Correio de Carajás

Ísis Drumond critica mau uso de imagens da cultura marajoara por influenciadores

Jornalista aponta estratégia deliberada de criadores de conteúdo em usar choque cultural para gerar métricas de engajamento

Captura de tela de um post no Instagram de Isis Drummond respondendo a uma pergunta sobre uma polêmica envolvendo a cultura paraense.
Jornalista avalia que esse tipo de conteúdo estigmatiza a visão sobre o Norte
✏️ Atualizado em 16/07/2026 08h06

A jornalista e mestra em Sociologia Política Ísis Drumond publicou um vídeo de reflexão em seu Instagram questionando a abordagem de criadores de conteúdo digital que expõem imagens do búfalo do Marajó, animal que é símbolo cultural no Pará. A crítica tem a ver com os vídeos recém publicados pelos influenciadores Lia Mendonça e MC Daniell, a pretexto de mostrarem a preparação de um “búfalo assado” no Marajó, transformando práticas culturais tradicionais em “espetáculo”.

Drumond estabelece uma distinção fundamental: enquanto para as comunidades ribeirinhas marajoaras a relação com o búfalo é de subsistência, respeito e simbiose cultural — onde o abate e o preparo são ritos herdados de uma sabedoria ancestral — para os influenciadores, trata-se de uma estratégia deliberada de engajamento pelo choque.

Ela reconhece que quem consome carne compreende que o alimento não surge de forma artificial em bandejas de isopor e plástico filme. Porém, ela aponta que existe uma diferença crucial entre o conhecimento dessa realidade e a transformação de práticas culturais em espetáculo.

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Para as comunidades tradicionais ribeirinhas do Marajó, a relação com o búfalo transcende a simples subsistência. Segundo Drumond, trata-se de uma conexão marcada pelo respeito e pela simbiose cultural, na qual o abate e o preparo constituem ritos que herdam a sabedoria daqueles que entendem profundamente a terra e a água.

“É a vida acontecendo em sua forma mais orgânica e desprovida de artifícios”, afirma a jornalista, ressaltando a legitimidade dessa prática quando inserida em seu contexto original.

Drumond também identifica uma “fronteira intransponível” entre o cotidiano do território e a exposição descontextualizada de imagens. A questão central que ela levanta é que conteúdo nunca é neutro. Ele é moldado por intenção, por métricas de engajamento e pela busca incessante de atenção.

Quando criadores abdicam sistematicamente de seus filtros e responsabilidade social, promovendo plataformas de apostas e publicando imagens de forte impacto sem o devido contexto, revelam uma estratégia deliberada de engajamento pelo choque.

O vídeo também observa que o grupo de influenciadores sabe precisamente onde está a linha do aceitável e escolhe deliberadamente cruzá-la. O algoritmo das redes sociais, conforme aponta Drumond, não diferencia entre amor e espanto, entregando indiscriminadamente qualquer conteúdo que gere comentários e reações. Dessa forma, o asco e a repulsa se convertem em métricas de sucesso.

Ao expor na internet imagens isoladas de contexto complexo de costumes locais, sem o devido cuidado ou sensibilidade, os influenciadores alimentam narrativas prejudiciais. A Amazônia, segundo a jornalista, há séculos luta para deixar de ser vista sob a ótica do exótico e do atrasado.

Sem o contexto apropriado, a reação imediata é o reforço do estigma que o restante do Brasil alimenta contra o Pará e, muito especificamente, contra o Marajó.

O marajoara, na perspectiva de Drumond, carrega o fardo doloroso de narrativas externas que oscilam entre a miséria extrema e o isolamento místico, frequentemente reduzido a cenário de barbárie aos olhos de quem assiste de longe.

Transformar a ancestralidade e o modo de vida marajoara em espetáculo grotesco para chocar é, na avaliação da jornalista, prestar um desserviço à própria identidade cultural do povo.

Marajó

Drumond reafirma que o Marajó é potência e delicadeza técnica na sua relação com a natureza. A culinária marajoara é arte, e a arte exige sensibilidade no olhar de quem a compartilha. A conclusão de seu discurso é contundente: a busca por visualizações atropela a ética e o respeito pela terra e pela cultura que a habitam.

A crítica de Drumond insere-se em um debate mais amplo sobre responsabilidade social de influenciadores digitais, a ética do conteúdo viral e os impactos da representação midiática sobre comunidades tradicionais. Seu posicionamento, embora reconheça sua própria “hipocrisia” como consumidora de carne, destaca a importância de estabelecer limites entre o conhecimento informado e a exploração sensacionalista de práticas culturais.