A jornalista e mestra em Sociologia Política Ísis Drumond publicou um vídeo de reflexão em seu Instagram questionando a abordagem de criadores de conteúdo digital que expõem imagens do búfalo do Marajó, animal que é símbolo cultural no Pará. A crítica tem a ver com os vídeos recém publicados pelos influenciadores Lia Mendonça e MC Daniell, a pretexto de mostrarem a preparação de um “búfalo assado” no Marajó, transformando práticas culturais tradicionais em “espetáculo”.
Drumond estabelece uma distinção fundamental: enquanto para as comunidades ribeirinhas marajoaras a relação com o búfalo é de subsistência, respeito e simbiose cultural — onde o abate e o preparo são ritos herdados de uma sabedoria ancestral — para os influenciadores, trata-se de uma estratégia deliberada de engajamento pelo choque.
Ela reconhece que quem consome carne compreende que o alimento não surge de forma artificial em bandejas de isopor e plástico filme. Porém, ela aponta que existe uma diferença crucial entre o conhecimento dessa realidade e a transformação de práticas culturais em espetáculo.
Leia mais:Para as comunidades tradicionais ribeirinhas do Marajó, a relação com o búfalo transcende a simples subsistência. Segundo Drumond, trata-se de uma conexão marcada pelo respeito e pela simbiose cultural, na qual o abate e o preparo constituem ritos que herdam a sabedoria daqueles que entendem profundamente a terra e a água.
“É a vida acontecendo em sua forma mais orgânica e desprovida de artifícios”, afirma a jornalista, ressaltando a legitimidade dessa prática quando inserida em seu contexto original.
Drumond também identifica uma “fronteira intransponível” entre o cotidiano do território e a exposição descontextualizada de imagens. A questão central que ela levanta é que conteúdo nunca é neutro. Ele é moldado por intenção, por métricas de engajamento e pela busca incessante de atenção.
Quando criadores abdicam sistematicamente de seus filtros e responsabilidade social, promovendo plataformas de apostas e publicando imagens de forte impacto sem o devido contexto, revelam uma estratégia deliberada de engajamento pelo choque.
O vídeo também observa que o grupo de influenciadores sabe precisamente onde está a linha do aceitável e escolhe deliberadamente cruzá-la. O algoritmo das redes sociais, conforme aponta Drumond, não diferencia entre amor e espanto, entregando indiscriminadamente qualquer conteúdo que gere comentários e reações. Dessa forma, o asco e a repulsa se convertem em métricas de sucesso.
Ao expor na internet imagens isoladas de contexto complexo de costumes locais, sem o devido cuidado ou sensibilidade, os influenciadores alimentam narrativas prejudiciais. A Amazônia, segundo a jornalista, há séculos luta para deixar de ser vista sob a ótica do exótico e do atrasado.
Sem o contexto apropriado, a reação imediata é o reforço do estigma que o restante do Brasil alimenta contra o Pará e, muito especificamente, contra o Marajó.
O marajoara, na perspectiva de Drumond, carrega o fardo doloroso de narrativas externas que oscilam entre a miséria extrema e o isolamento místico, frequentemente reduzido a cenário de barbárie aos olhos de quem assiste de longe.
Transformar a ancestralidade e o modo de vida marajoara em espetáculo grotesco para chocar é, na avaliação da jornalista, prestar um desserviço à própria identidade cultural do povo.
Marajó
Drumond reafirma que o Marajó é potência e delicadeza técnica na sua relação com a natureza. A culinária marajoara é arte, e a arte exige sensibilidade no olhar de quem a compartilha. A conclusão de seu discurso é contundente: a busca por visualizações atropela a ética e o respeito pela terra e pela cultura que a habitam.
A crítica de Drumond insere-se em um debate mais amplo sobre responsabilidade social de influenciadores digitais, a ética do conteúdo viral e os impactos da representação midiática sobre comunidades tradicionais. Seu posicionamento, embora reconheça sua própria “hipocrisia” como consumidora de carne, destaca a importância de estabelecer limites entre o conhecimento informado e a exploração sensacionalista de práticas culturais.
