Correio de Carajás

Mais de 5 mil mulheres aguardam por cirurgias em Marabá em meio à crise na saúde

A situação expõe a falta de planejamento e a dificuldade da gestão atual em dar vazão à demanda reprimida

Mesmo com o advento do Centro de Cirurgias, fila segue enorme na espera pelo atendimento

A saúde pública de Marabá atravessa um momento crítico, com problemas que se acumulam e afetam diretamente a qualidade de vida da população. No centro dessa crise está um dado alarmante: um levantamento recente do Conselho Municipal de Saúde revelou que cerca de cinco mil mulheres aguardam na fila por cirurgias ginecológicas no município, especialmente procedimentos de histerectomia. A situação expõe a falta de planejamento e a dificuldade da gestão atual em dar vazão à demanda reprimida.

O problema veio à tona com mais força no dia 23 do mês passado, quando denúncias apontaram a paralisação das cirurgias ginecológicas pela prefeitura. Oito dias após a denúncia, o Conselho de Saúde constatou a gravidade da situação. Ao realizar uma visita de fiscalização à clínica responsável pelas cirurgias eletivas, os conselheiros encontraram resistência para acessar informações básicas sobre a fila de espera.

“Por que eles não podem nos passar [os dados]? Estamos aqui para isso. Você tem uma planilha que alimenta diariamente. Então, essa é a minha graça para as pessoas não terem entrado no centro cirúrgico”, questionou um dos membros do Conselho durante a fiscalização, apontando para a falta de transparência na gestão da fila.

Leia mais:

Falta de soluções

Enquanto a prefeitura não apresenta uma solução definitiva, milhares de mulheres continuam sofrendo. Informações extraoficiais indicam que a gestão municipal estaria tentando, somente agora, credenciar uma nova clínica no núcleo Morada Nova para atender prioritariamente as cirurgias de histerectomia. No entanto, devido à falta de transparência da Secretaria de Saúde, não há garantias de quando — ou mesmo se — esse credenciamento será efetivado.

Urgência

A conselheira municipal de saúde, Dora Silva, destacou a urgência do problema e o impacto na vida das pacientes. “A gente sabe que para nós, mulheres, a questão das traqueotomias e histerectomias é muito complexa. É um quadro que tem se agravado bastante e não tem evoluído. Hoje, são inúmeras mulheres que ainda permanecem na fila com sangramento, com um quadro bem grave de alta complexidade. Há uma carência enorme e uma necessidade urgente dessas cirurgias ginecológicas”, alertou.

Diante do cenário, a comissão técnica do Conselho planeja realizar novas apurações e cobrar da Secretaria Municipal de Saúde não apenas esclarecimentos, mas uma resolução imediata para o problema que mantém milhares de mulheres em sofrimento contínuo.

Caos generalizado

O drama das cirurgias ginecológicas não é um caso isolado, mas sim o reflexo de um sistema de saúde sobrecarregado e com falhas estruturais evidentes. O Conselho Municipal de Saúde já havia alertado, em abril deste ano, que a fila geral por consultas especializadas, exames e cirurgias no município ultrapassava a marca de 9 mil pacientes. Um dos gargalos mais graves está na oftalmologia: há uma fila estimada em cerca de dez mil pacientes aguardando por cirurgia de pterígio, conhecida popularmente como “carne crescida”.

No Hospital Municipal de Marabá (HMM), denúncias sobre falhas no atendimento na ala infantil também ganharam repercussão, com famílias expondo a falta de estrutura e de profissionais suficientes para atender a demanda.

Para agravar o cenário, Marabá perdeu oportunidades importantes de investimento federal. O município ficou de fora do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) da Saúde, do Governo Federal, que destina bilhões de reais para a construção de novas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

A ausência de Marabá nesse programa significa a perda de recursos fundamentais que poderiam ajudar a desafogar o sistema municipal, ampliar a rede de atenção básica e melhorar as condições de trabalho e atendimento na cidade.

O acúmulo de filas para cirurgias, a superlotação nas unidades de urgência e a perda de verbas federais desenham um quadro de crise profunda na saúde pública de Marabá. Enquanto as soluções não saem do papel, a população — especialmente as milhares de mulheres que aguardam por intervenções cirúrgicas — continua pagando o preço da ineficiência administrativa.