de grande circulação, já é comum encontrar usuários utilizando equipamentos elétricos para trajetos de curta distância. A praticidade, o baixo custo de manutenção e a facilidade de locomoção aparecem entre os principais fatores que explicam o crescimento da modalidade.

O aumento da presença desses veículos nas vias urbanas também tem sido observado pelos agentes de fiscalização. Segundo Thiago Luz, agente do Departamento de Trânsito do Estado do Pará (Detran), a procura por esse tipo de equipamento cresceu nos últimos anos, acompanhando a expansão da oferta no comércio local. Apesar da popularidade crescente, ainda existe muita confusão sobre o que, de fato, caracteriza um equipamento autopropelido. Conforme estabelece a Resolução nº 996/2023 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), são considerados autopropelidos os equipamentos dotados de motor elétrico com potência nominal máxima de até 1.000 watts, velocidade de fabricação limitada a 32 quilômetros por hora, largura de até 70 centímetros e distância entre eixos de até 130 centímetros.

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Acima desses limites, o veículo deixa de ser enquadrado nessa categoria e passa a ser considerado ciclomotor ou outro tipo de veículo automotor, sujeito a exigências mais rigorosas, como registro, emplacamento e habilitação do condutor. De acordo com Luz, a falta de conhecimento sobre essa diferença tem sido uma das principais situações observadas durante as ações de fiscalização realizadas em Marabá. “Muitas pessoas compram o veículo acreditando que ele é um autopropelido, quando, na verdade, ele já se enquadra como ciclomotor. Essa é uma dúvida recorrente e, por isso, o trabalho de orientação tem sido fundamental”, explica o agente.

Agente Thiago, do Detran, explica o que caracteriza um autopropelido, além de reforçar orientações aos condutores

Segundo ele, quando os agentes identificam um equipamento enquadrado corretamente como autopropelido, a abordagem tem caráter predominantemente educativo. Já nos casos em que o veículo exige documentação e o condutor não cumpre as exigências legais, a fiscalização é realizada de forma mais rigorosa.

Regras de circulação

Embora não exijam Carteira Nacional de Habilitação (CNH), licenciamento ou emplacamento, os autopropelidos não estão livres de regras. A legislação determina que os equipamentos devem possuir campainha, indicador ou limitador eletrônico de velocidade e sinalização noturna dianteira, traseira e lateral. Além disso, a circulação deve respeitar critérios específicos.

Em áreas destinadas à circulação de pedestres, a velocidade máxima permitida é de 6 quilômetros por hora. Já em ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, o limite deve seguir a regulamentação estabelecida pelo órgão responsável pela via. Também é possível a circulação em vias urbanas cuja velocidade máxima regulamentada seja de até 40 quilômetros por hora.

Para o agente do Detran, um dos principais problemas está justamente no descumprimento dessas orientações. “As maiores ocorrências que percebemos são veículos circulando em locais inadequados, próximos a caminhões e outros veículos em alta velocidade. Isso aumenta significativamente os riscos para os condutores”, afirma. A preocupação é reforçada pelo fato de que os autopropelidos possuem estrutura reduzida e oferecem menor proteção física em caso de colisões ou quedas.

Mobilidade e economia

Entre os usuários, as vantagens aparecem como principal justificativa para a adoção desse tipo de transporte. O auxiliar administrativo Rafael Ferreira adquiriu seu equipamento há cerca de dois meses e afirma que a mudança trouxe mais autonomia para a rotina. “Antes eu dependia de transporte por aplicativo. Hoje consigo chegar mais rápido ao trabalho e resolver atividades do dia a dia sem precisar esperar”, relata.

Rafael conta que adquiriu o transporte principalmente para trabalhar e já sente mudanças no bolso

Segundo ele, além da economia financeira, a possibilidade de utilizar ciclovias e realizar percursos mais curtos contribui para reduzir o tempo gasto nos deslocamentos. Apesar dos benefícios, Rafael reconhece que o trânsito exige atenção constante, uma vez que os condutores não se arriscam apenas por eles, mas que por vezes o risco vem dos outros.

O usuário também acredita que parte dos condutores ainda desconhece as responsabilidades envolvidas na utilização desses equipamentos. “Vejo muita gente andando sem capacete, na contramão e transportando passageiros de forma inadequada. O ideal é tratar o veículo com a mesma responsabilidade que se teria ao conduzir uma motocicleta”, defende.

A administradora Natália Pirovano acompanha essa transformação há mais tempo. Proprietária de um equipamento autopropelido há cerca de um ano e três meses, ela afirma ter presenciado de perto o crescimento da modalidade em Marabá. Segundo ela, quando adquiriu o veículo, era raro encontrar outros usuários circulando pela cidade. Hoje, a realidade é diferente e os equipamentos passaram a fazer parte da paisagem urbana em diversos bairros.

Para Natália, o avanço é positivo por ampliar as opções de mobilidade e oferecer uma alternativa de baixo custo para deslocamentos cotidianos. Ao mesmo tempo, ela avalia que a popularização ocorreu de forma mais rápida do que a adaptação do trânsito local. Na visão da administradora, muitos condutores ainda utilizam os veículos sem conhecimento básico das normas de circulação, o que aumenta os riscos tanto para quem conduz quanto para os demais usuários das vias.

Natália relata que já testemunhou diversas infrações de usuários de autopropelidos em Marabá

A experiência de quem transita diariamente em diferentes condições dá peso à avaliação. Além de utilizar um autopropelido, Natália também dirige automóvel e costuma se deslocar de bicicleta, o que lhe permite observar o comportamento dos diversos atores que compartilham as ruas da cidade. Segundo ela, ainda falta conscientização de parte dos condutores sobre a necessidade de respeitar veículos menores e compreender que a segurança no trânsito depende da convivência harmoniosa entre todos.

“Eu costumo dizer que vivo o trânsito de três formas diferentes: como motorista, como usuária de um autopropelido e como ciclista. E, justamente por enxergar essa realidade de ângulos distintos, percebo que ainda existe muita dificuldade de convivência nas ruas. Muitos motoristas não estão preparados para dividir espaço com bicicletas, motocicletas ou equipamentos elétricos menores. Ao mesmo tempo, vejo usuários desses veículos circulando na contramão, sem equipamentos de segurança e sem conhecimento das regras básicas de trânsito. O crescimento é positivo porque oferece autonomia e uma alternativa econômica de deslocamento, mas precisa vir acompanhado de informação, responsabilidade e fiscalização. Sem isso, o que surgiu para facilitar a mobilidade pode acabar aumentando os riscos de acidentes”, avalia.

Embora a legislação não exija o uso de capacete para equipamentos autopropelidos, a recomendação de especialistas e agentes de trânsito é que os condutores utilizem equipamentos de proteção individual sempre que possível. Para o Detran, a expansão dessa modalidade de transporte exige uma combinação entre fiscalização, informação e conscientização dos usuários. A orientação é que, antes da compra, os consumidores busquem informações sobre as características técnicas do equipamento para verificar se ele realmente se enquadra como autopropelido. Também é importante conhecer as regras de circulação e respeitar os limites estabelecidos para garantir a segurança dos próprios condutores, dos pedestres e dos demais usuários das vias.

Com presença cada vez mais frequente nas ruas de Marabá, os autopropelidos surgem como uma alternativa de mobilidade urbana. O desafio, agora, é fazer com que o crescimento dessa modalidade seja acompanhado pelo uso responsável e pelo respeito às normas de trânsito.