📅 Publicado em 06/07/2026 15h51
A abertura do semestre letivo da Faculdade de Educação do Campo (Fecampo), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), foi marcada, nesta segunda-feira (6), por um amplo debate sobre o protagonismo dos povos indígenas na construção da universidade pública. Com o tema “Políticas Públicas, territorialidades e insurgências dos Povos Originários e populações tradicionais da Amazônia”, o Seminário de Abertura do Tempo Universidade reuniu estudantes, pesquisadores, lideranças indígenas e representantes de movimentos sociais para discutir o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos povos da região.
Inicialmente previsto para o Campus III, o evento precisou ser transferido para o Campus I da Unifesspa devido ao desligamento emergencial da energia elétrica na unidade. A mudança de local não alterou a programação, que manteve as atividades ao longo do dia, incluindo mesas de debate, lançamento de livro, apresentações culturais e uma banca de defesa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
O principal destaque da programação foi a apresentação da proposta de criação da Licenciatura em Pedagogia Intercultural Indígena, projeto desenvolvido pela Fecampo em diálogo direto com povos indígenas do sul e sudeste do Pará. A iniciativa busca oferecer uma formação específica para professores indígenas da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, respeitando as diferentes línguas, territorialidades, cosmologias e formas de produção de conhecimento presentes nas aldeias da região.
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A proposta representa uma mudança na forma como a universidade se relaciona com os povos originários. A construção do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) ocorreu por meio de consultas realizadas diretamente nos territórios indígenas, seguindo os princípios da consulta prévia, livre e informada previstos na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Lideranças tradicionais, professores indígenas, organizações representativas, além da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), participaram da elaboração da proposta.
Entre os diferenciais do curso está a adoção da Pedagogia da Alternância, metodologia que divide a formação entre o Tempo Universidade, realizado no campus da Unifesspa, e o Tempo Aldeia, quando as atividades de ensino, pesquisa e extensão acontecem diretamente nas comunidades indígenas. A proposta também prevê a organização das turmas por territorialidades linguísticas, contemplando povos como Awaeté-Parakanã, Mebêngôkre-Kayapó, Gavião, Guarani Mbya, entre outros presentes na região.
O currículo foi estruturado com base no princípio da paridade epistemológica, reconhecendo os conhecimentos indígenas em igualdade de importância com os saberes produzidos pela tradição acadêmica. A proposta ainda prevê a participação de pajés, mestres da tradição oral, artesãos e outros guardiões dos conhecimentos tradicionais como formadores, além da possibilidade de elaboração dos Trabalhos de Conclusão de Curso em línguas indígenas e da criação de um conselho permanente composto por lideranças e estudantes para acompanhar o desenvolvimento da graduação.
Para o professor Hiran de Moura Possas, da Faculdade de Educação do Campo, iniciativas como essa reafirmam o compromisso da universidade com os povos da região. “A Unifesspa é uma pluriuniversidade. Esse debate reafirma a insistência e a reexistência dos povos do campo, das águas e das florestas em ocupar um lugar que é seu: essa universidade e essa região. Os projetos são o reconhecimento de suas pautas históricas”, afirma.
A proposta da Licenciatura em Pedagogia Intercultural Indígena ainda seguirá os trâmites institucionais para implantação. Caso seja aprovada, será uma das primeiras iniciativas dessa natureza na Amazônia Oriental, fortalecendo a formação de professores indígenas e ampliando a presença dos povos originários na construção das políticas de ensino superior da região.
Ao abrir o semestre letivo com esse debate, a Fecampo reforça sua vocação de atuar junto às populações do campo, das águas, das florestas e dos territórios tradicionais, colocando em evidência uma concepção de universidade que busca dialogar com a diversidade de saberes existentes na Amazônia e ampliar a participação dos próprios povos indígenas na definição dos caminhos da educação superior.
