Correio de Carajás

Público celebra lançamento de “Castanheiras do Asfalto” em Marabá

Autoridades convidadas à mesa para prestigiar o lançamento de “Castanheiras do Asfalto”/Fotos: Breno Pompeu
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 17/06/2026 17h10

Se uma castanheira pode viver mais de 800 anos, quanto tempo leva para que um livro sobre ela seja escrito? Através da genialidade e das mãos do jornalista e escritor Ulisses Pompeu, essa odisseia durou 10 anos. Tempo suficiente para pesquisar, registrar e escrever. Findada a década, Marabá, enfim, foi presenteada com mais uma obra que documenta sua história.

Na tarde quente de terça-feira (16), sob a copa de uma gigantesca árvore amazônica, Ulisses lançou ‘Castanheiras do Asfalto’. Ao longo de 124 páginas ilustradas, a obra conecta passado e presente da árvore que já foi o pilar da economia marabaense.

O local escolhido para o evento é simbólico: o pátio da Secretaria Municipal de Agricultura (Seagri), ao lado da castanheira de 6,20 metros de circunferência. Uma verdadeira protagonista.

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Com seu jeito jocoso, Ulisses relembrou o tempo em que a mãe transformava a castanha em leite e misturava com a polpa do cupuaçu. O alimento enchia a barriga e aquecia o coração.

Após 10 anos de pesquisa, Ulisses Pompeu lança ‘Castanheiras do Asfalto’

Mas, muito além de entregar o legado em formato de livro, Ulisses firmou um compromisso com todos os presentes: que todos se tornem guardiães das castanheiras.

E quem assumiu a missão antes mesmo de ela ser anunciada foi Renalúcia de Jesus Dias, de 73 anos. Marabaense de nascimento, ela passou anos na Alemanha, mas o amor pelos filhos e pela terra de Francisco Coelho falou mais alto e ela retornou. E foi através da TV Correio que ela ficou sabendo do lançamento do livro.

Renalúcia descobriu sobre o lançamento pela televisão e fez questão de prestigiar/Foto: Evangelista Rocha

“Me interessei porque o livro dos 100 anos de Marabá eu já tenho, e esse das castanheiras mexeu muito comigo porque eu sou muito da cultura. Quando eu vi, já disse: vou para esse evento nem que seja sozinha. Cheguei aqui e vou te dizer, tô maravilhada”, conta, emocionada, Renalúcia.

Técnica de enfermagem de profissão e artesã por amor, ela não conteve as lágrimas ao falar sobre a cidade que tanto ama. Onde nasceu e onde quer descansar. Assim como o livro, seu choro é uma declaração de amor por Marabá.

AO MESTRE, COM CARINHO

Familiares, amigos, admiradores e colegas de trabalho estiveram sob a copa da castanheira da Seagri para prestigiar Ulisses e sua obra. Alunos de uma turma do 3º ano do Ensino Médio da Escola Geraldo Veloso também estavam ali.

Entre os presentes, uma figura se destaca pela aura de quem sabe muito sobre a árvore majestosa: Vitória Barros. Artista plástica, ela é reconhecida pelo próprio autor como uma grande conhecedora de castanheiras.

“Não sei nem que palavras usar para agradecer esse livro dele, porque eu sei que vai ser um benefício muito grande para Marabá”, declara a artista com um tom orgulhoso.

Vitória doou obra de arte de castanheiras para ser sorteado no evento

Vitória reforça que o livro é uma importante ferramenta educativa e um registro da memória desta terra. “A linguagem jornalística do Ulisses é muito primorosa e ele é muito cuidadoso com a pesquisa”, reflete.

Além de sua presença marcante, Vitória doou uma obra de arte para ser sorteado no evento. Como boa parte de suas obras, a pintura retrata e exalta a figura da castanheira.

Quem também esteve lá foi o educador Francisco Xavier, mais conhecido como Javier de May-ra-bá, relembra a infância ao lado de Ulisses ao contar que ambos nasceram no tempo em que as castanheiras efervesciam em Marabá. Época esta em que, nos dias de inverno amazônico, barcos carregados desciam pelos rios.

Xavier relembra que ele e Ulisses nasceram no auge dos castanhais

“Eram os barcos descendo e a gente tomando banho nessas águas, ou descarregando os pentas do Dionor Maranhão e do Nelito Almeida. É com grande satisfação que a gente vê esse trabalho, meu amigo tá de parabéns pela iniciativa”, conclui Xavier.

Para Marcone Leite, secretário municipal de Agricultura, o trabalho de Ulisses é de grande relevância cultural e histórica: “O livro representa tão fortemente a nossa região, principalmente a cidade de Marabá. Porque nossa história está intimamente ligada às castanheiras”.

Marcone afirma que a obra é importante para guardar a história de Marabá

Os elogios à obra nascem de um lugar mais profundo do que o carinho pelo autor. Ao contar a história das majestosas árvores que se espalham por Marabá, o livro se torna um arcabouço de conhecimento sobre a cidade. De maneira intrínseca, os castanhais ditaram o ritmo do ciclo econômico e o cenário político da região. Como o livro bem diz:

“A castanheira, com seu tronco monumental e sua sombra generosa, sustentava mais do que famílias extrativistas. Sustentava projetos políticos inteiros”.

PRESERVAÇÃO E VIDA

‘Castanheiras do Asfalto’ entrelaça em sua teia fatos históricos, textos jornalísticos e cenas do cotidiano. Para quem não é filho desta terra, como observa a jornalista Luciana Marschall, essa trama é uma oportunidade para aprender sobre a cultura e a construção da cidade.

“Já acompanho o trabalho do Pompeu há alguns anos e, há bastante tempo, ele falava que estava desenvolvendo esse livro. Eu estava ansiosa para ver o resultado, ver de que forma ele fez essa união”, diz Luciana.

Em suas mais de 120 páginas, o livro vai além de transbordar amor pela espécie centenária. Faz ainda um alerta sobre o risco de seu desaparecimento. Quem reforça essa inquietação é Josélia Leontina de Barros Lopes, promotora de Justiça de Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo de Marabá.

Promotora ambiental, Josélia reflete que, além de belo, o trabalho é importante para conscientizar sobre a derrubada ilegal de castanheiras

“Tenho recebido inúmeras denúncias de desmatamento e a maior parte delas é de castanheiras. Então, é muito importante falar, mostrar para a população a importância, a beleza e como elas estão ameaçadas. E o Ulisses faz isso de forma lúdica”, compartilha Josélia.

Quem reverbera a fala de Josélia é Alexssandra Muniz Mardegan, promotora de Justiça Agrária. Ela acrescenta que o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) recebe informações de árvores que são cortadas – ilegalmente – e vendidas por um valor irrisório.

“Para nós, esse livro é muito significativo. Ele mostra que nós estamos vivendo essa história e que a castanheira, além de alimento, faz parte da cultura do nosso povo e das comunidades tradicionais. Essa obra vai servir, sem dúvida, para despertar a sociedade para a importância da preservação dessa árvore tão majestosa”, afirma Alexssandra.

Promotora Alexssandra alerta que castanheiras derrubadas ilegalmente são vendidas a um valor irrisório

Entre as autoridades presentes no evento de lançamento, estava Simone Felinto, delegada e diretora da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil. Há anos cruza os caminhos de Ulisses por conta da profissão. Mas a relação não ficou restrita aos corredores da delegacia e nem às páginas do jornal.

“Pessoalmente, eu e minha família temos um carinho especial pelo Ulisses como autor. Mas também estou aqui em nome da Polícia Civil. Como escritor, ele deixa uma marca em todos nós, pela maneira como traz a história de Marabá”, declara Simone.

Ela crê, ainda, que a obra é uma importante ferramenta de pesquisa para estudantes que queiram conhecer melhor a história do município.

Mas quem vem de fora também é curioso. Pessoas como Elizabete Ribeiro, jornalista. Desde antes de vir morar em Marabá, ela já conhecia a preciosa amêndoa, mas só aqui descobriu a relação simbiótica entre a cidade e a castanheira.

“É uma tristeza saber que essa espécie está desaparecendo e é louvável que alguém faça o registro dessas árvores enquanto estão de pé. Tenho também muito apreço pelo autor e parabenizo o Ulisses pela iniciativa. Esse registro fará muita diferença para as próximas gerações”, divide a jornalista.

Quem também se encantou pela obra é Samantha Andrade de Araújo, bibliotecária. Ela foi convidada por Ulisses para elaborar a ficha catalográfica, uma espécie de certidão de nascimento do livro.

“É uma obra que me deixou fascinada e eu me emocionei muito. Como bibliotecária, eu digo que esse livro é importante para preservar a memória, difundir a cultura e falar também para os mais jovens sobre quanto tempo essa castanheira já existe aqui. É justamente fazer com que o conhecimento seja transmitido e se perpetue ao longo dos anos. Essa é uma obra que realmente vai ficar marcada na cidade, não tenho dúvida. A gente espera que outros escritores possam se inspirar na obra do Ulisses e continuem produzindo trabalhos para o nosso município”, reflete Samantha.

COR DE CASTANHEIRA

O lançamento de ‘Castanheiras do Asfalto’ coincidiu com o belo anoitecer marabaense. No pátio da Seagri, pouco antes de as sombras da noite lançarem seu véu sobre o público presente, o experiente ‘Rei da Castanha’, de 66 anos, foi o artista de um show à parte. Com um pedaço de pau e um facão, ele descascou diversas amêndoas ao vivo.

Seu nome de batismo é Cleverson Pereira Silva, mas isso poucas pessoas sabem, porque o ofício se tornou alcunha. Natural do Piauí, ele chegou a Marabá em 1979 atraído pelo garimpo. O ouro de Serra Pelada não foi suficiente, mas o Rei da Castanha encontrou sua riqueza dentro do ouriço.

“Eu corto 50 quilos de castanha todos os dias. Com ela não tem crise, todo lugar que eu chegar eu vendo. Aprendi anos atrás, lá em Belém, e hoje eu sou o rei da castanha”, diz em tom apressado.

A pausa para a entrevista foi quase um incômodo, porque o verdadeiro holofote do rei é o fruto marrom da castanheira.

O Rei da Castanha encontrou na amêndoa o seu tesouro diário

EM AGRADECIMENTO

Em sua fala durante o evento, Ulisses não se emocionou durante os agradecimentos. Um tanto nervoso com toda a atenção e carinho, ele expressou gratidão pelo trabalho conjunto realizado com Mariuza Giacomin, pelo apoio da esposa Ana Raquel e da filha Brenda Pompeu, e, também, pela grande parceria com o filho Breno Pompeu.

Ele também exaltou o trabalho estético do designer Cildo Rodrigues, que elaborou o projeto gráfico e diagramou todas as páginas e a capa.

Para que a obra ganhasse vida e fosse disponibilizada de maneira gratuita, inclusive para bibliotecas e escolas, algumas entidades foram essenciais. Com patrocínio da Vale, Mirante Empreendimentos e Grupo Correio, ‘Castanheiras do Asfalto’ foi desenvolvido, impresso e distribuído.

A parceria de instituições marabaenses também foi responsável pelo lançamento: Câmara Municipal de Marabá, Fundação Zoobotânica de Marabá, Instituto de Arte Vitória Barros, Ministério Público do Estado do Pará e Secretaria Municipal de Agricultura.

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