📅 Publicado em 10/06/2026 11h34
Barracas espalhadas pelas áreas externa e interna da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), núcleo Cidade Nova, em Marabá, bandeiras hasteadas e uma rotina de assembleias e organização coletiva marcam a mobilização que reúne aproximadamente 2,3 mil trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), à Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Estado do Pará (Fetraf-PA) e à Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Fetagri). Unidos, os movimentos afirmam que permanecerão no local até que o Governo Federal apresente respostas concretas para uma pauta histórica relacionada à reforma agrária e à agricultura familiar.
O ato, que começou com o MST e posteriormente incorporou Fetraf e Fetagri, ganhou dimensão estadual e transformou a sede do Incra em um espaço permanente de reivindicação. Entre as principais demandas estão a criação de novos assentamentos, a regularização fundiária de famílias que aguardam há anos pelo acesso à terra, a realização de vistorias em áreas destinadas à reforma agrária, além da liberação de créditos, investimentos em infraestrutura e fortalecimento da estrutura operacional do próprio Incra.
Wellington Saraiva, representante da coordenação nacional do MST, afirmou que a mobilização busca acelerar processos que se arrastam há décadas. “O MST tem hoje mais de 100 mil famílias acampadas no Brasil e muitas delas aguardam há 20 ou 30 anos por um assentamento. Pessoas que chegaram com 30 ou 40 anos hoje estão com 60 ou 70 anos, no limite da sua força de trabalho. O que estamos fazendo aqui é cobrar a celeridade desses processos”.
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Segundo ele, o Pará concentra cerca de 30% do orçamento nacional destinado à reforma agrária e possui uma das maiores demandas do país, mas a lentidão administrativa continua impedindo avanços significativos. O dirigente também criticou a atuação do Estado em conflitos fundiários, afirmando que muitas vezes o aparato público atua prioritariamente na defesa patrimonial de fazendas, enquanto as demandas das famílias seguem sem solução.
A Fetraf sustenta que apenas sua base organizativa reúne aproximadamente 20 mil famílias cadastradas, muitas delas aguardando há 15, 18 e até mais de 20 anos por respostas relacionadas ao acesso à terra e à efetivação de políticas públicas. Em documento apresentado ao Governo Federal, a entidade afirma que a falta de estrutura, servidores e orçamento nas superintendências do Incra tem contribuído para a morosidade dos processos.
Representando a entidade, Roberto Elias de Lima afirma que os trabalhadores convivem há anos com promessas que não saíram do papel.
“Nós temos famílias esperando há mais de 10 e até 15 anos. Conseguimos cadastrar 13 mil delas no sistema do Incra, mas os encaminhamentos não se consolidam. O governo criou expectativas com programas voltados ao acesso à terra, porém nada disso se concretizou até agora”
Ele também destacou que existem áreas já apontadas para aquisição e assentamento de famílias, mas que os procedimentos administrativos seguem sem conclusão. Para o dirigente, o período pré-eleitoral torna ainda mais urgente a necessidade de definição dessas pautas.
Outra reivindicação dos movimentos é a reestruturação do Incra, com contratação de técnicos e engenheiros, ampliação dos recursos destinados à aquisição de áreas e melhores condições de trabalho para os servidores responsáveis pela análise dos processos. Também fazem parte da pauta medidas de proteção às famílias ameaçadas em conflitos agrários e a investigação de casos de violência contra lideranças da agricultura familiar.

Coordenadora da Fetagri Regional Sudeste, Eloína Silva afirma que o objetivo da mobilização é garantir não apenas terra, mas condições de vida para quem produz alimentos. “Nossa luta é pelo acesso à terra, mas também pelas políticas públicas que permitam às famílias sobreviver dela, produzindo alimento saudável. Temos bandeiras diferentes entre os movimentos, mas a pauta é a mesma: defender e lutar para que a reforma agrária aconteça de fato”.
Enquanto isso, a estrutura do acampamento é mantida pelos próprios movimentos. Alimentação, água, gelo e toda a logística são organizados coletivamente, segundo explicou Joffre Alves de Lima Filho, coordenador da Fetraf Pará e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar de Marabá.
“Não há apoio financeiro do governo ou da prefeitura. A agricultura familiar é quem coloca alimento na mesa da população, e estamos reivindicando um direito que consideramos nosso”.

Os movimentos também defendem a instalação imediata de uma mesa de negociação com participação da Presidência da República, Incra Nacional, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Meio Ambiente, Ministério Público Federal, Ibama, ICMBio, Iterpa e da empresa Vale, para discutir conjuntamente as demandas apresentadas.
Sem previsão de desmobilização, as lideranças afirmam que o acampamento permanecerá em frente ao Incra até que haja encaminhamentos considerados concretos para as pautas históricas da reforma agrária e da agricultura familiar no estado do Pará.
