Em uma noite marcada pela memória, ancestralidade e reverência aos saberes originários da Amazônia, a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) concedeu o título de Doutora Honoris Causa à liderança indígena Ronore Ronjokraktare Kanprere Pahinti, eternizada entre seu povo como “Mamãe Grande”. A cerimônia, realizada na aldeia Kupêkatê Kỳikatêjê, na Terra Indígena Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins, tornou-se um dos acontecimentos mais simbólicos da trajetória institucional da universidade e um marco histórico para os povos indígenas do Sul e Sudeste do Pará.
Mais do que uma solenidade acadêmica, a homenagem transformou-se em um poderoso gesto político, cultural e civilizatório de reconhecimento à resistência indígena, à memória ancestral e às formas de conhecimento historicamente invisibilizadas pelas estruturas coloniais da sociedade brasileira.
Ao realizar a cerimônia dentro do território indígena, a Unifesspa reafirmou o compromisso de construir uma universidade amazônica profundamente conectada aos povos, aos territórios e às realidades sociais que constituem o Sul e Sudeste paraense. O gesto simbólico de deslocar a universidade até a aldeia representou também o reconhecimento de que há ciência, filosofia, pedagogia, história e produção legítima de conhecimento nos saberes ancestrais preservados pelos povos originários.
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Integrante do povo Akrãtikatêjê, um dos grupos que compõem os chamados Gaviões Ocidentais, Mamãe Grande atravessou praticamente todo o século XX testemunhando e resistindo às profundas transformações impostas aos povos indígenas da Amazônia oriental. Sua trajetória se confunde com a própria história da região: os conflitos territoriais, as epidemias, os deslocamentos compulsórios, o avanço das frentes econômicas e os impactos provocados pelos grandes projetos implantados na Amazônia ao longo das últimas décadas.
A Terra Indígena Mãe Maria, onde vivem os grupos Akrãtikatêjê, Kỳikatêjê e Parkatêjê, tornou-se símbolo das contradições amazônicas contemporâneas: atravessada pela Estrada de Ferro Carajás, pela BR-222, pelas linhas de transmissão da Eletronorte e diretamente impactada pela construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.
Foi justamente nesse cenário de intensas ameaças à continuidade física e cultural de seu povo que Mamãe Grande emergiu como liderança fundamental para a reorganização coletiva dos Akrãtikatêjê. Estudos antropológicos mencionados na proposta de concessão do título registram que, entre os anos de 1958 e 1961, a população do grupo foi reduzida de 74 para apenas 31 indivíduos. Em meio às epidemias, mortes e deslocamentos, Ronore Kaprere Pahiti tornou-se guardiã da memória ancestral, da língua, dos rituais e dos ensinamentos tradicionais de seu povo.
Descrita nos registros antropológicos como “a pessoa de maior evidência da comunidade”, Mamãe Grande consolidou-se como referência política, espiritual e cultural em um contexto social tradicionalmente marcado pela atuação política masculina. Seu nome tornou-se sinônimo de proteção coletiva, cuidado e transmissão dos saberes ancestrais às novas gerações. Por isso, entre seu povo, passou a ser reconhecida como “aquela que ensina e protege a todos”.
