📅 Publicado em 19/06/2026 16h15
As crônicas da coluna Ouriço Cheio, que recheiam as páginas do jornal CORREIO com o suprassumo da poesia amazônica marabaense advinda das mãos do jornalista Ulisses Pompeu, encontraram, na noite desta quinta-feira (18), dezenas de fiéis leitores e amantes da literatura desse profissional.
O projeto Aquarela Cultural, desenvolvido por alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Geraldo Veloso, que neste ano carrega como tema “Contos e Encantos da Floresta”, tem como objetivo reconhecer, homenagear e saudar escritores da Amazônia. Em um gesto de admiração e pertencimento, os alunos do terceiro ano decidiram reverenciar a obra de Pompeu, que, com sua delicadeza, esperteza e o olhar de um apaixonado por Marabá e suas belezas, escreve semanalmente sua coluna tomada de ternura.
A professora Meire Amorim resume o significado da escolha do homenageado. Segundo ela, a proposta foi apresentar aos estudantes não apenas o jornalista já conhecido por muitos, mas principalmente o cronista sensível por trás das palavras.
Leia mais:“Escolhemos um autor nosso, que tem toda uma história no jornalismo, mas principalmente como cronista, que era nosso objetivo maior. Queríamos conhecer esse outro lado e foi um processo de encantamento. Nem todos conheciam o Ulisses cronista, então começaram a pesquisar, ler as crônicas e compartilhar entre si. Esse trabalho despertou o lado leitor dos alunos e trouxe uma riqueza de conhecimento muito grande”.

“Para mim, foi como receber um astro”
Cartazes, poemas, leituras e apresentações artísticas foram preparados com carinho pelos alunos, que aguardavam ansiosos à chegada da estrela da noite. Após mergulharem nas crônicas de Pompeu, os olhares atentos se voltaram para o portão da escola. Sim, Ulisses Pompeu atravessava a entrada principal acompanhado da família para receber a justa homenagem.
Entre os olhares admirados e brilhantes de quem testemunhava uma lenda viva do jornalismo e da literatura marabaense, estavam os olhos da aluna Jennifer Gabriela Pereira. Desinibida e eloquente, ela não poupou palavras ao descrever o momento e destacou a importância de os jovens manterem contato com autores da própria terra. “Participar deste momento é algo marcante, certamente algo que vou levar para a vida inteira. Imagine organizar uma ornamentação na escola para homenagear um escritor local que valoriza a cultura, a comunidade, a dor e a vivacidade do nosso povo. Para mim, foi como receber um astro, a escrita dele está viva na nossa comunidade”.

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a releitura artística da crônica “Maio despedaçado”, texto sensível escrito por Pompeu em maio de 2022, que retrata o trágico fim de três crianças em Marabá, cujas vidas foram brutalmente atravessadas pela dor da morte.
Quem teve o tato e a sensibilidade de transformar aquele texto em movimento foi a aluna Sara Capelli, que levou a dor da narrativa ao palco por meio da dança. “Foi muito importante para mim porque essa coreografia representa aquelas crianças que, por mais que não estejam mais vivas, ainda permanecem entre nós. Quis mostrar que uma obra tão intensa, cheia de sentimentos, também pode ser contada pela dança”.

“Eu vi o brilho nos olhos dos alunos ao ver o Ulisses”
Quem também testemunhou toda a emoção da noite foi Jefferson Lima, social media do Correio de Carajás, que além de registrar cada detalhe, acompanhou de perto o impacto da homenagem. Inclusive um momento raro: ver Ulisses Pompeu chorar.
A emoção veio durante a leitura de uma crônica escrita pela própria Jennifer em homenagem ao cronista. “Ela fez o Ulisses chorar. Foi uma crônica muito bonita, surpreendeu ele, a esposa, a filha… todos. Me marcou muito ver o brilho nos olhos dos alunos quando ele chegou, parecia que o herói deles tinha acabado de entrar. Dava para perceber que eles não fizeram aquilo apenas por nota; eles realmente foram impactados pela obra dele”.
Fala, Pompeu!
Para o colega (e chefe) Ulisses Pompeu, ser homenageado como cronista pelos alunos foi uma experiência difícil de traduzir completamente em palavras.
Senti-me profundamente lisonjeado, mas, acima de tudo, tomado por uma alegria serena ao perceber que existe uma nova geração disposta a se apropriar da cultura regional, das nossas histórias e, principalmente, da literatura produzida na Amazônia
Em tempos de tanta velocidade e consumo instantâneo, ele observa que encontrar jovens que dedicaram tempo para ler, interpretar e transformar em arte aquilo que escrevemos é um sinal de que nossas narrativas continuam encontrando abrigo e eco. Ulisses também confessou ter se emocionado com a crônica produzida e lida por Jennifer e que ali, segundo ele, havia mais do que uma leitura: havia compreensão, sensibilidade e entrega.
“Também me emocionei profundamente com a releitura cênica de uma das 467 crônicas que escrevi ao longo de 11 anos. Em cada movimento do corpo da aluna Sara Capeli eu conseguia sentir as três crianças citadas na crônica agonizando antes da morte. Ver aquela dor transformada em linguagem artística foi perceber que a literatura, quando encontra leitores atentos, deixa de ser apenas texto e passa a existir novamente, agora em outras vozes, outros corpos e outros sentimentos”, expressa.
Ulisses Pompeu, que nesta semana viveu milhares de vidas em sete dias, lançou mais um livro sobre suas amigas de vida, as castanheiras, e documentou a importância de símbolos que ajudam a contar a história da cidade. Professor, jornalista, autor, pai, avô, filho e amigo de muita – mas muita gente –, vem narrando comportamentos, notícias, tendências, tristezas, amores e desamores de uma cidade inteira em constante transformação.
Seu público aguarda, com carinho, a cada quinta-feira de Ouriço Cheio, o que ele nos reservou para colorir nossos olhos com tamanha delicadeza e ousadia que só Pompeu é capaz de documentar. A ele, nosso muito obrigado também daqui da redação do CORREIO, e que o tempo possa nos presentear com mais e mais crônicas, memórias e sensibilidades.
