Correio de Carajás

Pé na Estrada: Jornalista que cruza o Brasil a pé passa por Marabá rumo ao Guinness

Conhecido como Xavier Pé na Estrada, o jornalista maratonista Lourival Xavier da Silva atravessa o Brasil a pé em busca de um recorde no Guinness Book.

Lourival Xavier, o 'Xavier Pé na Estrada', caminhando em rodovia com mochila nas costas.
Em busca de algo que o coloque em movimento, Xavier encontrou na maratona o significado da busca de ir além / Evangelista Rocha
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 13/07/2026 09h56

Há um ano, o jornalista e maratonista Lourival Xavier da Silva trocou a rotina, a casa e o conforto de uma vida estável por uma missão que muitos considerariam impossível. Conhecido nas estradas como Xavier Pé na Estrada, ele deixou Maceió (AL), no dia 1º de julho de 2025 com um objetivo ousado, o de atravessar os 27 estados brasileiros percorrendo as rodovias do país a pé.

A jornada já o levou por milhares de quilômetros, atravessando cidades, enfrentando chuva, calor intenso, noites sem destino definido e até encontros inesperados com animais silvestres. Nesta semana, durante uma parada em Marabá, Xavier conversou com a reportagem do CORREIO sobre o desafio que pretende concluir apenas em dezembro de 2027.

Natural de Garanhuns, em Pernambuco, ele trabalhou durante 17 anos como jornalista e radialista antes de iniciar a aventura. Embora hoje seja conhecido nacionalmente pelo projeto, afirma que a ideia não surgiu de uma hora para outra. Segundo ele, o desejo de percorrer longas distâncias começou ainda nos anos 2000, quando passou a participar de corridas de rua e maratonas. O sonho foi amadurecendo até ganhar forma definitiva.

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“Eu nasci para não copiar nada de ninguém. Quando percebi que ninguém tinha feito algo desse tamanho, eu disse: eu vou fazer uma história”, conta.

A caminhada é acompanhada diariamente por milhares de pessoas nas redes sociais. Xavier costuma usar o plural ao falar sobre o projeto e faz questão de explicar o motivo. Para ele, a travessia não é construída apenas por quem está nas estradas e também envolve as pessoas que acompanham, incentivam e ajudam durante o percurso.

“Quando eu digo ‘nós’, muita gente pergunta se tem alguém caminhando comigo. Não tem, mas ninguém faz nada sozinho. Tem brasileiros que acordam de manhã e a primeira coisa que fazem é entrar nas nossas redes para saber onde estamos”.

A imagem de um homem caminhando sozinho pelo acostamento pode passar a impressão de improviso, mas a realidade é bem diferente. Xavier afirma que todo o percurso segue um planejamento rigoroso. O objetivo é manter uma média de 100 quilômetros percorridos a cada 20 horas e para tal façanha, ele alterna caminhada e corrida em intervalos calculados, respeitando um cronograma criado antes mesmo da partida.

A pequena mochila que carrega nas costas pesa cerca de 1,5 quilo e reúne apenas itens essenciais para a viagem. O restante costuma surgir graças à solidariedade de pessoas encontradas pelo caminho. Motoristas, comerciantes, moradores e até desconhecidos que acompanham o projeto pela internet oferecem ajuda espontaneamente. Foi assim também em São Domingos do Araguaia, município paraense onde permaneceu por cinco dias antes de seguir para Marabá. Segundo ele, a recepção dos moradores foi uma das mais calorosas que recebeu desde o início da travessia.

Rumo ao Guinness Book

Além do desafio pessoal, a expedição tem outro objetivo: conquistar um lugar no Guinness Book, o Livro dos Recordes. Para isso, Xavier registra praticamente tudo o que acontece durante o percurso. Cada cidade atravessada, cada portal municipal e cada trecho percorrido são documentados em vídeo.

Segundo ele, essas gravações funcionam como prova oficial da jornada. “Foto qualquer pessoa pode tirar em qualquer lugar e dizer que esteve ali. O vídeo mostra a hora, a data e o local. É isso que comprova o caminho que estamos fazendo”.

Até agora, o maratonista já concluiu a passagem pelos nove estados do Nordeste e soma quase 10 mil quilômetros percorridos. O Pará é o 11º estado da rota.

A maior parte do trajeto é realizada pelas rodovias federais. Xavier explica que escolheu as BRs por considerá-las mais seguras para quem passa dias e noites caminhando. Além disso, as estradas permitem que ele atravesse dezenas de municípios sem precisar se afastar do percurso principal.

Entre onças e saudade de casa

Se a distância impressiona, os desafios encontrados na Região Norte tornaram a aventura ainda mais complexa. O jornalista afirma que essa é a etapa mais delicada da viagem, principalmente pela presença constante da fauna silvestre nas proximidades das rodovias. Em uma das situações mais marcantes, relatou ter caminhado por aproximadamente um quilômetro ao lado de uma onça durante a noite, em um trecho próximo ao município tocantinense de Fortaleza do Tabocão.

Apesar do encontro, diz que nunca encarou os animais como inimigos. Para ele, muitos dos acidentes envolvendo a fauna são consequência direta do avanço do desmatamento e da redução dos espaços naturais. Ao longo da caminhada, já retirou animais da pista para evitar atropelamentos e afirma que a regra é sempre respeitar a natureza.

“Eu jamais vou ter medo de uma onça porque ela passou na estrada. Vou respeitar ela. Os animais estão ali porque aquele espaço também é deles”.

Mas nem as onças representam o maior desafio. A saudade da família costuma pesar mais. Casado e pai de um filho de 28 anos, Xavier lembra que a esposa foi uma das primeiras pessoas a reagir com preocupação quando ouviu falar do projeto. Hoje, porém, ela se tornou uma das maiores apoiadoras da iniciativa.

A distância também trouxe uma rotina marcada por incertezas. O viajante raramente sabe onde fará a próxima refeição ou onde passará a noite. “Você pode me perguntar onde vou almoçar amanhã. Eu não sei. Onde vou dormir? Também não sei. Só tenho certeza de uma coisa: vou chegar em casa”.

A previsão é concluir a travessia em dezembro de 2027. Caso receba alguma premiação financeira relacionada ao recorde, Xavier já definiu qual será o destino do recurso.

Ele pretende doar o valor para instituições que atuam no tratamento do câncer. A decisão é motivada por uma perda pessoal. Sua mãe morreu em decorrência da doença, experiência que marcou profundamente sua vida.

Enquanto o destino final ainda está distante, o jornalista segue acumulando quilômetros e histórias pelas estradas brasileiras. Entre postos de combustível, acostamentos, cidades desconhecidas e paisagens que mudam a cada estado, Xavier continua avançando rumo ao objetivo de transformar uma caminhada solitária em um feito histórico.